Beatriz: piano e voz sobre o Tejo
outubro 16, 2010
Facebook’eadas’
16 de outubro de 2010
Em conversa sobre as peripécias da cena cultural em Porto Alegre, meu irmão – que passa uns dias conosco na Ilha -, apresentou-me o trabalho fabuloso de Maria João e Mário Laginha. Os músicos portugueses estiveram no Porto Alegre em Cena de 2010 com o espetáculo Chocolate. Entre comentários sobre a qualidade virtuosa da dupla, ele me mostrou o clipe da canção Beatriz, composta por Edu Lobo e Chico Buarque, em que os dois a interpretam suspensos sobre o Rio Tejo (Lisboa). Esplendoroso! Chorei de emoção.
Cabras da Peste
agosto 21, 2010
Estou acompanhando a novela A História de Ana Raio e Zé Trovão, que, diga-se de passagem, depois de Pantanal, foi a coisa mais revolucionária que a teledramaturgia brasileira produziu. Saboreio cada capítulo. Uma orgia.
Naquela época – o folhetim foi ao ar pela primeira vez em 1991 (hoje é o SBT que transmite) –, novelas eram obras originais da criação do roteiro à concepção da trilha sonora. As músicas eram compostas especialmente para elas. Cada personagem de destaque tinha a sua canção. Não que isso fosse uma regra. Algumas músicas eram selecionadas após período de pesquisa.
Entre as belas canções que integram a trilha de Ana Raio e Zé Trovão, há três verdadeiros primores: Atrás Poeira, de Ivan
Lins e Vitor Martins; Ana Raio, de Xangai, um monstro sagrado da música caipira; e As Voltas que o Mundo Dá, de Lenine. A versão escolhida da primeira foi gravada por Sá & Guarabira, dupla de excelência que faz um fabuloso trabalho vocal. Lembro aos leitores que Atrás Poeira é anterior ao folhetim.
Exceções à parte, todas são obras de craques da MPB. Publico-as na página, deixando o meu registro para a posteridade. Divido este tesouro, cem por cento brasileiro, com os andantes que pelo blog vagueiam. Aplausos para os nossos romanceiros. Cambada de cabras da peste. Puro heave metal, como diria o maestro soberano Antônio Carlos Jobim. O Brasil que o Brasil não conhece era o slogan de abertura das chamadas da novela. E não conhece mesmo.
Sobre Xangai, encontrei ainda uma riqueza de texto. Escrito por Elomar, outro grande nome do cancioneiro nordestino, ele diz assim:
“Xangai, um cantor, um artista, um menestrel, um dos maiores poucos gatos pingados e tresloucados sonhadores-de-mãos-sangrentas-contrapontas-afiadas inimigas. Remanescente que teima guardar a moribunda alma desta terra. Que também vai se atropelando contra a multidão de astros constelados que fulgurantes espargem luz negra dos céus dos que buscam a luz. Lá vai ele recalcitrante e contumaz cavaleiro, perdulário da bem querência que deixa a índole dissoluta de um pobre povo que habita o espaço rico de uma pátria que ainda não nasceu (…)”
Casa dos Carneiros, minguante de maio de 1991
Elomar Figueira Mello
Publico também o site oficial de Elomar para todos os brasileiros que precisam, devem, querem e decidem conhecer o artista. Um gênio como poucos, ele foi chamado por Vinícius de Moraes de o Príncipe da Caatinga.
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Lusco-Fusco
junho 17, 2010
Nos últimos tempos, ouço Chico dia sim e no outro também. Sua música tem rimado com todos os tic tacs de meu relógio. Não sei por que. Não há razão. Chico combina com tudo a qualquer hora. Falar o quê?
Há uma canção que ele compôs em parceria com o Edu Lobo, outro grande nome da nossa música, chamada Valsa Brasileira. Fazia anos que não a escutava quando, de repente, ela se chegou mais uma vez. LINDA!
Procurei uma versão que coubesse no momento. Encontrei uma genial. O trecho em que os dois conversam sobre como foi o parto da obra é qualquer coisa. Curto e direto.
