Flores de Minas

setembro 29, 2014

A segunda reportagem da série que produzo ao lado do fotógrafo André Dib sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, será capa da edição especial de aniversário da Revista Sagarana. Estivemos na região considerada por Roberto Burle Marx o jardim do Brasil. Pelos campos rupestres da única cordilheira do país se espalham várias espécies da sempre-viva, flor típica do Cerrado que alimenta uma cadeia produtiva secular. Dezenas de comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora uma alternativa para o desenvolvimento sustentável. Em breve!

 

matéria de capa Revista Sagarana

Fotos Tom Alves

 

sempre-viva, flor do Cerrado “O senhor já sabe: viver é etcétera…” João Guimarães Rosa

 

Nota sobre a viagem

O trecho que publico hoje na página fala sobre o morador de uma comunidade rural de Minas Gerais. Na vila de poucas casas, encolhida entre as montanhas, eu conheci seu Jóvi – ô cabra faceiro! É dono de bar, sanfoneiro, lavrador, mas acima de tudo, um exemplo de vida. Não houve agrura que o fizesse perder a esperança e o largo sorriso que estampa no rosto a cada meia dúzia de palavras pronunciadas com a ligeireza típica do campeiro. Deixo de pronto o registro de um instante de minhas andanças pelos rincões dos Gerais ao lado do fotógrafo Tom Alves. Há dois anos, desbravamos o interior do estado a procura das identidades do mineiro. As histórias, características e peculiaridades do povo revelam pontos em comum como força, criatividade, resiliência e bom humor. Há um, entretanto, que chama a atenção de imediato. Apesar dos percalços da vida na roça, ser é o verbo mais conjugado na prática do dia a dia. Por serem, acima de tudo, humanos, no sentido original da palavra, os habitantes de lugares longínquos mascaram-se menos, não perdem tempo com o que não é essencial e transformam dificuldades em oportunidades. Eis a maior lição que levo dos encontros que já tive. Um detalhe quase imperceptível, à primeira vista, mas que faz toda a diferença. Tal descoberta marcou a minha caminhada, mudando o meu olhar de forma definitiva. Que venham as próximas curvas da estrada, e que sejam ainda mais desafiadoras. O segredo está no jeito de experimentar, não na experiência em si. Estou pronta para colocar o senso à prova. Nada como pisar o chão devagar e com afinco.

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Histórias de um país desconhecido…

 

seu JóviEm Santo Antônio, povoado limítrofe do Parque Estadual do Rio Preto, Juventino Ferreira dos Santos, 67 anos, é o dono do Bar da Alegria. Seu Jóvi é o caçula de 13 irmãos. “Pelejo desde menino na lavoura. Mesmo com o pé torto fiz a vida”, diz. Em 2010, abriu as portas do lugar que funciona como ponto de encontro. As festas promovidas pelo sertanejo lotam em fim de tarde. “Eu toco sanfona, invento moda, faço repente.” Participa quinzenalmente de um programa musical da Rádio Comunitária de São Gonçalo de Rio Preto. “Aqui tem muito artista. No meu terreiro, já juntamos mais de 800 pessoas. Teve gente dançando no curral, debaixo do pé de manga. Vale tudo pela alegria”, comenta.

 

Fez-me lembrar de Renato Braz e comitiva da peste interpretando um clássico do nosso cancioneiro… ouve só!

 

 

 

Nota sobre a viagem

Esta é a primeira de uma série de reportagens que eu e o fotógrafo André Dib produziremos sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Estivemos em uma região de hábitos extrativistas, onde as comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora local uma alternativa para o desenvolvimento. Com a criação de áreas protegidas no entorno de inúmeros vilarejos, os moradores que tiravam o sustento da terra há séculos ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais. A falta de uma contrapartida do Governo gerou uma crise que se estende há mais de dez anos no centro-norte mineiro. O clima de tensão permanece. Entretanto, o trabalho conjunto entre população e agentes como empresas particulares e Universidades vem transformando a realidade social de dezenas de pessoas.

