A macaca em…

janeiro 9, 2011

O quadrilátero da esquisitice

Capítulo de hoje: A praia do e$panto

 

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha…

Após temporada de pé na tábua pela capital gaúcha, a macaca retornou a Florianópolis para começar 2011 a todo vapor. Energia recarregada e Voilá, a bichana está pronta para a próxima jornada. O seu primeiro final de semana do ano foi cheio de sol e aventura por matas de restinga com direito a parada na selva da mundialmente aclamada praia do e$panto. Balneário de abastados e famosos, o e$panto, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina, causa arrepios em qualquer criatura do mundo real. Morada de tribos endinheiradas (nem todas), a praia conta, em época de alta temporada, com um fenômeno chamado A Invasão Bárbara. Clãs de ‘homens de ouro’ superlotam o lugar, transformando-o em um dos mais autênticos protótipos do capitalismo selvagem pós-moderno.

A atmosfera exótica do lugar chamou muito a atenção da macaca, pois havia no semblante do grupo seleto um gosto blasé pela queima enfurecida de muito dinheiro (seu $?). – Isso remonta aos cenários de Kubrick em seu genial De Olhos Bem Fechados, pensou a símia. Os endinheirados exibiam-se com ferocidade em áreas exclusivas à beira-mar. Ao som de música eletrônica, rapazes rodeados por mulheres de corpos impecáveis em seus beach wears distribuíam garrafas de Veuve Clicquot a torto e a direito não com o objetivo de degustar o champanhe francês de centenas de reais, mas de ostentar em demonstrações bizarras de poder. Grande parte dos jovens sacudia as garrafas com vontade, fazendo jorrar a bebida milionária em cascatas perdulárias de pura falta do que fazer. O rito de mais uma tarde de sol entre o povo de lá e eu cá alcança gastos que podem chegar a R$ 20 mil por dia.

– Excêntricos elevados à potência mais crônica da insanidade ou ricaços despreocupados com a quantia exorbitante de dinheiro jogado fora?, questionou a bichana passada com a cena cinematográfica.

A verdade é que o grupo de seres humanos que se divertiam na praia do e$panto – templo de ‘semideuses’ abençoados pelo valor da moeda –, não tem noção do que se passa do lado de fora da bolha de plástico construída para que exibam as suas penas de macho e fêmea alfa. Todos que pelas passarelas dos clubes vagueavam a esbanjar fortuna estavam cagando para o resto do planeta. Dane-se, sentenciavam com o olhar. Eu tenho, eu existo, eu posso. Ponto. O resto, meus caros leitores, somos nós, os farofeiros.

– Opa, exclamou a macaca. Pelo que descreve a repórter da matéria a seguir, eu pertenço ao limbo da farinha de mandioca. Sim, é isso. Quem diria, eu, uma símia bem-nascida, graduada, habitante da Grande Árvore, vegetal situado em zona privilegiada da mata, reduzida à pífia ralé da fauna e flora universal?

A macaca arregalou os olhos, ergueu a sobrancelha direita, largou os beiços e, sem armas para resistir, caiu na gargalhada. – Quá! Quá! Quá!, balbuciou estupefata com a força esmagadora do capital. O dinheiro banaliza a condição humana. Os ‘homens de ouro’ carregam a certeza de que tudo podem. Eles realmente podem. Na praia do e$panto, por exemplo, têm absoluta liberdade para defenestrar dinheiro pelos cotovelos. Em ambientes fechados, pessoas do degrau debaixo – ou seja, os apenas ricos – são observadas com olhar de esgueira.

– Os apenas ricos?, indagou a símia. Como assim? Para os veranistas do e$panto, há classificação de endinheirados a começar pelos ricos, que são a farofa ignóbil. A pensar que 10% das pessoas englobam esta fatia da sociedade, senão menos, o que resta para àqueles que não têm os bolsos fartos? Como seriam classificados os integrantes da classe média alta? Hein!

A macaca deixou o balneário pelo qual circulam ferraris e helicópteros com uma certeza ácida, mas lúcida. Todos sabem exatamente como se locomover pelo tabuleiro da vida. Os que conquistam dinheiro têm poder. São os donos do mundo. Os que não alcançam o degrau da fortuna não têm escolha. São os subordinados aos ‘homens de ouro’. Assim caminha a humanidade. O que sobra dessa sopa de caroços difícil de engolir é um rastro largo de vazio e estereotipia. Criatividade zero. O mundo sempre girou nesta órbita; e que se dane o resto. Ah sim, o resto somos nós.