“…é o B da canção…”
VALSA BRASILEIRA
Chico Buarque de Hollanda & Edu Lobo
Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu
Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer
Pra rua me levar
setembro 13, 2009
Choveu o dia inteiro em Florianópolis. Tempo de transformação na Ilha. A primavera começa a ensaiar alguns de seus toques. Eis a sua hora! Ela vem chegando aos poucos, devagar. Mostra-se em pequenos momentos do dia e da noite. Eu gosto! Todas as estações do ano me fazem bem, mas a primavera tem um tanto de especial: momento gracioso, delicado, exuberante, colorido!
Independente de preocupações frente a tudo o que houve de trágico no ano passado em Santa Catarina, ocorreu um fato inesperado. Minha mãe me convidou para assistir Divã, MARAVILHOSO! O longa metragem dirigido por José Alvarenga Jr e baseado em obra literária de Martha Medeiros é sensacional! EXCELENTE! Acho incrível o que vejo no povo brasileiro: força, carisma, criatividade e bom humor em tudo o que faz. O poder de transformação que temos é singular e apaixonante. O enredo do filme é simples, porém carregado de verdades que apenas com o passo certo nós conseguimos enxergar: na vida absolutamente TUDO é transitório.
Lilia Cabral – uma das grandes atrizes que temos – está perfeita no papel de Mercedes, a protagonista. Um dos poréns deste todo de qualidade, (que me pegou desprevenida), foi a canção Pra rua me levar, música de Ana Carolina e Totonho Villeroy. Lembro-me do dia em que uma pessoa querida para mim, mas que passou sem deixar rastro pela minha vida, entregou-me o CD gravado por Ana Carolina e Seu Jorge, o qual trazia no repertório esta canção, Pra rua me levar. Deu-me de presente de aniversário de 30 anos. Um dos propósitos dela foi o de me apresentar a música, já que eu estava em uma fase de transição, de reencontro comigo mesma.
Hoje, ao assistir ao filme – foi inevitável –, eu trouxe a minha memória a Erika. Tenho a certeza de que ela jamais lerá as palavras que deixo aqui. De todo modo, já que me vejo mais uma vez em uma fase de transição – ainda não entrarei em detalhes –, faço questão de registrar no blog o meu muito obrigada a Erika, por ter me entregado de forma carinhosa uma mensagem representativa, e a minha alegria por ter tomado a decisão mais clara e bonita da minha trajetória. Vou ao encontro do que eu mais quero.
O que vai acontecer? No que isso vai dar? Não sei. Acho que quando escolhemos um caminho abdicamos de outro. A maturidade está no abrir mão das garantias. Não existem certezas, apenas oportunidades. Sinto medo sim. Não sei se conquistarei o meu espaço e o que pretendo por meio da escolha que fiz. Tudo o que tenho e levarei comigo é a minha coragem e persistência. Andale Macaca! Vai com tudo…
para que haja mudança, precisamos dar o primeiro passo.
É isso!
Pra Rua Me Levar
Ana Carolina / Totonho Villeroy
Não vou viver como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
Às vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora
Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você
É… mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora
Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você…
Para Fernanda e Rodrigo
julho 27, 2009
Cheguei tarde de Brasília em domingo de céu frio, típico do inverno no sul. Em meio ao medo danado que tenho de avião, enxerguei Florianópolis do alto. Fazia tempo que não entrava num trem com asas. Adorei ver de cima a cidade iluminada…LINDA a minha ilha!
Meu espírito, entretanto, ampliava-se em compasso ainda distante. Voltei para casa faceira após dias de pura integração familiar. Estive na capital da república para o casamento de minha prima Fernanda Gonçalves Pinheiro, que agora assina: Fernanda Gonçalves Pinheiro Lara de Sousa.
A Fe e o Rodrigo se casaram em cerimônia d-e-s-l-u-m-b-r-a-n-t-e! Estávamos todos lá, a espera da noiva, que entrou ao som de Eu sei que vou te amar, tocada com esmero por piano doce e saxofone robusto. Acompanhava-os uma voz delicada e cativante a pronunciar as palavras de Vinícius enquanto minha prima descia escada branca ao encontro de meu tio, que a aguardava emocianado a bons metros do altar…
muito choro, muita alegria, muito brilho. O momento foi de LUZ! Todos nós estávamos tomados pela atmosfera apaixonada de um amor que ali se apresentou para dizer que sim, seguirá a dois o caminho da construção e do fortalecimento de um elo verdadeiro. Parabéns aos noivos! Sejam MUITO felizes.
