Parque da Redenção
março 7, 2011
Sul da Ilha de Santa Catarina
março 4, 2011
Centro da cidade
fevereiro 22, 2011
Impressões de uma jornalista solta na cidade maravilhosa.
Arquivo pessoal
Nas Trilhas de Floripa
janeiro 20, 2011
Publiquei a reportagem a seguir na edição 160 da Revista Aventura & Ação, que circulou em novembro e dezembro de 2010. Disponibilizo o material na página para que o texto mantenha a sua função após o número ter saído das bancas: informar.
Boa leitura.
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Crédito de foto: Victor Emmanuel CarlsonCom infraestrutura de uma cidade grande, ótimos hotéis e restaurantes, a capital catarinense oferece paisagens fascinantes que fazem a alegria dos amantes da vida ao ar livre. Em meio ao cenário paradisíaco de praias primitivas e muita Mata Atlântica, uma atividade que tem se destacado é o trekking que cativa aventureiros interessados em explorar os cenários mais exclusivos de uma das ilhas mais bonitas do Brasil
A tarde é de calor, o lugar, um dos redutos mais antigos da capital catarinense, a Praia dos Naufragados. Esse cenário, unido ao movimento descontraído das pessoas pela trilha que liga a rústica Caeira da Barra do Sul ao extremo sul da Ilha, convida os visitantes a desfrutar de belos dias de sol. De repente, um burburinho chama a atenção dos turistas na entrada da praia. As pessoas se deslocam em direção ao costão esquerdo de Naufragados, seguem o som da música, e, alguns metros à frente, deparam-se com uma cena atípica: manezinhos (apelido dos habitantes tradicionais de Florianópolis) saúdam as belezas do entorno: “um pedacinho de terra perdido no mar, num pedacinho de terra beleza sem par, jamais a natureza reuniu tanta beleza, jamais algum poeta teve tanto pra cantar.” O trecho do Rancho de Amor à Ilha, o hino oficial de Florianópolis, é entoado por uma dúzia de vozes vibrantes e apaixonadas.
Não por menos, ela é chamada de Ilha da Magia. Dezenas de praias, algumas badaladas, outras selvagens, lagoas, cachoeiras, dunas, encostas e montanhas cobertas pela Mata Atlântica compõem o cenário deste pequeno paraíso litorâneo. Com oferta de inúmeros atrativos, a lha passa, na alta temporada, a abrigar quase um milhão de turistas. Os 408 mil habitantes adaptam suas rotinas para receber os visitantes. Para fugir do agito, a boa pedida é se lançar nas trilhas ecológicas que revelam cenários preservados, uma biodiversidade vibrante, além da cultura tradicional do lugar. São mais de 30 trilhas e caminhos distribuídos pelo território (433 km²) de Norte a Sul.
De acordo com Augusto César Zeferino, geógrafo e autor do livro Trilhas e Caminhos da Ilha de Santa Catarina, existe
diferença entre a trilha e o caminho. A primeira costumava ser aberta por desbravadores, interessados em descobrir lugares e conhecer as matas. O segundo possuía uma função mais econômica. “Muitas estradas da Ilha, hoje oficiais, surgiram destes traçados”, esclarece. Os percursos, realizados por dentro da mata ou pelas margens dos costões, levam o caminhante a verdadeiros oásis naturais, alguns próximos de zonas urbanas bastante movimentadas, outros completamente afastados da civilização. Em trilhas como a da Lagoinha do Leste, uma praia selvagem, e dos Naufragados, sul da Ilha, podem ser avistadas espécies da fauna terrestre como cutias, lagartos, saguis e macacos-prego. No céu, um show à parte, protagonizado por cerca de 170 espécies de aves entre as residentes e as migratórias. Em Naufragados, devido à sua localização, é possível ainda avistar botos, e, de julho a novembro, a Baleia Franca. Pescadores que vivem na praia oferecem passeios de barco o ano inteiro.
As trilhas e os caminhos de Florianópolis foram abertos por índios (guarani e carijó), colonizadores luso-açorianos, militares, escravos e pelas próprias comunidades que se instalaram pelos traçados e no entorno das regiões. Seus habitantes mantêm os trajetos até os dias de hoje. “Estes percursos pela mata sempre tiveram importância, antes usados por questões econômicas, sociais e religiosas; hoje, para a prática do ecoturismo e do turismo de aventura”, diz Zeferino.
A riqueza cultural legada por antepassados é apreciada tanto nos casarões em estilo açoriano como nos simplórios ranchos de pesca à beira-mar, ao som de ritmos como o reggae e o samba, em avenidas largas e estreitas servidões (como são chamados os rasgos de terra, alguns pavimentados, que irrompem diversos bairros da cidade). O Ribeirão da Ilha, caminho para a entrada da Trilha dos Naufragados, é um dos mais antigos núcleos de colonização açoriana da capital. Embarcações, como canoas e baleeiras, e peças de artesanato, como balaios e cestos de cipó, preservam tradições centenárias. O bairro é um dos pólos de produtores de ostras de Florianópolis, reunindo bares e restaurantes que servem pratos à base de frutos do mar.