Quem quer dinheiro?

 

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* Matéria publicada originalmente no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, no dia 9 de janeiro de 2011.

‘Super-rico’ torce nariz para ‘farofa’ dos ‘apenas ricos’

Em Florianópolis, na Jurerê Internacional, há quem não tire o pé de áreas ‘exclusivas’


Luiza Bandeira/ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS

Eliane Luiz, 36, é juíza, tem apartamento de veraneio comprado a R$ 800 mil na praia mais badalada de Florianópolis e bebe champanhe Veuve Clicquot à beira-mar, a R$ 280 a garrafa. Mas, na opinião de alguns frequentadores de Jurerê Internacional, ela é “farofa”. Os “super-ricos” do balneário passam toda a temporada sem pôr os pés na areia e pagam até R$ 1 mil só para entrar em um bar livre dos que consideram “farofeiros”.

Eles são necessariamente mais ricos que o pessoal da areia, mas desprezam a democracia à beira-mar, onde entra quem quer. “Super-rico” aprecia apenas o público “bonito e selecionado” de local pago. “No lugar aberto tem cara tatuado, bombado, de corrente. Estou pagando para ficar em lugar exclusivo”, diz o paulista Rodrigo de Castro, 31, enquanto bebe champanhe na piscina do P12, espécie de clube na praia.

No local, as atrações são a piscina com bar dentro, camas confortáveis e DJs. A entrada varia de R$ 45 para mulheres a até R$ 300 para homens, preço cobrado nos dias mais cobiçados. “Na praia você fica cheio de areia. É muita farofa, muito Maresias”, afirma Davi Almeida, 30, que diz gastar cerca de R$ 500 ao dia no clube.

No Café de la Musique, os preços são mais salgados: os “super-ricos” chegam a gastar até RS 5 mil diariamente. “Aqui o nível é melhor. Mas está ficando muito caro agora, nem a Europa é assim”, diz o advogado cuiabano Diogo Alves, 27, que foi à praia em só dois dos 20 dias em que esteve na cidade. Com amigos, ele pagou, em um dia, R$ 20 mil de consumação para ficar na piscina do Cafe de la Musique.

A consumação é gasta em muito champanhe, vodca, energético, cerveja e ofertas de bebidas para mulheres. No Cafe, a entrada para homens custa até R$ 1 mil. A das mulheres é de graça. “Os donos sabem que os homens querem estar cercados de mulheres bonitas”, diz Diogo, cercado por oito garotas dançando ao redor de sua mesa, bebendo de graça.

PELA VISTA

Mesmo os lugares que não cobram entrada dão um jeito de selecionar o seu público. No restaurante Taikô, a entrada é livre e as mesas da parte de trás são liberadas. Mas, para ficar nas da frente, com vista para a praia, a consumação é de R$ 3 mil. “Não é todo mundo que entra aqui. Viemos porque seleciona a frequência. É outro perfil”, diz o empresário paulista Ronaldo Zardur, 44.

Quem fica na praia critica ‘ostentação’

“É um cuscuz marroquino, não uma farofa”, diz o advogado Gustavo Nadalin, 32, negando o título de “farofeiro” dado pelos “super-ricos” e bebendo champanhe Chandon em taças de acrílico em Jurerê Internacional. Morador de Curitiba, ele e a mulher passam férias no apartamento da família no balneário e dizem gostar mais de aproveitar a praia do que ir aos bares e clubes.

A farofa chique, para ele, contrasta com o exibicionismo dos “super-ricos”. “Tem que ter bombinha na garrafa de champanhe [alguns lugares colocam velas que soltam faíscas nas garrafas]. Simboliza o dinheiro deles sendo queimado”, diz. “Nós somos de uma família de classe média alta, mas somos ‘low profile’ Tem gente que está tão bem como eles, mas não está se exibindo”, afirma a mulher dele, a empresária Ângela Nadalin, 38. Para o casal Edson Luiz, 34, advogado, e Eliane Luiz, 36, juíza, há muito exibicionismo entre os “super-ricos.”

“Rola competição de quem pede mais champanhe, eles abrem e jogam tudo fora, para o alto. Onde está a farofa?”, pergunta Edson, que bebia champanhe Veuve Clicquot. “Gostamos de apreciar a bebida”, diz Eliane. Champanhe é a bebida mais característica da Jurerê Internacional, mas muitas pessoas levam também água, comida, refrigerante e cerveja em seus isopores. Dizem que o fazem por costume e para evitar os preços da praia.