Prima amada, ao colocar os pés em chão ilhéu, pensei cá com meus botões e decidi te dar de presente um poema que escrevi em 2003 para a Clarinha quando a vi completamente apaixonada. Wow, o amooooor! Lembro-me que publiquei o rabisco no site de um amigo da faculdade. O Marcelo tinha uma página na internet – Contra Ponto –, a qual se mantinha aberta para textos em geral, sempre vinculados à criação e à espontaneidade.
Fe, é com muito prazer que seis anos depois eu te entrego estas linhas. Acredito que há certas palavras que não possuem espaço no tempo. Quando dissertam sobre o amor, abraçam a eternidade. Amar é estar por aí ao lado do que existe de mais vivo dentro do homem e da mulher. Te amo!
AMOR? AMAR!
O amor é um algo assim que eu não sei; É um tudo, um tanto, uma condição de se estar eternamente vivo; É a parte, a fatia, o conjunto deliberado de homem, mulher, gozo, reentrância, lampejos e tropeços; É a unanimidade, o trepidar de esperança, a compilação de malícia; É o começar recomeçando, a descoberta, o fazer ser, o ser para fazer; É o crescer, o maturar, o consolar de pares em trilhos de antigos passadores. Não há portas para bater, apenas a rua, comprida e larga para seguir;
O amor? Imagino eu, e anoto com a percepção que me cabe ter do pequeno grandioso, que é o tocar em êxtase a safira, o lírio e o albatroz, mesmo que não se saiba. Em súmula, nada disso dá-se como conclusão. Consta-se tão somente o ter-se em vista: o atravessar da retina espalmada pelo embalo da tal linguagem, mesma em todos os seus gestos, sentidos e filosofias; É um estar para mais do que o além, aqui ou em qualquer estância; É um apegar-se, um aconchego, um dedilhar de sândalo em carne, vísceras e fôlego; É a idéia explícita do auge, do brilho, do embevecer-se despido de nós, tranças, cancelas: é a forra!
Porque amar é o entendimento, a noção lacônica do pouco em tormento, do bocado em múltiplo e metafórico conjugar de ambos em diálogo; É um qualquer de pontos, pausas e passos num compasso circular de amparo e cadência; É a mágica, o contorno de matizes em graduação intercambial de plurais; É um deixar-se ir e vir de rasuras e sossego, de fábulas em êxodo e para isto ainda é pouco; É um abrir de olhos que só se tem quando se ama;
Tenho dito que o amor, este, de súbito derrama-se por sobre um aprender diluído em perseverança cotidiana, como quem passa a mão por dentro e vê-se maior, incólume, fértil; É um entregar-se em sintonia ao outro; É a partida, o regresso, um soltar-se inteiro num compartilhar de braços em rompante de minúsculas e maiúsculas; É a universalidade de quem e para quê; É lançar-se em desafio, colocar-se em ritmo, conduzir-se em movimento íntimo de expressão desfazendo-se das vestes vagarosamente ao sabor dos gostos, dos cheiros e da epiderme; É um estar em casa, um reparar-se bem, um contar de dias e de noites em suor lascivo de beijos, abraços, sussurros, calores e misturas onde demais nunca é o suficiente;
Para o amor, a divisão fatorial de tons em revelação deferida das palavras em cuidado; o botar-se a cabo ou rolar-se em parábola, haja cantiga ou dissonância: deixa estar; E o que vier, para lá um tanto adiante, que apareça se assim o desejar; Que seja! O amor… ah, o amor!!! Sobre ele, como eu disse, não sei. Quem souber, que se sente ao lado meu e disserte a seu respeito.
Como é grande o meu amor por você
Erasmo Carlos / Roberto Carlos
Eu tenho tanto
Prá lhe falar
Mas com palavras
Não sei dizer
Como é grande
O meu amor
Por você…
E não há nada
Prá comparar
Para poder
Lhe explicar
Como é grande
O meu amor
Por você…
Nem mesmo o céu
Nem as estrelas
Nem mesmo o mar
E o infinito
Não é maior
Que o meu amor
Nem mais bonito…
Me desespero
A procurar
Alguma forma
De lhe falar
Como é grande
O meu amor
Por você…
Nunca se esqueça
Nem um segundo
Que eu tenho o amor
Maior do mundo
Como é grande
O meu amor por você.*
* A canção fez parte da cerimônia e foi impressa na capa do convite de casamento. No vídeo acima, ela é interpretada por Oswaldo Montenegro.