Projetos que integram preservação do meio ambiente e beneficiamento sustentável da matéria-prima disponível na natureza ampliam as perspectivas das famílias residentes. O texto e as fotos a seguir contam sobre a conquista de pessoas simples, que lutam pela permanência no seu lugar de origem. A roça é a razão de viver de quem nasceu e cresceu na zona rural. Passo a passo, os habitantes encontram um caminho próspero, que multiplica ideias e consolida a tradição. Tive o privilégio de conhecer esse universo de perto. Trata-se de um Brasil distante, invisível para muitos. A intenção de trazê-lo à tona é uma constante em minha trajetória como jornalista. Descobri na reportagem um instrumento de resgate da essência do povo brasileiro. A informação desperta a curiosidade, instiga a reflexão e abre portas para o diálogo entre as partes. A sociedade cosmopolita pode e deve conhecer melhor o interior do país. Vejo na troca de conhecimento uma possibilidade de fortalecimento da nossa cultura popular. Coloco o primeiro resultado de minha jornada ao lado do André à disposição dos leitores do blog. Espero que gostem.

 

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* Matéria publicada originalmente na edição de novembro de 2013 da Revista Terra da Gente.

Fotos André Dib

 

abre Revista Terra da Gente para FB

 

Nos recônditos do Cerrado, a região centro-norte mineira, chamada de Grande Sertão pelo escritor João Guimarães Rosa, guarda o caminho das flores das Gerais. São centenas de plantas a espalhar as sementes de uma tradição secular nos altos da Serra do Espinhaço. Entre tantas que se alastram pela imensidão de campos rupestres, a sempre-viva se destaca pela beleza, simplicidade e resistência ao tempo. A flor não perde a graça, a forma e a cor mesmo depois de colhida, razão pela qual se tornou a principal fonte de renda dos habitantes dos prados do Vale do Jequitinhonha.

O extrativismo é a prática que sustenta as famílias residentes, formadas em grande parte por coletores, garimpeiros e lavradores. Mais de cinco mil pessoas se alimentam da mesma cadeia de produção. Flores, frutos, folhas – a fartura da terra embala o ritmo de vida da população que busca na natureza recursos para a subsistência. Dezenas de vilarejos se distribuem pelo território no qual floresce, nas palavras do paisagista Roberto Burle Marx, o jardim do Brasil. Pesquisas realizadas nas áreas de ocorrência da Eriocaulaceae – a família da autêntica sempre-viva – apontam que 70% das espécies do mundo estão concentradas na cordilheira do Espinhaço, fator de grande apelo para a criação, em 2002, do Parque Nacional (Parna) das Sempre-Vivas.

Parque nacional das sempre-vivasO Parna integra o Mosaico de Unidades de Conservação (UCs) do Espinhaço e divide os biomas Cerrado e Mata Atlântica. Tem relevo acidentado, nascentes d’água, montanhas vincadas atravessando o piso serenado dos campos repletos de bichos graúdos. Onças, tatus e tamanduás vagueiam pelo raso de veredas e buritizais. De geração em geração, a presença humana causou impactos na natureza. Segundo o biólogo Renato Ramos da Silva, coordenador de projetos na Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi), atividades desenvolvidas ao longo dos anos, como a coleta indiscriminada e a mineração, provocaram o esgotamento de mananciais e flores. “No final da década de 1990, espécies de sempre-vivas como a pé-de-ouro e a vargeira foram colocadas na lista de extinção. Houve a proibição do extrativismo dentro do Parque. A medida desencadeou um entrave que atingiu diretamente as comunidades tradicionais”, afirma.