Entre as trilhas e os caminhos selecionados para este roteiro estão a dos Naufragados, da Lagoinha do Leste, do Morro das Aranhas e de Ratones para a Costa da Lagoa. Os critérios utilizados para a sua escolha foram o nível de dificuldade para a realização dos trajetos (todos podem ser feitos sem risco para o caminhante), a diversidade de paisagens e o tempo de percurso.
NAUFRAGADOS
Com início no ponto final da linha de ônibus Caeira da Barra do Sul e final na praia dos Naufragados, a trilha é larga, bem marcada, de fácil acesso e com nível baixo de dificuldade. Tem duração de 40 minutos e extensão de 2.621 metros. Localizada no extremo sul da Ilha, a praia pertence ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e abriga floresta de Mata Atlântica espalhada por montanhas e encostas. Pela trilha encontram-se córregos, alagados e quedas d’água cristalina, entre ruínas de um antigo engenho de farinha e casarões açorianos. Da beira-mar, vê-se o continente, que fica a três milhas náuticas dali: Praia do Sonho, da Pinheira, Guarda do Embaú e Gamboa, em Garopaba. Oficinas líticas incrustadas em pedras do canto esquerdo da praia remontam aos primórdios.
De acordo com Aladir Custódio da Costa, 67 anos, pescador, pela trilha transportavam-se mandioca, milho, lenha, peixes como tainha, anchova, corvina, bagre e tudo o que era produzido pelos aldeões. “A trilha existe há muitos anos. Eu estou aqui há quase 50 e faço o percurso desde moço”, afirma. “Quem utilizava mais eram os moradores daqui, mas de uns 20 anos para cá, as pessoas começaram a desbravar para conhecer e passear. Vem gente de tudo que é canto.”
Naufragados tem este nome por conta dos naufrágios que aconteceram na época da colonização. O mais conhecido ocorreu em 1751, quando uma embarcação com 250 colonos açorianos naufragou no local, deixando 173 mortos e 77 sobreviventes. História, lendas e mistérios cercam a Ilha, manifestando-se na cultura e nos hábitos dos moradores da aldeia, que contam com entusiasmo sobre a mulher da cachoeira, o homem do facão, a cobra do engenho e a história do tesouro. “Há um ponto na baía chamado de pegador. O lugar se transformou em uma referência para muita gente porque se sabe dos restos de embarcação que estão no fundo do mar. Algumas pessoas chegam aqui e me pedem para levar até lá. Elas acham que eu sei onde está o tesouro”, comenta Fernando Bittencurt, pescador de 47 anos.
Bittencurt fundou com Wanderlei Andrino Borges, 41 anos, a Associação Náutica Coraes, que promove passeios de barco pela baía e ilhas, costeando montanhas praticamente intocadas. Quem opta pelo tour no cair da tarde ou início do dia tem o privilégio de cruzar com várias espécies de pássaros nativos: gralhas azuis, garças-brancas, saracuras e aracuãs. Na margem direita da praia, há uma pequena trilha que leva ao Farol dos Naufragados, de onde se avistam o Forte de Nossa Senhora da Conceição (século 18), em Araçatuba, e as ilhas do Papagaio Pequena e Grande. No caminho, o visitante passa por canhões de guerra, registros históricos deixados pelos militares. Outro atrativo de Naufragados são os restaurantes à beira-mar, que oferecem pratos típicos à base de frutos do mar.
Distância Centro – Bairro
Caeira da Barra do Sul: 34 km
LAGOINHA DO LESTE
A trilha da Lagoinha do Leste é famosa por possuir uma das vistas mais belas do litoral catarinense. O percurso, realizado ora pela mata, ora pela beirada de costões, dura cerca de 1h45, sendo considerado de nível médio de dificuldade – há pedras e algumas bifurcações por quase toda a sua extensão (de 3.760 metros). Entre os atrativos da caminhada estão fontes e cursos d’água potável em pelo menos três passagens até a Praia da Lagoinha do Leste.
Muito utilizada por jovens e surfistas atraídos pela natureza selvagem e ondas que podem chegar a três metros de
altura, a trilha também caiu no gosto de moradores e todo tipo de visitante, por sua característica primitiva. “O trajeto para a Lagoinha define muito bem o conceito de trilha. A praia é pura e cheia de natureza. O turista chega a um lugar que é um paraíso intocado em plena capital”, afirma Victor Emmanuel Carlson, jornalista, fotógrafo e co-autor do livro Trilhas e Caminhos da Ilha de Santa Catarina. A praia – localizada a sudeste de Florianópolis – pertence ao Parque Municipal da Lagoinha do Leste, criado em janeiro de 1992 com o objetivo de preservar um dos últimos redutos de vegetação primária de Mata Atlântica.