AMOR? AMAR!
O amor é um algo assim que eu não sei;
É um tudo, um tanto, uma condição de se estar eternamente vivo;
É a parte, a fatia, o conjunto deliberado de homem, mulher, gozo, reentrância, lampejos e tropeços;
É a unanimidade, o trepidar de esperança, a compilação de malícia;
É o começar recomeçando, a descoberta, o fazer ser, o ser para fazer;
É o crescer, o maturar, o consolar de pares em trilhos de antigos passadores. Não há portas para bater, apenas a rua, comprida e larga para seguir;
O amor? Imagino eu, e anoto com a percepção que me cabe ter do pequeno grandioso, que é o tocar em êxtase a safira, o lírio e o albatroz, mesmo que não se saiba. Em súmula, nada disso dá-se como conclusão. Consta-se tão somente o ter-se em vista: o atravessar da retina espalmada pelo embalo da tal linguagem, mesma em todos os seus gestos, sentidos e filosofias;
É um estar para mais do que o além, aqui ou em qualquer estância;
É um apegar-se, um aconchego, um dedilhar de sândalo em carne, vísceras e fôlego;
É a idéia explícita do auge, do brilho, do embevecer-se despido de nós, tranças, cancelas: é a forra!
Porque amar é o entendimento, a noção lacônica do pouco em tormento, do bocado em múltiplo e metafórico conjugar de ambos em diálogo;
É um qualquer de pontos, pausas e passos num compasso circular de amparo e cadência;
É a mágica, o contorno de matizes em graduação intercambial de plurais;
É um deixar-se ir e vir de rasuras e sossego, de fábulas em êxodo e para isto ainda é pouco;
É um abrir de olhos que só se tem quando se ama;
Tenho dito que o amor, este, de súbito derrama-se por sobre um aprender diluído em perseverança cotidiana, como quem passa a mão por dentro e vê-se maior, incólume, fértil;
É um entregar-se em sintonia ao outro;
É a partida, o regresso, um soltar-se inteiro num compartilhar de braços em rompante de minúsculas e maiúsculas;
É a universalidade de quem e para quê;
É lançar-se em desafio, colocar-se em ritmo, conduzir-se em movimento íntimo de expressão desfazendo-se das vestes vagarosamente ao sabor dos gostos, dos cheiros e da epiderme;
É um estar em casa, um reparar-se bem, um contar de dias e de noites em suor lascivo de beijos, abraços, sussurros, calores e misturas onde demais nunca é o suficiente;
Para o amor, a divisão fatorial de tons em revelação deferida das palavras em cuidado; o botar-se a cabo ou rolar-se em parábola, haja cantiga ou dissonância: deixa estar;
E o que vier, para lá um tanto adiante, que apareça se assim o desejar;
Que seja! O amor… ah, o amor!!! Sobre ele, como eu disse, não sei. Quem souber, que se sente ao lado meu e disserte a seu respeito.
Impressões
julho 20, 2009
Conhecer Paraty foi uma experiência inesquecível. Cheguei à cidade no dia 1º de julho à tarde e ao descer do ônibus fui tomada pela atmosfera no mínimo entusiasmada do local. O brilho do sol que ainda se mostrava simpático para as milhares de pessoas que desembarcavam de todas as partes do mundo ampliou a sensação de boas-vindas que com o passar das horas só fez crescer dentro de mim. Senti-me como um canal de comunicação ambulante pelo qual passavam informações aos borbotões em tempo integral. Não havia o
que pudesse pouco inspirar os sentidos. Uaupontocompontobeérre, como diria Eliziário, meu GRANDE amigo, parceirinho de incontáveis horas de rica prosa em ritmo boêmio ou de trabalho alucinado e mentor, a quem devo muito do que hoje eu sou: macaca a plantar sementes e arar a terra. O passo número um – no meu caso o número cinco –, para se alcançar um belo, digno e grandioso sonho é cultivar o chão para colher os frutos que servirão de alimento nos dias que à frente me esperam. Há coisas que só dependem de nós. Curiosidade, paciência e persistência nos levam do presente cru para perto de um futuro composto por fartas colheitas, repetiu diversas vezes o artesão aquele de Paraty, né guri (Eliziário)? Citei com prazer e soltura o nome do guri porque infelizmente ele não pôde me acompanhar nesta aventura FANTÁSTICA.