O estopim para o conflito foi a falta de informação. “O governo criou a Unidade sem a participação das pessoas, que não tinham consciência de que, na região, havia uma reserva. Foi uma experiência traumática”, diz Silva. Dois agravantes são a instabilidade do manejo da flora – a coleta é irregular – e a indefinição sobre o ressarcimento dos donos da terra, pois nenhum hectare da UC foi desapropriado. O imbróglio ultrapassa as fronteiras da área protegida, multiplica demandas, gera crise de interesses e um desajuste econômico que restringe o desenvolvimento regional.

Márcio Lucca, biólogo e chefe do Parna das Sempre-Vivas, esclarece que um ponto fundamental é qualificar a informação com foco na ação conjunta. “Os proprietários nos cobram um retorno, mas não cabe somente ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do Parque, regularizar as propriedades. Não temos um levantamento das terras para saber quais são as particulares, as da União, as que estão em situação de posse por usucapião. Tal limitação nos impede de delimitá-las”, diz.

 

Antônio Borges - galheiros

 

O estilo de vida peculiar dos povoados tradicionais revela a personalidade cativante de uma gente corajosa. Do anseio coletivo brota o ímpeto capaz de transformar a realidade social de inúmeras famílias. Projetos de manejo adequado da flora local surgem como alternativa que alia a preservação das espécies ameaçadas ao desenvolvimento sustentável da região. As novas perspectivas asseguram fonte lucrativa de trabalho e renda para os habitantes do Jequitinhonha.

LUCRO

Na comunidade de Galheiros, zona rural de Diamantina, os moradores substituem, há 12 anos, o extrativismo indiscriminado pela exploração planejada. Com o auxílio do Instituto Centro Cape, organização com foco no estímulo de competências empreendedoras dentro do setor informal, um grupo de mulheres atentou para a importância de realinhar o trabalho, criando, por meio da produção artesanal, amplas oportunidades de comércio. De acordo com a coletora e artesã Ivete Borges da Silva, a manipulação consciente das flores foi o passo assertivo para o alcance de bons resultados. “A sempre-viva é uma tradição que passa de pai para filho. A partir do surgimento do artesanato, paramos de agredir a natureza. Hoje, todos sabem como colher as flores sem causar danos.”

 

Comunidade Rai¦üz - Maria Terezinha Alves

 

Para afastar a iminência de extinção das espécies e capacitar as famílias coletoras, técnicos especializados prestaram serviços de consultoria em gestão, custos e cadeia produtiva. Houve oficinas para inserção de metodologias que agregassem valor ao processo produtivo. “Com apenas 10 gramas de flor é possível conseguir o dobro do valor do quilo no mercado se você souber como transformar a matéria-prima”, diz Ivete. As mercadorias manufaturadas aumentaram a margem de lucro sobre cada produto e, consequentemente, o poder aquisitivo dos artesãos.

Fundada em 2001, a Associação dos Artesãos de Sempre-Vivas é espaço de planejamento que impulsiona um negócio cada vez mais rentável. Há seis anos, os associados cultivam as espécies ameaçadas de extinção pé-de-ouro e chuveirinho para atender a um contrato com a rede de lojas de varejo Tok & Stok. Entre as peças produzidas estão luminárias, abajures, porta-guardanapos e arranjos de mesa. A matéria-prima vem de um campo experimental de 300 metros quadrados. Cada mês colhe-se um tipo de flor e cada associado extrai de 20 a 30 quilos por espécie.

Os artesãos também expõem em feiras e lojas de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte e participam de eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Há dois meses, ganharam o mundo participando da mostra Mulher Artesã Brasileira, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Juracy Borges da Silva foi escolhida para representar Galheiros na exposição, que reuniu 15 artesãs de 12 estados brasileiros.