A Lagoinha possui extensão de 1.240 metros e tem este nome por abrigar uma laguna de água salgada (exceto na nascente e nos trechos mais profundos), cuja foz encontra-se na margem esquerda da praia. Diversas pessoas costumam, principalmente em alta temporada, acampar na restinga próxima à laguna. O ‘trilheiro’ que preferir seguir o passeio rumo ao sul da Ilha pode caminhar até o canto direito da praia e cruzar a divisa entre a Lagoinha e a Praia do Pântano do Sul, reduto tradicional da capital. Da Lagoinha ao Pântano há uma trilha bem marcada com um aclive de 194 metros, cujo trajeto é mais leve, apesar do desnível. Esta possui 2.420 metros de extensão percorridos em cerca de 40 minutos. Para recompor as energias da caminhada, vale conferir o cardápio do pitoresco Bar e Restaurante do Arante, no Pântano, famoso por servir uma variada gama de pratos artesanais com sabor caseiro.
Distância Centro – Bairro
Praia do Matadeiro: 21 km
MORRO DAS ARANHAS
Com início no costão sul da Praia do Santinho, a trilha do Morro das Aranhas possui trajeto íngreme, com extensão de 1.400 metros, e duração que varia de 40 minutos a 1h15, a depender do ritmo dos caminhantes. O nível de dificuldade é baixo, embora a subida exija preparo físico. O Costão do Santinho, uma das praias mais badaladas da Ilha por ser sede de um resort de alto padrão, é bastante conhecido por abrigar a maior reserva de oficinas líticas e inscrições rupestres do sul do Brasil. A excelente estrutura do local, reconhecido por lei como Patrimônio Nacional, inclui decks, mirantes e passarelas, e propicia a melhor visualização do sítio arqueológico. O percurso é bem sinalizado, com passagens bem demarcadas e placas de sinalização.
As montanhas cobertas pela Mata Atlântica e a forte arrebentação do mar em rochedos de formação basáltica compõem a paisagem do lugar. Pouco antes da entrada da trilha, o visitante pode apreciar a vista das Ilhas das Aranhas, de onde, segundo a versão popular, hoje oficial, surgiu o nome do antigo distrito. O jeito ligeiro dos manezinhos pronunciarem os vocábulos uniu as duas palavras, transformando-as em um denominativo, ‘Dazaranha’. No topo do morro, que possui 255 metros de altura, a vista panorâmica da Praia dos Ingleses, ao norte, e de Moçambique e Barra da Lagoa, a leste, atrai pessoas de todas as idades. A visibilidade é excelente e a paisagem fantástica.
Distância Centro – Bairro
Costão do Santinho: 40 km
DE RATONES PARA A COSTA DA LAGOA
A trilha de Ratones para a Costa da Lagoa é um dos mais antigos traçados de Florianópolis devido a sua função de aproximar as comunidades que viviam em suas extremidades no passado. Ela foi aberta com objetivos sociais e econômicos. Toda a produção de Ratones que precisava alcançar o Porto da Barra (da Lagoa) era transportada pela trilha em carro de boi ou lombo de mula. O seu início é no Canto do Moreira (Estrada Geral de Ratones) e a sua extensão é de 2.250 metros bem marcados entre subida e descida de um morro de 160 metros de altura.
O percurso inteiro é coberto por vegetação de Mata Atlântica; entre as espécies da fauna estão aves, lagartos e
macacos de pequeno porte; e a vista panorâmica do ponto mais alto inclui a Lagoa da Conceição, a Barra (da Lagoa) e o Rio Vermelho. Ratones é o bairro mais preservado do norte da Ilha, com largas propriedades rurais e intensa atmosfera bucólica. Pouco antes da entrada da trilha localiza-se o Sítio Çara Kura, um espaço modelo de práticas ligadas a projetos de permacultura e bioconstrução. O sítio é uma referência para ambientalistas, pois dispõe de um sistema autossustentável integrado à natureza, sem causar impacto. O espaço é visitado por inúmeros grupos de interessados, entre eles moradores, turmas de escolas da capital, estudantes universitários e turistas.