O lugar é simplesmente deslumbrante. Um pedaço de história construído à beira-mar. Por onde se passa se respira a cultura brasileira: o verde da Mata Atlântica, o azul da baía que encosta na cidade, o colorido do casario colonial, o cheiro das cozinhas regionais, o gosto das artes espalhado por cada pequeno canto. MUITO BOM! Viajei no tempo e vi pelas ruas imagens de nossos ancestrais a cruzar meus passos, a erguer de forma planejada Paraty. Quantas pessoas passaram por ali? Quantas deixaram um tanto de si naquele espaço? Vi-me aberta, exposta e mais observadora do que nunca. Estar só é se perceber companheira de si mesma. Não há limites para o fazer, para o seguir por caminhos quaisquer, para o decidir, para o se perder para logo se encontrar.
Durante os cinco dias da 7ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o ar tomou sabor de cultura. Eu esbarrava com ela o tempo todo. O que sentia era a vida a pulsar por minhas partes com força total. Conheci gente nova, bati papo com pessoas de vários tipos. Um dos momentos que me
chamou a atenção foi quando estava eu sentada na boca de um dos muitos bares do Centro Histórico. Este, em particular, se localiza no largo da Praça da Matriz. De repente, um Hare Krishna se aproxima, vestido com a tradicional indumentária alaranjada, olha para mim e oferece a sua mão. – Boa noite. Disse ele com a voz aprazível dos de sua linha. – Boa noite. Respondi com olhar atento e vontade de ouvir mais. Era princípio da noite de abertura, pouco antes do show da Adriana Calcanhoto: MARAVILHOSO. Eu estava fazendo o meu lanchinho e tomando a minha cerveja enquanto me dedicava à alegria de estar imersa ao burburinho das vinte e poucas horas…huuuuuuum, delícia. Pois este rapaz de nome impronunciável, por certo o de batismo Hare Krishna, veio ter comigo porque, imagino, viu em mim uma das boas opções, em campo aberto, para a transmissão da Palavra. Ele trazia nas mãos uma penca de livros, todos escritos por um dos mestres da religião. Um deles, imenso e de excelente qualidade gráfica, foi o tal que ele, com delicadeza, dispôs sobre a mesa. A partir daí o burburinho cessou e me vi absorta nas
histórias de Krishna e de sua Palavra. Ocorre-me que a última vez que havia travado diálogo com um Hare Krishna foi em 1995, em Porto Alegre, no meio da rua e não me lembro dos detalhes. Gostei pacas de me ver trocando idéias e experiências com uma pessoa que se identifica como um renunciante. – O que é isso? Perguntei com alguma intuição a respeito do que estava por vir. Ele me encarou por uns segundos. Eu pensei vixi, passei a barreira do razoável. Que nada. Ele logo desabafou com gosto adocicado de orgulho. – Renunciante é aquele que abre mão da vida material em prol do desenvolvimento espiritual. Nós carregamos apenas o que nos é indispensável para a sobrevivência em nossa peregrinação. Todo o resto, bens materiais, objetos e acessórios de qualquer espécie ficam para trás.
– Sei. Será que ficam mesmo? Tenho cá as minhas dúvidas. O caminho para o desenvolvimento espiritual inclui não transar? Ensaiei a pergunta; em seguida desisti. Era capaz do Hare Krishna pensar que eu estava dando em cima dele. Do jeito que o mundo vai. Humpf. Fato é que ele estava ali para me vender alguma coisa. Embora o rapaz tenha repetido mais de uma vez que o objetivo era levar a Palavra. – Caso as pessoas aceitem doar quantias simbólicas para a manutenção do trabalho, aceitarei. Esclareceu. Vamos e venhamos que uma doação de R$ 25,00 é de grande valia, não? Com pouco mais eu poderia comprar um Dostoiévski, uma boa coleção de contos. Pela Invenção da Solidão, de Paul Auster, paguei um valor bastante próximo deste.
Contradições à parte, terminei a maratona com um livreto chamado Meditação & Supercosnciência enfiado no bolso.