AUTONOMIA

Antônio de Zé Basílio(5)No interior da cadeia do Espinhaço, marcada historicamente pelo garimpo de ouro, diamante, cristais e minério de ferro, o berço de novidades não dá trégua. Imersa no jardim que germina rente aos paredões rochosos, outra iniciativa reacende a esperança nos povoados de Andrequicé e Raiz, distritos do município de Presidente Kubitschek. Em 2009, grupos de produtores passaram a investir na estrutura de viveiros de plantas com o intuito de resgatar espécies em extinção. Por meio do Projeto Flores das Gerais, que conta com a assistência do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), foram instalados matrizeiros nas comunidades. A bióloga Luciana Teixeira Silva, gestora do projeto, conta que os participantes inseridos em um novo modelo de negócio têm o suporte de investimentos de pesquisa para o desenvolvimento de produtos diferenciados. “O ponto crucial é capacitar as famílias para que aprendam a se autogerir”, afirma.

Entre testes e diagnósticos, alguns anos de relutância se passaram. Em Raiz, os moradores, acostumados com o artesanato de capim-dourado – “uma espécie de sempre-viva”, diz Luciana –, resistiram a aderir ao trabalho de reproduzir em viveiros as riquezas do Cerrado. Sirley Ferreira Alves, artesã que abraçou a ideia desde o início, conta que “muitos ficaram sem saber se alguém ia querer comprar as plantas. Eu falei que ainda ia comprar o meu carro com essas mudas. Ninguém acreditou. Mas quando o caminhão parou aqui para levar o carregamento, começaram a pensar melhor.”

O caminho a ser seguido pelas comunidades isoladas do Vale do Jequitinhonha já aponta no horizonte. Uma simples comparação de preço incentiva o andar contínuo rumo a um novo tempo. O quilo das sempre-vivas mais comuns, como espeta-nariz, jazida, e botão-branco, não ultrapassa os R$ 3,00; enquanto o de uma muda cultivada pode chegar a R$ 25,00. Filha de Maria Flor de Maio, de 71 anos, que carrega no nome a constância arraigada da sempre-viva, Maria da Conceição Aparecida Ferreira, presença decisiva nos dois núcleos do projeto em Raiz, afirma: “As flores são tudo para a gente. Graças a elas, conquistamos os nossos sonhos.” E desta forma, os campos dos Gerais remetem a um Brasil distante, mas auspicioso. Para conhecê-lo, é preciso fazer mais do que percorrer estradas; é indispensável travar atenciosa travessia.

 

Campos de Sempre-Vivas Parque Nacional Sempre-Vivas (7)

O andarilho da neve

janeiro 29, 2013

paul nicklenPaul Nicklen conta sobre as suas jornadas pelas regiões polares em busca dos mais emocionantes e despretensiosos momentos da vida selvagem. Durante o trajeto, o fotógrafo dá uma lição de vida, preservação e amor verdadeiro pelo planeta água. Quanta disponibilidade, soltura, cuidado, entrega. Poucas vezes vi uma relação tão direta e integrada entre homem e meio. Diálogo sincero, que soa tal qual ser e estar. Imperdível!

Mais sobre o fotógrafo e biólogo em www.paulnicklen.com

VAGAS ABERTAS

Oportunidade única para os apaixonados por fotografia e adeptos da vida ao ar livre. Durante o feriado de carnaval, de 8 a 12 de fevereiro, o workshop promovido por Tom Alves e Eduardo Gontijo, em Capivari, Minas Gerais, abrirá espaço para a troca e interação entre profissionais e aprendizes; revelará histórias sobre o povo e a cultura mineira; e desvendará as belezas das paisagens do cerrado em um lugar pioneiro no desenvolvimento do turismo de base comunitária. O pequenino vilarejo, localizado no sopé do Pico do Itambé, tem na prática dessa modalidade de receptivo uma importante fonte de renda. As famílias de moradores abrem as suas casas para os visitantes, integrando-os rapidamente aos hábitos locais. Debruçado sobre os campos rupestres da Serra do Espinhaço, Capivari encanta e traz a quem chega a percepção ampla da identidade de um dos estados mais emblemáticos do Brasil.

APADRINHAMENTO

Os participantes poderão também contribuir com a educação das crianças residentes, doando material escolar para as famílias da região.

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Mais sobre os fotógrafos em www.tomalves.com.br e olhares.uol.com.br.