O trajeto termina na Costa da Lagoa, próximo à Praia do Sul – nesta localidade só se chega pela trilha ou de barco. A Lagoa da Conceição, um dos cartões-postais de Florianópolis, divide-se geograficamente entre Porto, Canto, Costa e Barra da Lagoa. A Costa é um dos braços, cuja personalidade ribeirinha se mantém, expressando- se por meio da culinária, do folclore e de costumes. No percurso de barco do Porto à Costa, há contraste entre construções de alto padrão e casas de pescadores, entre a arquitetura arrojada e os ranchos de pesca que sobreviveram à explosão imobiliária que ocorreu na região entre os anos 1980 e 2000, quando famílias de diversas partes do Brasil e do exterior migraram para Florianópolis em busca de qualidade de vida.
Quem optar por estender o passeio, pode escolher um dos restaurantes do “centrinho da Costa” e experimentar um dos pratos típicos oferecidos nos estabelecimentos. Para os caminhantes, a primeira opção é o Restaurante do Cabral, situado no ponto de chegada da trilha. Outras são o Índio, o Coração de Mãe e o Cachoeira. No cardápio, constam a sequência de camarão, peixes fritos, grelhados ou à milanesa, pirão, salada e acompanhamentos. Parte dos barcos que navegam na Costa da Lagoa pertence à frota do Sistema de Transporte Hidroviário Municipal. A grade de horários de saída das embarcações está fixada no Terminal do Porto. A tarifa é de R$ 3,20.
Distância Centro – Bairro
Ratones: 25 km
* * *
DICAS
- Tênis confortável, próprio para trekking;
- Roupas leves, que absorvam bem o suor. De acordo com a trilha, é aconselhável usar calças que cubram as pernas;
- Água e lanche (sanduíches, frutas, barras de cereais, chocolate, biscoitos, etc)
- Protetor solar;
- Óculos escuros;
- Boné ou chapéu;
- Repelente para insetos;
- Mochilas resistentes;
- Lanterna;
- Guia das trilhas a serem percorridas;
ACESSOS (Florianópolis)
Por via rodoviária
De Porto Alegre: BR-290, BR-101.
De São Paulo: BR-116, BR-375, BR-101.
De Curitiba: BR-101, BR-376.
Por via aérea
Vôos regulares partem das principais capitais brasileiras.
DISTÂNCIAS
Porto Alegre: 476 Km
Curitiba: 300 Km
São Paulo: 705 Km
Brasília: 1.673 Km
MAIS INFORMAÇÕES
SERVIÇOS TURÍSTICOS
Santur
(48) 3212-6300
Secretaria Municipal de Turismo
(48) 3952-7000
Central de Atendimento ao Turista
0800 644 6300/ (48) 3212-6328
Delegacia de Proteção ao Turista
(48) 3222-4065
Florianópolis Convention & Visitors Bureau
(48) 3222-4904/ 3224-1721
TELEFONES ÚTEIS
Polícia 190
Bombeiros 193
Emergências Médicas 192
Polícia Rodoviária 191
Aeroporto (48) 3331-4000
Rodoviária (48) 3212-3100
Tele-Táxi (48) 3240-6009
Nas bancas
novembro 29, 2010
Facebook’eadas’
29 de novembro de 2010
Nas Trilhas de Floripa
A edição 160 da Revista Aventura & Ação já está nas bancas com a minha reportagem Nas Trilhas de Floripa na capa. As 16 páginas contam com um roteiro completo para os amantes da prática de esportes em meio à natureza. O texto une turismo, cultura e história em uma empreitada de repórter pelas trilhas e pelos caminhos da Ilha de Santa Catarina.
Não perca!
Notas de Bolso
junho 13, 2010
Passei outro verão no Rio de Janeiro, minha cidade natal. Sim, misturo peculiaridades, cheiros e cores de diversas regiões. Sou brasileira. Uma completa miscelânea. Em minha árvore genealógica posso incluir, para engatar o trem (começo de conversa), o Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul, o Amazonas e o Ceará.
Parti de Florianópolis nos primeiros dias do ano disposta a aproveitar ao máximo as férias que me proporcionei após um 2009 de bastante movimento: trabalho, produção, atividade, aquela coisa toda. Percorri a região dos lagos, estive em Arraial do Cabo com a minha família, dei um pulo em Búzios e toquei para a cidade maravilhosa.
Cheguei animada, o tempo passou desenvolto, renovei baterias, uni o útil ao agradável investindo em buscas por contatos profissionais (mudo-me para lá em breve), conheci pessoas, reencontrei amigos, passeei um bocado, pulei um dos carnavais mais divertidos de todos os tempos (os blocos de rua do Rio arrasam, em especial o Bangalafumenga, que desta vez saiu no Jardim Botânico, o bairro), foi ótimo…neurótico, para usar uma gíria do momento na metrópole mais iluminada do Brasil.
Durante os dois meses que permaneci no Rio, rabisquei algumas notas em um caderno. Fiz por hábito, gosto de reportar o que vivo quando saio de meu eixo, e por prazer. Acreditem, houve espaço para intervalos abertos tipicamente por jornalistas. Não nego a raça.