Terei 64 páginas que me valeram R$ 5,00 para entender melhor ou não o universo dos renunciantes. Se vou me arrepender? Pelo menos tentei. Como disse o respeitado artesão de Paraty, curiosidade…Né guri? Let’s exploring! Como jornalista, percebi meu senso aguçadíssimo. Como pessoa, notei meu interior maior, mais carregado de boa bagagem.
O evento foi excepcional! Adorei! Não é à toa que a FLIP se consolidou como um dos festivais de grande expressão do mundo. Mauro Munhoz, presidente da Associação Casa Azul, uma das responsáveis pela realização da festa, descreveu com primor, em seu texto Interpretar e desenhar o mundo, a atmosfera contagiante que abraça as pessoas que participam da FLIP: “(…) pescadores, artesãos, estudantes, professores, vendedores, cozinheiros, turistas, editores, leitores e escritores se encontram e trocam experiências, trabalho, prazeres e conversas, influenciados pela linguagem, imersos em imaginação literária. (…) Por meio do olhar renovado, a literatura, razão maior da festa, é o que faz ver a realidade de maneira diferente nesses cinco dias em que o tempo parece transcorrer em outro ritmo, como nos rituais das festas populares”. Mergulhei neste universo, valeu a pena e pretendo repetir a dose.
Das 19 mesas que ocorreram na Tenda dos Autores, os expectadores puderam optar por assistir às conferências ao vivo ou na Tenda do Telão, três me levaram ao êxtase. Todas (das que estive presente), com exceção da Conferência de Abertura, alimentaram-me os miolos: biscoitos macacais da melhor qualidade. Três, como eu disse, deram brilho aos meus olhos. China no Divã (Mesa 4) trouxe dois excelentes jornalistas chineses, Ma Jian e Xinran. Ambos deram depoimentos emocionantes sobre a China de Mao Tsé-Tung, a Revolução Cultural e as transformações arrebatadoras pelas quais aquele país tem passado desde então. Fiquei tão impressionada que decidi comprar um dos livros de Xinran, As boas mulheres da China. Trate-se do relato de mulheres que viveram a violência de uma reeducação promovida por um sistema opressor.
A Mesa 14, Fama e Anonimato, foi composta por um dos maiores nomes do jornalismo,
um dos precursores do New Journalism, gênero que une a precisão factual do jornalismo e os recursos estilísticos da literatura, Gay Talese. Neste dia acordei com a certeza de que assistiria ao Talese ao vivo de qualquer jeito. Não consegui comprar o ingresso para a sua mesa com a devida antecedência. Montei aparato, busquei meios, rodei mundo. Deu certo e valeu cada instante investido para o alcance da meta. Talese é um dos meus ídolos. Não poderia passar por Paraty junto com ele sem vê-lo beeeeeeem de pertinho. Ele deu uma verdadeira aula de jornalismo. Trago comigo um trecho de sua fala. “Um jornalista precisa deixar o seu laptop um pouco de lado, precisa ir às ruas, precisa falar com as pessoas comuns e tocar o mundo real. O bom profissional deve ter curiosidade, paciência e persistência”. Preciso falar mais? Putaqueopariu…
Né guri? Ô!
Graaaaaaaaaaaaaaaaande Talese. É isso aí meu filho. Jogo no teu time com orgulho e paixão.
A Mesa 15, Escrever é preciso, me apresentou um escritor português chamado António Lobo Antunes. Eu confesso que não o conhecia. MARAVILHOSO! Ele falou sobre as suas impressões e percepções sobre o ser escritor, o processo de criação, as qualidades do texto narrativo. Achei-o inteligente, perspicaz, instigante e acima de tudo sensível. Descreve sua rotina e seu trabalho com uma sensibilidade própria de quem enxerga e sabe ouvir. O angolano José Eduardo Agualusa, um dos excelentes autores contemporâneos de língua portuguesa, afirmou em entrevista que o escritor necessita de disponibilidade para desenvolver o ofício. “Ele precisa estar disponível para saber ouvir. Isso é fundamental”.
Lobo Antunes possui esta característica. Dono de uma visão de mundo abrangente e inovadora, o autor cativou a platéia com seus comentários apaixonados e bem-humorados.