O Guerreiro Audacioso

junho 2, 2012

TROPA CRIOULA: Gaúcho toca cavalos da raça típica da região, em alvorada de Dom Pedrito (RS). Do livro “Araquém Alcântara: Fotografias”

 

Confira a íntegra da entrevista que publiquei na Revista Aventura&Ação com o ícone da fotografia de natureza: Araquém Alcântara. A trajetória, os livros, as histórias do fotógrafo que documentou o Brasil como nenhum outro. Colecionador de mundos, ele marca a alma do espectador com registros que deram origem ao maior banco de imagens da fauna e flora do país. Um dos grandes expedicionários da era contemporânea, Alcântara fala com entusiasmo de sua grande paixão pela fotografia, de suas andanças pelas matas brasileiras, e conta ainda sobre os novos rumos de sua carreira.

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* Entrevista publicada originalmente na edição 167 da Revista Aventura&Ação.

 

Ele não crê em submissão a regras e fórmulas para o alcance do espírito criador, livre, íntegro. Acredita no olhar autêntico, desprendido, perseverante. Para o fotógrafo que documentou como nenhum outro a cultura, a face e a alma do povo e das florestas do Brasil, qualquer profissional que opta pelo registro do mundo por meio da imagem deve escolher o caminho com o coração e nele viajar incansavelmente, contemplando como pessoa inteira tudo o que é vivo.

Fotos Arquivo Pessoal/Araquém Alcântara

 

Araquém em ação no Pantanal Mato-grossense

Semblante incisivo, olhar certeiro, gestos articulados e voz calorosa: com a postura de um combatente impetuoso, Araquém Alcântara bate a campainha de sua editora carregando consigo uma pilha de livros, resultado de empenho e contumácia. Pouco antes do início de uma entrevista que levaria cerca de duas horas, ele anuncia a sua equipe – “preciso de agenda, um copo d’água, dois minutos para um telefonema e começamos”. O obstinado colecionador de mundos, fotógrafo com 40 anos de histórias para contar, peregrinações pelo Brasil de todos os brasileiros, real e pouco explorado, cheio de nuances, contrastes, exuberância e barbárie, passou feito relâmpago pela sala de espera, simpático, expressivo e pronto para trabalhar. – “Vamos focar em criatividade, ok?”, desafia.

Ao longo de uma carreira que soma 42 livros publicados e dezenas de prêmios, o catarinense criado em Santos (SP) exalta a diversidade e a grandeza do País com nome de árvore. “Eu sou um intérprete do Brasil, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas”, diz. Para o seu livro “TerraBrasil”, o fotógrafo, incansável em sua saga de trazer o Brasil profundo para o urbano, percorreu, durante nove anos, todas as Unidades de Conservação do País. O trabalho, minucioso e pioneiro, deu origem ao maior banco de imagens da fauna e flora nacionais, inspirando também o nome da editora fundada por Araquém. O objetivo da casa editorial, especializada no registro do patrimônio natural brasileiro, é defender a sua biodiversidade por meio da documentação e denúncia.

Às vésperas de lançar mais dois livros, embrenhado em projetos cinematográficos, preparado para ganhar o mundo em empreitadas pela Tanzânia, na África, Araquém acredita na arte como uma ação revolucionária, um poderoso instrumento de mexer com o inaudível, com o não perceptível, com a alma. “Aquele que mergulha na viagem do ver tem que estar sempre com as portas da percepção abertas. Sabe que diante do eterno, precisa esquecer de si próprio. A criação é o que importa, gesto fundamental, caminho de conhecimento, poderosa arma de encontrar o mundo”.

 

A&A: Como surgiu o interesse pela fotografia?