Passou-se terça parte de ano desde o meu retorno. Escarafunchando o passado, reli os meus escritos. Ocorreu-me que seria animador trazê-los à vida. Tradução: encontro-me a batucar o teclado com a finalidade de transmitir aos meus leitores uma porção do que senti, experimentei e descobri em minha viagem. Determinei, por um par de razões, que publicarei somente as notas mais recentes. Elas estão mesmo melhores, mais atraentes.
Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2010
Já estou há quase dois meses no Rio. Muito tempo para quem está acostumada a viver em uma cidade menor, mais simples e pacata. Meu reencontro com a realidade daqui, de modo geral, tem me feito muito bem, aberta algumas exceções. O Rio é uma cidade rica, caótica e emblemática. Gosto de circular, de explorar e me tornar cada vez mais íntima do lugar. A vida pulsa no rosto das pessoas, o ritmo frenético do dia-a-dia explode em seus corpos e alegria contagiante. Que povo charmoso!
Há muita energia no ar. Confesso que isso me estimula, me deixa atenta aos detalhes ora sutis ora explícitos. Combinação interessante. Renasço um pouco a cada passo que dou pelos caminhos de minha terra natal. Ao perambular, vez ou outra, abre-se uma fenda entre mim e meu berço. São momentos de impacto gerados pelo forte choque cultural. Cresci em outro mundo. Porto Alegre é tão diferente daqui. Ai, meu Deus, que medo incômodo este que me invade sem querer. Conseguirei me adaptar ao rebuliço gritante de uma megalópole? Rrrrrrr, que raiva. Há instantes em que desejo com ardor ser menos à flor da pele. Luto em vão. Respiro fundo. Levanto a cabeça. Olho ao redor. Eu vou vencer todas as dificuldades. Como diz o meu pai, “o impossível é viável, só demora um pouco mais minha filha. É assim mesmo, viu?”
(…)
Hoje, pela primeira vez em muito tempo, chove. Uma garoazinha fina e contínua. Que cidade quente. Nossa mãe do céu! O sol daqui parece sempre furioso, faminto, exterminador. Mas ele dá ao povo uma luminosidade que não existe em qualquer outro lugar do mundo. O carioca sorri com uma facilidade única e indescritível. É bonito de ver. Consigo enxergar nele parte de minhas raízes. Coisa séria. A lembrança de minha avó é uma constante. Sei que ela está comigo no decorrer desta nova etapa. O que ela diria agora?
(…)
A saudade de minha mãe e do cheirinho de Florianópolis insiste em bater à porta. Quero voltar para casa e curtir o que tenho de mais sagrado, minha família, enquanto ainda posso. É chegada a hora. Vou abraçar os mares da província com toda a força de meu coração.
Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 2010
Neste exato momento, estou de frente para o mar grande, forte, sem fronteiras. O cinza do dia me traz para perto os períodos de transição entre estações na Ilha. Que saudade! Como estará o meu cantinho teimoso? A minha pequenina e dengosa ilhazinha de tantos encantos? Quero-te mais uma vez.
Que aperto no peito. Arre Carolina. Que saco! Por que você é este redemoinho de sentimentos desgovernados? Preciso orientar-me, senão, onde diabos vou parar? Kakakakakakaka! Que figura, guria.
(…)
Acordei cantarolando o Tom:
Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando pra Elizete
As canções de canção do amor demais
Lembra que tempo feliz
Ah! que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
Em janeiro ou início do mês, bateu um branco de repente, dei um giro por Ipanema inteira com o Peter. O passeio estava uma delícia. Rodamos à beça. O Peter a fotografar tudo. Não sei como não teme um assalto. Anda com uma câmera de última geração (enorme e vistosa) a tira colo sem pensar em mais nada. Sinto-me patética fazendo de carteira esta bolsinha minúscula. Uso-a para evitar carregar documentos. Trago comigo a identidade e olhe lá. Ts, preciso aprender as manhas de morar aqui. Calma.
(…)
Não poderíamos deixar de dar uma passadinha na Rua Nascimento Silva, 107. Estive na frente do prédio em que morou o nosso maestro soberano. Uma graça. Baixo, deve ter uns três andares. Super simpático. Junto ao portão alto, escuro, de gradio bem delineado, há um verdadeiro muro verde. Aiii. Pensei no Tomzinho entrando e saindo dali ao lado de tanta gente boa, Vinícius, Toquinho, Chico, Elizete, wow! Belas memórias para guardar. Estou feliz!
Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2010
Não há como negar. Esta cidade é deslumbrante. Quanta beleza! O Rio é especial, fértil, borbulhante, um Veuve Clicquot da melhor safra. Ehehehehe. Acho que uma Stella Artois bem gelada combina muito mais com a atmosfera carioca. Hummm. Vai de acordo com a ocasião. Ambas as opções servem ao estilo daqui.