Paraty é isso: uma combinação perfeita entre o natural e o urbano, entre a História e a cultura popular brasileira. Em época de FLIP, a cidade resplandece, tudo envolve, rapta, faz cócegas, cutuca, estimula, interessa, transmite algo. Regressei com a certeza de que experimentei o que posso chamar de único. Vi com nitidez um retrato do Brasil e do nosso povo, cujo talento e vitalidade extravasam expectativas.
Ressalto a qualidade da Flipinha, um espaço incrível e muito bem construído para as crianças. As escolas públicas e particulares de Paraty participam da festa de forma efetiva. A tenda reservada para a Flipinha é, sem dúvida, um ponto de encontro de alunos e professores, os quais apresentam atividades realizadas dentro de sala de aula. O resultado do trabalho é sensacional e permanece exposto na tenda durante os cinco dias de evento. As crianças interagem, aprendem brincando e se entregam à leitura. Espetacular!
Parabenizo também os artistas plásticos Julio Paraty (pintor) e Dalcir Ramiro (ceramista). Estive em uma vernissage promovida por eles no atelier do Dalcir. A exposição Paratienses em Paralelo apresentou o EXCELENTE trabalho que os dois desenvolvem na cidade. A recepção foi muito calorosa, ambos são a simpatia em pessoa e as peças e os quadros expostos no espaço são de uma beleza ímpar. Seguem o telefone de contato do atelier 55 24 3371-6035 e o endereço do local: Rua Santa Rita, nº 65 – Centro Histórico.
Até a próxima. Toco y me voy. Olé!
Deixo como registro musical Esquadros, uma das músicas que eu mais gosto da Adriana Calcanhoto, e que claro, fez parte da trilha sonora da viagem. Ouvi-a, inclusive, ao vivo, cantando-a com todos que no largo da Praça da Matriz se amontoaram para assistir ao show.
Esquadros
Adriana Calcanhoto
Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus…
Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome…
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado…
Cada macaco no seu galho
abril 30, 2009
Macaqueando por aí, eu catei um PUTA musicão para acompanhar o gosto que me deu de registrar aqui um fato. Há lugares emblemáticos, inesquecíveis. Quem já não pisou em canto qualquer e sentiu imenso prazer em simplesmente estar em tal local?
Identidade é algo que adquirimos quando moleques e levamos para o resto da vida como um selo permanente: nada, ninguém ou coisa alguma arranca. Eu, por exemplo, sou mulher brasileira, nascida no Rio de Janeiro, criada em Porto Alegre e apaixonada por Florianópolis. Fazer o que se minha Ilha é gostosa, feita para amar, viver, usufruir? Há percalços em habitar cidades pequenas (em crescimento constante e desordenado, no caso específico de Floripa) em comparação a grandes capitais, não resta dúvida, mas, enfim, não se pode ter tudo.
O que estou a esclarecer tem a ver com àquela incontestável sensação de pertencimento a tal núcleo, grupo, realidade. Quem sou? Da onde venho? Que língua falo? Faço parte de que cultura? É disso que estou falando e é com base neste sabor que Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro – dois grandes nomes da MPB – compuseram, em êxtase, a canção Tô Voltando. A inspiração
de ambos brotou da alegria contagiante que tomou conta do País e de centenas de exilados ao ser decretada a anistia no Brasil, em agosto de 1979. Alucinante o presentão que nos deram os rapazes, hein? A música se transformou num dos maiores hinos daquele momento histórico e foi eternizada na voz de Simone.
Eu amo o crescente explosivo de emoção que os compositores – PUTA artistas – transbordaram ao constatar que retornariam a sua terra, ao seu chão, ao seu núcleo. Identidade, reitero, é selo permanente: intocável.
Por certo que pesquisei antes de escolher a versão que publicaria aqui, e lavo as minhas mãos frente ao vídeo selecionado. Sim, o que tenho de melhor para postar no momento traz como pano de fundo uma loira peituda. Ahahahahaha!!! Coisas de cotidiano. Nada contra loiras peitudas. Há inúmeras mundo afora, e muitas delas são lindas,
maravilhosas, ok? O mesmo ok dou para os produtores da versão. Na internet se vê de um tudo, do brega ao chique. Não serei eu a ditar regras.