Araquém Alcântara: Eu comecei a fotografar depois que eu vi um filme fantástico, que fez a minha cabeça, chamado “A Ilha Nua”, de Kaneto Shindo. Foi uma coisa impressionante porque o meu negócio era ser escritor. Ao sair da sessão, eu estava absolutamente transtornado. Estranho, eu nunca tinha sentido aquilo antes, a magia de ter visto uma obra de arte que tinha me tocado. Depois, houve um livro, “O Budismo Zen”, de Alan W. Watts. Quando eu o li, em 1969, foi como se houvesse também uma revelação: uma obra de arte pode transformar. Quando há sintonia, quando o observador entra no mesmo dial do que ele está vendo, há uma transformação coletiva, uma revolução. A obra se transforma, o autor se transforma e o espectador se transforma. Aí cria-se um triângulo: obra, autor, espectador. Sem querer, intuitivamente, nesse final dos anos 60, eu comecei a entender a arte como uma ação revolucionária. A obra precisa provocar. O importante é que essa transformação que gerou tudo isso que eu sou – eu só penso em produzir, sou totalmente uma usina, pilhado, o meu negócio é criar – veio após assistir a esse filme, quando percebi que poderia dizer as coisas por meio de imagens.

FLORESTAS DO BRASIL: Criança da tribo Tucano se banhando em Pari-Cachoeira (AM). Do livro “TerraBrasil”

A&A: Qual foi a sensação da primeira foto? Onde e quando aconteceu?

A.A.: Começou nos anos 60, quando o filme me convocou para essa linguagem. Eu ainda demorei dez anos para assumir a fotografia. Lá por 1978 é que eu deixei o texto para virar fotógrafo, unicamente. Comecei a me enveredar pelas matas, entrei na Mata Atlântica e a minha vida mudou. Quando eu conheci a grande floresta virgem brasileira, na época em que o Governo desapropriara uma grande área para construir usina atômica, a minha fotografia ganhou ideologia. Então, ela sempre teve um caráter de documentação social. Mas o aprendizado, os exercícios de texto, tudo isso foi importante para que eu conseguisse chegar onde estou. A minha fotografia sempre foi engajada, com um propósito de seduzir as pessoas para o meu modo de ver o mundo, para espalhar conhecimento e informação, para revelar o Brasil para os próprios brasileiros. Depois de 40 anos, ela se livra de tudo isso, de natureza, de jornalismo, para se transformar em uma fotografia livre de qualquer tema, amarra, fórmula. O meu último livro comprova isso. Foi finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Benny de melhor livro de arte em 2011.

A&A: E quanto às temáticas a serem fotografadas? Como se enveredou pela fotografia de natureza?

A.A.: A fotografia de natureza só se revelou quando eu entrei na floresta selvagem, na Mata Atlântica da Juréia, onde tem bicho. De repente, você está quieto e passam 30 porcos-espinhos do seu lado. Não é florestinha, não. É coisa grande, de bichos grandes. Foi aí que eu comecei a entender essa outra sociedade. A floresta se transformou na minha matriz criativa, no meu modelo de universo. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, Amazônia, Caatinga, Cerrado, e que está em processo de destruição. A maioria das pessoas passa por essa vida sem entender a grandeza, a importância, a maravilha que é ser um país que tem nome de árvore, Pau Brasil.

A&A: O que imprime a marca pessoal do fotógrafo à fotografia?

A.A.: Lembro-me que, com sete, oito anos, eu já escrevia uns textos que as pessoas liam e diziam: “nossa, mas que texto lindo!”. Depois, eu comecei a ler. O gosto pela leitura chegou muito cedo. O meu universo, a minha percepção do mundo foi ampliando. A cultura sempre esteve presente. Só que eu jamais imaginei fotografia. Alguma coisa muito especial me convocou para outro lado. O fotógrafo, hoje, é um artista plástico, tem que ter um grande repertório cultural. Uma vez, para você ter uma ideia, um diretor de uma galeria em Santos me disse: “Araquém, a fotografia não é arte, eu não posso expor você aqui, mas eu tenho um corredorzinho que dá no banheiro, ok?” Aí você vê quanta batalha. Ainda mais que a minha fotografia era de Brasil, feita para gente que só queria saber de Cancún e Miami, uma elite que queria só copiar o exterior e não olhava para seu próprio país. Ou seja, o meu trabalho sempre foi de briga. A minha fotografia sempre foi de combate. Diante de tudo isso, o que imprime uma marca pessoal? A vivência, a experiência. Com aquele filme, eu comecei a perceber que a minha fotografia sobre o Brasil seria muito simples, mas sofisticada nos detalhes, com uma riqueza de formas muito grande. O mais importante é que percebi que eu iria documentar o povo e a natureza brasileira, que teria que começar a andar. Sou um fotógrafo andarilho.