Dilma e a Fé Cristã

outubro 10, 2010

Eleições 2010

no dia 10/10/10


Como ainda posso me surpreender com o nível reles de campanhas eleitorais no Brasil? O que vejo se espalhar diariamente pelos veículos de comunicação aberta ou fechada de todos os segmentos é motivo de galhofa. O espetáculo de horror desarticulado promovido por determinados candidatos e sua trupe desesperada inclui parafernália de causar espanto ao coisa ruim. Mensagens publicadas aos borbotões reproduzem frases como “Ela não tem preparo”, “A petista é mal encarada”, “Candidata de Lula está envolvida com seita satânica”, “Dilma é anticristã”, “Cuidado: terrorista”, “Dilma é a favor do aborto”, “Candidata quer implantar ditadura vermelha no País”…

Hein? Cuma? PÁRA TUDOOOOOOOOOO! Qué qué isso minha gente? Que baixaria é essa insuflada pelo tucanato? A democracia na chamada república das bananas (um dia a gente chega lá) gera entraves ao bom senso ou estamos rodeados por zombeteiros dispostos a tudo para vencer o pleito? O candidato do PSDB perdeu a linha e partiu para a ignorância. Dilma está sendo vítima de uma enxurrada de adjetivos de baixo calão em campanha tomada pelo obscurantismo vergonhoso.

O caroço preso no gogó da oposição é grande e difícil de engolir, afinal, foram oito anos de um governo que trouxe ao Brasil prosperidade e riqueza jamais vistas. O sucesso de Lula, um torneiro mecânico retirante nordestino, frente ao garboso e erudito príncipe da sociologia, é uma pedra no sapato da elite brasileira. Como Davi ousou enfrentar Golias? Como se atreveu a vencê-lo? Trata-se de uma vitória esmagadora, a qual não abrirá margens para bravatas de políticos sem carisma e de índole duvidosa.

Que palhaçada! Jogo sujo depois de ter tentado montar na garupa do presidente petista não costuma levar ninguém a lugar algum. Creio que o povo brasileiro saberá diferenciar a realidade da fantasia. Os números não negam. Lula superou FHC. Verdade seja dita: ele fez por merecer. Sou uma das testemunhas oculares da história nacional. Vi este País crescer e mudar durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Meu voto é da Dilma. Entrego-o a ela com plena certeza de que a candidata, cujo projeto de governo é o mesmo de Lula, dará continuidade a uma gestão eficiente, engajada com a causa social e muito bem sucedida. Segue abaixo o texto de Frei Betto, um dos grandes nomes da militância social no Brasil, publicado na Folha de S. Paulo dominical.

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Texto publicado originalmente no Primeiro Caderno da Folha de S. Paulo, no dia 10 de outubro de 2010.

* Frei Betto

Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária aos princípios do Evangelho e da fé cristã

Conheço Dilma Rousseff desde criança. Éramos vizinhos na rua Major Lopes, em Belo Horizonte. Ela e Thereza, minha irmã, foram amigas de adolescência. Anos depois, nos encontramos no presídio Tiradentes, em São Paulo. Ex-aluna de colégio religioso, dirigido por freiras de Sion, Dilma, no cárcere, participava de orações e comentários do Evangelho. Nada tinha de “marxista ateia”. Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.

Em 2003, deu-se meu terceiro encontro com Dilma, em Brasília, nos dois anos em que participei do governo Lula. De nossa amizade, posso assegurar que não passa de campanha difamatória -diria, terrorista- acusar Dilma Rousseff de “abortista” ou contrária aos princípios evangélicos. Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade. Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo. Dilma, como Lula, é pessoa de fé cristã, formada na Igreja Católica. Na linha do que recomenda Jesus, ela e Lula não saem por aí propalando, como fariseus, suas convicções religiosas. Preferem comprovar, por suas atitudes, que “a árvore se conhece pelos frutos”, como acentua o Evangelho.

É na coerência de suas ações, na ética de procedimentos políticos e na dedicação ao povo brasileiro que políticos como Dilma e Lula testemunham a fé que abraçam. Sobre Lula, desde as greves do ABC, espalharam horrores: se eleito, tomaria as mansões do Morumbi, em São Paulo; expropriaria fazendas e sítios produtivos; implantaria o socialismo por decreto…

Passados quase oito anos, o que vemos? Um Brasil mais justo, com menos miséria e mais distribuição de renda, sem criminalizar movimentos sociais ou privatizar o patrimônio público, respeitado internacionalmente. Até o segundo turno, nichos da oposição ao governo Lula haverão de ecoar boataria e mentiras. Mas não podem alterar a essência de uma pessoa. Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária ao conteúdo da fé cristã e aos princípios do Evangelho.