De volta ao que interessa, eu, macaca endiabrada, pertenço à cultura brasileira. Repito com orgulho e infinita alegria: sou daqui. Adoro meu País, amo meu lugar. Ao rodar pelo mapa, finco dedo também no chão abençoado pelo Cristo Redentor, no piso gaudério Rio Grandense e na – adoro dizer que é minha – “Ilha da moça faceira, da velha rendeira tradicional, Ilha da velha figueira onde em tarde fagueira vou ler meu jornal.” Quando passar tempo longe, uma das primeiras providências que tomarei em data próxima ao retorno será ouvir Tô Voltando uma, dez, mil vezes. Ô música pra ter gosto BOM!
Tô Voltando
Simone
Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro
Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando
Dá uma geral, faz um bom defumador
Enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando
Faz um cabelo bonito pra eu notar
Que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar
Pode se preparar porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som
Estréia uma camisola
Eu tô voltando
Dá folga pra empregada
Manda a criançada pra casa da avó
Que eu tô voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá, lá, lá, lá, porque eu tô voltando!
O Soneto de Fidelidade e a Chuva
outubro 22, 2008
Há quase um mês chove sem parar. O ano inteiro chove: ora sim, ora não. A Ilha de Santa Catarina “vive” ao sabor dos ventos e das águas. Quando chove durante dias a fio, os moradores costumam improvisar para sair “da umedecida toca” sem preocupação. Independente de inevitáveis reclamações, resmungos e desapontamentos, uma vez que a primavera entrou há mês sem abrir céus de pleno azul, a atmosfera expele impressões de simpática exclamação nos rostos das gentes. O contentar-se mais ou menos com larga precipitação e cinzas incessantes transborda em feições de variados tamanhos. Parece-me, que apesar do tempo intruso para a época do ano, as pessoas seguem trajeto com afinco e esmero.
Não existe razão para deixar o riso cair. Respingos, sejam eles finos ou graúdos, não repelem lábios bem-aventurados. Eu posso dizer que pinto e bordo em cenário seco ou molhado. Passei período deveras agradável ao lado de meus tios. Não os via há seis anos. Eles aqui estiveram para uma visita rápida – sem dúvida, inesquecível.
Vieram de Brasília em dia de chuva (10 de outubro) e partiram de Florianópolis em dia de chuva (19 de outubro). Passeamos por bons cantos da cidade quando as nuvens deram trégua, conversamos sem parar, gargalhamos por inúmeras horas, viramos uma noite em reduto do samba, cantarolamos, ouvimos música, recitamos poesias – Vinícius de Moraes é poeta adorado na tribo –, contamos causos, falamos sobre histórias recentes e sobre acontecimentos antigos de nossas vidas e da vida alheia, mergulhamos em uma orgia “etílico gastronômica” na qual não faltaram opções de cardápio e de cerveja, festejamos nosso encontro, alegramo-nos por estarmos um na companhia do outro; enfim, matamos a saudade. Por este efêmero instante em minha vida, eu cancelei todos os meus afazeres e compromissos profissionais. Montei tal estratégia com certeira antecedência para estar junto de quem eu amo. Valeu à pena! Tudo se passou em fração de segundo e esquecemos dos teóricos bloqueios causados pela chuva. Pelo contrário, brincamos com as gotas trazidas aos borbotões das alturas.
“Florichuva” foi o apelido dado por titio à ilha. Embora ele não tenha conhecido as dezenas de maravilhas deste lugar, para mim singular por abrigar grandiosa efervescência (não necessariamente em ambiente urbano), sentiu-se agraciado pelo correr dos ponteiros, tic tac tic tac… Quem não vê beleza no cair da chuva reconhece o entusiasmo escancarado pelo sol?
Hoje, 72 horas após a decolagem do avião que o levou de volta para casa, acendeu-se em mim imensa vontade de homenageá-lo. Fá-lo-ei:
* Ao meu tio, muito amado, entrego um presente: nosso Vininha, nossa canção, nossa rima, nosso abraço, nossa revelação, nosso acordo, nosso aperto de mão, momento repetido mais de oitocentas e cinquenta mil vezes no decorrer de sua estada na Ilha da Magia, o relevante, ao lado meu e debaixo de chu-va-ra-da.
(“quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”)
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
