O mar segue batendo muito. Dizem que no próximo sábado o sol, fogo do céu, voltará ao seu posto de Rei. Quase não chove na cidade. Desaba uma pancada nos finais de tarde, mas nada que assuste as pessoas. Humpf. Queria só ver um carioca morando no sul. Eita. Em Floripa então…vixi. Chove pra burro. Meu tio, que mora em Brasília, mas é carioquíssima da gema, apelidou a ilha de Florichuva. Eu explico para quem pergunta que o País é tropical até a fronteira com o Paraná. No sul, o clima é subtropical temperado gente. Coisas de Brasil.
(…)
O rapaz do quiosque acaba de colocar um pratinho com água de coco no chão. Ele chama o gatinho de rua: “pichichichich”. O bicho malhado, desconfiado, mas esperto, se aproxima. Sabe que o chamado tem a ver com coisa boa. O rapaz se afasta, observador. Comenta com o companheiro de trabalho, “espera, ele vai beber”. Água de coco? Será? Ehehehehe. Eu me divirto. O gatinho cola o focinho no pires. Cheira. Constata que não se trata nem de peixe nem de leite. Vai embora decepcionado. “Ahahahahah”, gaiteia o vencedor da parada, como eles falam por aqui. “Eu disse que o gato não bebia essa porra”. Ahh, sim, no Rio, fala-se muito palavrão. A cada x palavras, y são de origem duvidosa. Não é uma regra, mas acontece a torto e a direito.
(…)
Várias pessoas estão chegando. Algumas tomam os seus lugares nas mesinhas dispostas no entorno dos quiosques à beira-mar e fazem os seus pedidos. O falatório toma conta do calçadão. Blá blá blá pra cá e pra lá. O carioca adora papear. O que eu, particularmente, aprovo. Nota 10 com louvor. O homem é um ser social. Nada mais saudável do que a prática da comunicação oras. Claro, às vezes, cansa um pouco. É quando prefiro ficar sozinha.
No Rio, o povo tem uma ligação profunda com a praia. Todos, vira e mexe, estão a fazer próximos dela. Quem não gosta de fechar o dia olhando o mar, ao lado de amigos, jogando conversa fora? O contato direto com este ser independente (o oceano) faz um bem danado. Sinto, com certeza, que o carioca não conseguiria viver muito tempo longe do mar. Sua vitalidade tem relação com a estrela que emana das águas. Isto é fato. A mais pura verdade.
Impressões
julho 20, 2009
Conhecer Paraty foi uma experiência inesquecível. Cheguei à cidade no dia 1º de julho à tarde e ao descer do ônibus fui tomada pela atmosfera no mínimo entusiasmada do local. O brilho do sol que ainda se mostrava simpático para as milhares de pessoas que desembarcavam de todas as partes do mundo ampliou a sensação de boas-vindas que com o passar das horas só fez crescer dentro de mim. Senti-me como um canal de comunicação ambulante pelo qual passavam informações aos borbotões em tempo integral. Não havia o
que pudesse pouco inspirar os sentidos. Uaupontocompontobeérre, como diria Eliziário, meu GRANDE amigo, parceirinho de incontáveis horas de rica prosa em ritmo boêmio ou de trabalho alucinado e mentor, a quem devo muito do que hoje eu sou: macaca a plantar sementes e arar a terra. O passo número um – no meu caso o número cinco –, para se alcançar um belo, digno e grandioso sonho é cultivar o chão para colher os frutos que servirão de alimento nos dias que à frente me esperam. Há coisas que só dependem de nós. Curiosidade, paciência e persistência nos levam do presente cru para perto de um futuro composto por fartas colheitas, repetiu diversas vezes o artesão aquele de Paraty, né guri (Eliziário)? Citei com prazer e soltura o nome do guri porque infelizmente ele não pôde me acompanhar nesta aventura FANTÁSTICA.
O lugar é simplesmente deslumbrante. Um pedaço de história construído à beira-mar. Por onde se passa se respira a cultura brasileira: o verde da Mata Atlântica, o azul da baía que encosta na cidade, o colorido do casario colonial, o cheiro das cozinhas regionais, o gosto das artes espalhado por cada pequeno canto. MUITO BOM! Viajei no tempo e vi pelas ruas imagens de nossos ancestrais a cruzar meus passos, a erguer de forma planejada Paraty. Quantas pessoas passaram por ali? Quantas deixaram um tanto de si naquele espaço? Vi-me aberta, exposta e mais observadora do que nunca. Estar só é se perceber companheira de si mesma. Não há limites para o fazer, para o seguir por caminhos quaisquer, para o decidir, para o se perder para logo se encontrar.