QUEIMADA: Plantação de cana-de-açúcar é incendiada por produtores para facilitar o corte em propriedade de São Manuel (SP). A prática será proibida por causar danos ao meio ambiente. Do livro “Cachaça”

A&A: Você tem um trabalho com uma temática social, de protesto. Qual é o poder da imagem?

A.A.: Ela tem um grande poder tanto para o bem, quanto para o mal. Tem um poder de transformar consciências, de enriquecer a cultura, de revelar.

A&A: Quando a fotografia se torna uma forma de intervenção social?

A.A.: Ela não é somente uma forma de intervenção social, mas um poderoso instrumento de discussão da realidade. No momento em que o fotógrafo documenta a realidade, não significa que ele é um artista. Ele pode ser um documentador. A sua interpretação, o seu modo de registrar essa realidade é que pode fazer dele um artista. A fotografia é um grande documento social quando ela passa a revelar o caráter de um povo, a sua história. Quanto mais você se aproxima de um povo, mais próximo você está de revelar as suas angústias, buscas e alegrias. É aquela coisa de ir onde o povo está, de se jogar nessa viagem de documentar a sua aldeia.

A&A: Como você definiria o Brasil?

A.A.: É impossível. Ninguém define essa grandeza. O Brasil é um enigma. O Brasil são muitos “Brasis”. Para definir o Brasil, eu recomendaria aos meus alunos que lessem Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, e por aí vai. Tem que ler também Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Tem que ver Glauber Rocha, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor. Aliado a isso, é importante que as pessoas andem pelo Brasil. Ele precisa ser conhecido. Não adianta só ler. Escola é bom, mas é preciso andar. O Brasil tem uma multiculturalidade impressionante, uma miscigenação que nos torna plurais.

AMAZÔNIA: Pescador Zezão retira pirarucu da água na Reserva Extrativista Médio Juruá (AM). Do livro “Amazônia de Araquém a Atala”

A&A: Como estabelece relações com as pessoas que fotografa em comunidades remotas? Como retratar sem invadir?

A.A.: A primeira coisa é quebrar as diferenças. É claro que você causa estranhamento chegando a uma comunidade perdida da Amazônia. Todo mundo fica olhando. Daí, você começa a se relacionar. Daqui a pouco, você está jogando futebol com eles, conversando com o mais velho, ouvindo os mais jovens, pescando, está dentro da mata com eles. Quando menos espera, as fotos surgem naturalmente. O grande segredo é ouvir, dar atenção e trocar com eles de igual para igual. O fotógrafo de natureza, viajante, tem que se aproximar de uma comunidade para registrara vida real do lugar.

A&A: Para a sociedade, qual é o impacto gerado pela fotografia das comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras?

A.A: O fotógrafo levanta esse véu do que está oculto, faz certas coisas que ficaram para trás ressurgirem. Ele esclarece páginas esquecidas da história. A fotografia é resgate. Esse é um País desconhecido pelos brasileiros, onde, em muitos lugares, o Estado não existe, não há lei. O fotógrafo toca nessas feridas. Por outro lado, ele pode ser só um poeta. Fotografia também é síntese, celebração da beleza, aquela coisa que você não pode pegar. Não tem que se prender a regras nem a terminologias.

A&A: Quais os métodos para fotografar animais silvestres, lugares afastados, comunidades isoladas? Como você equilibra técnica e sensibilidade?

