A macaca e o quadrilátero da esquisitice

agosto 26, 2008

Ilustrações Web

 

Os lados de um quadrilátero são a composição quase perfeita de todas as experiências de uma vida. Quase porque o artigo mais consultado de toda a história da lei da selva determina: 1° – Nada é perfeito. “Ainda bem, senão onde eu iria parar?”, pensa a macaca.

Em resumo, “as paredes” de um quadrilátero contêm as cores e a graça dos primeiros anos de um símio. Aprender a andar é um processo árduo e de contundente esquisitice. Causa de arrepios, tremedeiras e embrulhos cerebrais, ele perturba o senso como todo o bom parto: inúmeras contrações, caretas e descompassos abdominais até que a bolota salta e do procedimento ventre afora surge o senhor bebê. Nascer mais de uma vez na vida tem a mesma cadência desembestada. Das vitórias às derrotas, o acorde é de um ritmo que afina e desafina de acordo com a decisão de estar e pertencer no chamado cotidiano.

A macaca repete para si a cada amanhecer da quente vastidão da floresta: “Nascemos e crescemos para nascermos e crescermos várias vezes durante todos os anos de nossa existência. Troço estranho, porém absolutamente natural este”. Espirituosa e determinada, a macaca sempre soube o que queria. Poucos foram os momentos que titubeou quando o assunto era o desbravar dos mistérios de toda a selva extensa, tomada pelo sol e por animais para lá de curiosos.

O que havia se passado, contudo, era algo de terrível. Perdera o rumo e sua alegria de viver. Sem mais nem por que, decidira se esconder num canto escuro da alma arrasada. Passou meses a fio de cabecinha baixa. Com seus largos beiços vazios de sorriso, arrastava a pança rosada por sobre as gramas úmidas de um inverno chuvoso e cinzento.

– Mas que droga, resmungava. Tanto foi o que entreguei para ele e o que sobrou é o nada, mais oco do que o galho que me derrubou. Será possível? Quantas cabeçadas terei de dar até que aprenda a caminhar com alguma decência pelos terrenos de meus anos? Já tenho uma certa idade, não é mesmo? Então por que diabos ainda me arrebento de forma tão dramática?

Ele foi o bicho macho que a macaca mais havia amado. A descoberta de que se tratava de um verme a decepcionou.

“Credo!”, exclamou, incrementando o vocabulário da autopunição: Como pude colocar sobre meu coração uma tarja deveras preta?” O consolo, mas não desculpa, era saber que quando nos apaixonamos, na maioria dos casos, e certamente existem exceções, entramos em um processo de emburrecimento tamanho que negamos até as sábias palavras da mãe – a mundialmente conhecida macaca velha.

Mal findou a frase e mais um turbilhão lacrimal escorreu de seus olhos, que a essa altura estavam tão esbugalhados que nem óculos escuros dariam jeito de disfarçar sua ultrajante condição. Gritava de dor, esmurrava a terra que escolhera, há dois anos, para construir seu futuro junto à macacada esplêndida que a convocou com afeto e demasiada simpatia para a lida do princípio de caminho.

A grande árvore era tudo o que a macaca sonhara. Jardim colorido e perfumado; varanda com gradil de cipó apuí; tronco de madeira de lei, alto e robusto; galhos de tamanhos variados e bem distribuídos. Um lar; enfim, – sólido e consistente. A macaca foi muito bem acolhida pela família. Havia chegado de uma longa e exaustiva viagem. Estava cansada por conta da super dosagem de uma aventura ardida. A formação do indivíduo, seja ele da espécie que for, é tarefa complexa. As lições exigem disciplina e comunhão de corpo e mente. Questão a ser trabalhada pela experiência é a impertinência da mocidade. Bichos jovens têm por hábito acreditar em poderes sobrenaturais.

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One Response to “A macaca e o quadrilátero da esquisitice”

  1. Eliziário Says:

    Demais. Você vai longe, garota.


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