Durante os cinco dias da 7ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o ar tomou sabor de cultura. Eu esbarrava com ela o tempo todo. O que sentia era a vida a pulsar por minhas partes com força total. Conheci gente nova, bati papo com pessoas de vários tipos. Um dos momentos que me
chamou a atenção foi quando estava eu sentada na boca de um dos muitos bares do Centro Histórico. Este, em particular, se localiza no largo da Praça da Matriz. De repente, um Hare Krishna se aproxima, vestido com a tradicional indumentária alaranjada, olha para mim e oferece a sua mão. – Boa noite. Disse ele com a voz aprazível dos de sua linha. – Boa noite. Respondi com olhar atento e vontade de ouvir mais. Era princípio da noite de abertura, pouco antes do show da Adriana Calcanhoto: MARAVILHOSO. Eu estava fazendo o meu lanchinho e tomando a minha cerveja enquanto me dedicava à alegria de estar imersa ao burburinho das vinte e poucas horas…huuuuuuum, delícia. Pois este rapaz de nome impronunciável, por certo o de batismo Hare Krishna, veio ter comigo porque, imagino, viu em mim uma das boas opções, em campo aberto, para a transmissão da Palavra. Ele trazia nas mãos uma penca de livros, todos escritos por um dos mestres da religião. Um deles, imenso e de excelente qualidade gráfica, foi o tal que ele, com delicadeza, dispôs sobre a mesa. A partir daí o burburinho cessou e me vi absorta nas
histórias de Krishna e de sua Palavra. Ocorre-me que a última vez que havia travado diálogo com um Hare Krishna foi em 1995, em Porto Alegre, no meio da rua e não me lembro dos detalhes. Gostei pacas de me ver trocando idéias e experiências com uma pessoa que se identifica como um renunciante. – O que é isso? Perguntei com alguma intuição a respeito do que estava por vir. Ele me encarou por uns segundos. Eu pensei vixi, passei a barreira do razoável. Que nada. Ele logo desabafou com gosto adocicado de orgulho. – Renunciante é aquele que abre mão da vida material em prol do desenvolvimento espiritual. Nós carregamos apenas o que nos é indispensável para a sobrevivência em nossa peregrinação. Todo o resto, bens materiais, objetos e acessórios de qualquer espécie ficam para trás.
– Sei. Será que ficam mesmo? Tenho cá as minhas dúvidas. O caminho para o desenvolvimento espiritual inclui não transar? Ensaiei a pergunta; em seguida desisti. Era capaz do Hare Krishna pensar que eu estava dando em cima dele. Do jeito que o mundo vai. Humpf. Fato é que ele estava ali para me vender alguma coisa. Embora o rapaz tenha repetido mais de uma vez que o objetivo era levar a Palavra. – Caso as pessoas aceitem doar quantias simbólicas para a manutenção do trabalho, aceitarei. Esclareceu. Vamos e venhamos que uma doação de R$ 25,00 é de grande valia, não? Com pouco mais eu poderia comprar um Dostoiévski, uma boa coleção de contos. Pela Invenção da Solidão, de Paul Auster, paguei um valor bastante próximo deste.
Contradições à parte, terminei a maratona com um livreto chamado Meditação & Supercosnciência enfiado no bolso.
Terei 64 páginas que me valeram R$ 5,00 para entender melhor ou não o universo dos renunciantes. Se vou me arrepender? Pelo menos tentei. Como disse o respeitado artesão de Paraty, curiosidade…Né guri? Let’s exploring! Como jornalista, percebi meu senso aguçadíssimo. Como pessoa, notei meu interior maior, mais carregado de boa bagagem.
O evento foi excepcional! Adorei! Não é à toa que a FLIP se consolidou como um dos festivais de grande expressão do mundo. Mauro Munhoz, presidente da Associação Casa Azul, uma das responsáveis pela realização da festa, descreveu com primor, em seu texto Interpretar e desenhar o mundo, a atmosfera contagiante que abraça as pessoas que participam da FLIP: “(…) pescadores, artesãos, estudantes, professores, vendedores, cozinheiros, turistas, editores, leitores e escritores se encontram e trocam experiências, trabalho, prazeres e conversas, influenciados pela linguagem, imersos em imaginação literária. (…) Por meio do olhar renovado, a literatura, razão maior da festa, é o que faz ver a realidade de maneira diferente nesses cinco dias em que o tempo parece transcorrer em outro ritmo, como nos rituais das festas populares”. Mergulhei neste universo, valeu a pena e pretendo repetir a dose.