A.A: É preciso uma profunda disposição para você ir a lugares distantes desse País. Você tem que estudar, mapear, buscar guias que o levem na comunidade. Há um tempo para descobrir o que se quer na fotografia. É preciso exercitar constantemente e mergulhar até a exaustão em um tema. Aí você faz um ensaio, depois outro, e assim por diante.

FLORESTAS DO BRASIL: Onça-pintada surge entre a mata na Amazônia (PA). Do livro “TerraBrasil”

A&A: Quais as principais aventuras que já enfrentou por uma imagem?

A.A.: A expedição para a região do Monte Roraima. Tivemos uma canoa desgovernada que foi para cima de uma cachoeira (a Grande). Tive que me agarrar em uma pedra para não ser levado pela correnteza. Houve, também em Roraima, um monomotor que passou por uma tempestade tenebrosa. Foi um susto. Outra situação marcante ocorreu no Pará. Eu, meu assistente, o guia e o barqueiro fomos seqüestrados por índios Caiapó, enquanto cruzávamos o Rio Curuá, afluente do Xingu. Eles estavam em pé de guerra com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Polícia Federal, que havia apreendido o garimpo de onde eles estavam ganhando comissões. Pediram como resgate R$ 1,5 mil, 150 litros de gasolina de avião e dois quilos de pimenta verde. Passamos dias comendo apenas macaxeira até que fui levado à cidade mais próxima, retirei uns R$ 300,00 e o grupo foi libertado.

A&A: Qual é o seu maior desafio?

A.A.: Eu tenho um profundo amor por esse País. Sou um intérprete dele, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas. Já fiz 42 livros celebrando esse Brasil. Agora, eu começo a fazer cinema. Começo também a derivar o meu trabalho para as crianças. Meu trabalho espalha benefícios, conhecimento, informação, arte. A minha bem-aventurança, eu costumo dizer, é criar e repartir belezas.

A&A: Qual foi o seu maior aprendizado?

A.A: Ando há 40 anos pelo País e só agora eu aprendi a entender a alma desse povo dos sertões, dos ermos, um povo que ainda é esquecido, espoliado.

CARVOEIRA: Trabalhador manuseia carvão no Vale do Jequitinhonha (MG)

A&A: O que nunca fez e gostaria de fazer?

A.A: Eu serei o consultor criativo e fotógrafo de um filme sobre a Amazônia chamado “Planeta Verde”. O misto de documentário e ficção será produzido por Gullane Entretenimento e Gedeon Filmes. O projeto me levará a cinco grandes expedições pela Amazônia. É um novo caminho. Acabei de fazer um livro com Alex Atala, “Amazônia de Araquém a Atala”; outro com o Manoel Beato, Cachaça. Nos próximos anos, farei um livro sobre o Cerrado, três sobre a Amazônia (“Amazonas, o Rio”; “Os Amazônidas” e “Viagem pela Amazônia”) e outro sobre a fauna do Brasil.

A&A: Você falou, no início da entrevista, que a sua fotografia é de batalha, de combate. O que deve esperar quem está começando agora nesse ramo?

A.A.: Eu acho que tem que conseguir dizer de uma maneira pessoal, original, para que isso seja uma contribuição. O exercício exige talento, perseverança, é uma busca constante de autoconhecimento, de crescimento espiritual. Você trabalha para os outros e para si. Quando você começa a desenvolver uma coisa própria, já está em um caminho autoral, tem algo que já virou um grande aliado, que é a forma de espalhar benefícios. Muitos não conseguem chegar ao caminho autoral, pois ele exige desprendimento, não é comercial.

SUMAÚMA DO RIO NEGRO: Crianças ribeirinhas se divertem nas raízes de uma Sumaúma, árvore típica da Floresta Amazônica, em Barcelos (AM). Do livro “TerraBrasil”

Mais informações sobre o fotógrafo e o seu trabalho em www.araquem.com.br

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