Das 19 mesas que ocorreram na Tenda dos Autores, os expectadores puderam optar por assistir às conferências ao vivo ou na Tenda do Telão, três me levaram ao êxtase. Todas (das que estive presente), com exceção da Conferência de Abertura, alimentaram-me os miolos: biscoitos macacais da melhor qualidade. Três, como eu disse, deram brilho aos meus olhos. China no Divã (Mesa 4) trouxe dois excelentes jornalistas chineses, Ma Jian e Xinran. Ambos deram depoimentos emocionantes sobre a China de Mao Tsé-Tung, a Revolução Cultural e as transformações arrebatadoras pelas quais aquele país tem passado desde então. Fiquei tão impressionada que decidi comprar um dos livros de Xinran, As boas mulheres da China. Trate-se do relato de mulheres que viveram a violência de uma reeducação promovida por um sistema opressor.
A Mesa 14, Fama e Anonimato, foi composta por um dos maiores nomes do jornalismo,
um dos precursores do New Journalism, gênero que une a precisão factual do jornalismo e os recursos estilísticos da literatura, Gay Talese. Neste dia acordei com a certeza de que assistiria ao Talese ao vivo de qualquer jeito. Não consegui comprar o ingresso para a sua mesa com a devida antecedência. Montei aparato, busquei meios, rodei mundo. Deu certo e valeu cada instante investido para o alcance da meta. Talese é um dos meus ídolos. Não poderia passar por Paraty junto com ele sem vê-lo beeeeeeem de pertinho. Ele deu uma verdadeira aula de jornalismo. Trago comigo um trecho de sua fala. “Um jornalista precisa deixar o seu laptop um pouco de lado, precisa ir às ruas, precisa falar com as pessoas comuns e tocar o mundo real. O bom profissional deve ter curiosidade, paciência e persistência”. Preciso falar mais? Putaqueopariu…
Né guri? Ô!
Graaaaaaaaaaaaaaaaande Talese. É isso aí meu filho. Jogo no teu time com orgulho e paixão.
A Mesa 15, Escrever é preciso, me apresentou um escritor português chamado António Lobo Antunes. Eu confesso que não o conhecia. MARAVILHOSO! Ele falou sobre as suas impressões e percepções sobre o ser escritor, o processo de criação, as qualidades do texto narrativo. Achei-o inteligente, perspicaz, instigante e acima de tudo sensível. Descreve sua rotina e seu trabalho com uma sensibilidade própria de quem enxerga e sabe ouvir. O angolano José Eduardo Agualusa, um dos excelentes autores contemporâneos de língua portuguesa, afirmou em entrevista que o escritor necessita de disponibilidade para desenvolver o ofício. “Ele precisa estar disponível para saber ouvir. Isso é fundamental”.
Lobo Antunes possui esta característica. Dono de uma visão de mundo abrangente e inovadora, o autor cativou a platéia com seus comentários apaixonados e bem-humorados.
Paraty é isso: uma combinação perfeita entre o natural e o urbano, entre a História e a cultura popular brasileira. Em época de FLIP, a cidade resplandece, tudo envolve, rapta, faz cócegas, cutuca, estimula, interessa, transmite algo. Regressei com a certeza de que experimentei o que posso chamar de único. Vi com nitidez um retrato do Brasil e do nosso povo, cujo talento e vitalidade extravasam expectativas.
Ressalto a qualidade da Flipinha, um espaço incrível e muito bem construído para as crianças. As escolas públicas e particulares de Paraty participam da festa de forma efetiva. A tenda reservada para a Flipinha é, sem dúvida, um ponto de encontro de alunos e professores, os quais apresentam atividades realizadas dentro de sala de aula. O resultado do trabalho é sensacional e permanece exposto na tenda durante os cinco dias de evento. As crianças interagem, aprendem brincando e se entregam à leitura. Espetacular!
Parabenizo também os artistas plásticos Julio Paraty (pintor) e Dalcir Ramiro (ceramista). Estive em uma vernissage promovida por eles no atelier do Dalcir. A exposição Paratienses em Paralelo apresentou o EXCELENTE trabalho que os dois desenvolvem na cidade. A recepção foi muito calorosa, ambos são a simpatia em pessoa e as peças e os quadros expostos no espaço são de uma beleza ímpar. Seguem o telefone de contato do atelier 55 24 3371-6035 e o endereço do local: Rua Santa Rita, nº 65 – Centro Histórico.
Até a próxima. Toco y me voy. Olé!
Deixo como registro musical Esquadros, uma das músicas que eu mais gosto da Adriana Calcanhoto, e que claro, fez parte da trilha sonora da viagem. Ouvi-a, inclusive, ao vivo, cantando-a com todos que no largo da Praça da Matriz se amontoaram para assistir ao show.
Esquadros
Adriana Calcanhoto
Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus…
Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome…
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado…







