Certa vez indagaram a Jesus quem haveria de se salvar. Ele não respondeu que seriam aqueles que vivem batendo no peito e proclamando o nome de Deus. Nem os que vão à missa ou ao culto todos os domingos. Nem quem se julga dono da doutrina cristã e se arvora em juiz de seus semelhantes. A resposta de Jesus surpreendeu: “Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estive enfermo e me visitastes; oprimido, e me libertastes…” (Mateus 25, 31-46). Jesus se colocou no lugar dos mais pobres e frisou que a salvação está ao alcance de quem, por amor, busca saciar a fome dos miseráveis, não se omite diante das opressões, procura assegurar a todos vida digna e feliz. Isso o governo Lula tem feito, segundo a opinião de 77% da população brasileira, como demonstram as pesquisas. Com certeza, Dilma, se eleita presidente, prosseguirá na mesma direção.

FREI BETTO, frade dominicano, é assessor de movimentos sociais e escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004, governo Lula).

Li o texto de Celso Amorim na Folha de domingo passado com tanto gosto que, ao chegar ao ponto final, já me sentia bastante saciada. Suas palavras expressam a minha legítima e crédula postura com relação à política externa empregada pelo Brasil durante o Governo Lula. Acho que estamos muito bem representados. Este é o caminho para a conquista cada vez maior de credibilidade internacional. A diplomacia conciliadora, não conivente, objetiva, e o mais importante, coerente com os nossos – e não de outrem –, valores reais tem elevado a nação ao posto de protagonista dentro do cenário mundial. A bandeira fosca do papel de coadjuvante ficou nas mãos evasivas daqueles que beijavam o chão sobre o qual passava o alto executivo de países ricos e muito bem armados, estes sim, de bombas atômicas, de hidrogênio, do arco da velha. A sociedade civil não sabe da missa a metade. Nunca uma frase fez tanto sentido quanto a proferida por Shakespeare em Hamlet: “Há mais mistérios entre o céu e a terra, Horacio, do que supõe a nossa vã filosofia”.

Armados até os dentes estão eles que, hoje, ambicionam o livre acesso há sei lá quantas bases militares na Colômbia. E amanhã? Sabe Deus. Para que querem se instalar na América Latina de forma tão proeminente? Alguém se aventura a explicar, por gentileza? Para combater o narcotráfico? As Farc? Ora, faça-me o favor. O propósito contém metas muito mais complexas. Estes países têm, sob sua custódia e consentimento geral, munição com calibres químicos tão arrasadores que o aparato bélico da vizinhança “bárbara” acaba reduzido ao Globo da Morte de um circo de pulgas amestradas. A loucura de um não justifica o desvario do outro? Muito certo! Entretanto, como bem colocou Amorim, o dedo acusador pode render aplausos ao dono, mas raramente salva. Nosso Ministro das Relações Exteriores dá uma verdadeira aula de diplomacia. Trata-se de um baile a cada frase, de um olé a cada parágrafo. Vale a pena conferir.

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* Texto originalmente publicado no Primeiro Caderno da Folha de S. Paulo, no dia 15 de agosto de 2010.

DEDO ACUSADOR PODE RENDER APLAUSO, MAS RARAMENTE SALVA

Atuar com discrição é a expressão da natureza conciliadora do brasileiro

Celso Amorim (Ministro das Relações Exteriores)

Têm sido freqüentes as críticas que apontam para uma suposta “indiferença” – ou mesmo “conivência” – da diplomacia brasileira diante de países acusados de violar os direitos humanos. Trata-se de um juízo equivocado. O Brasil deseja para todos os demais países o que deseja para si – a democracia plena e o respeito aos direitos humanos, cuja consolidação e aperfeiçoamento têm sido uma das preocupações centrais do governo do presidente Lula.

Consideramos, entretanto, que as reprimendas ou condenações públicas a outros Estados não são o melhor caminho para obter esse resultado. Na verdade, escolher a intimidação em detrimento da persuasão é quase sempre ineficaz, quando não contraproducente. O dedo acusador pode render aplausos ao dono, mas raramente salva o jornalista silenciado, o condenado à morte, o povo sem acesso à urna ou a mulher privada de sua dignidade. Isolar quem se quer convencer ou dissuadir é má estratégia.

Preferimos dar o exemplo e, ao mesmo tempo, agir pela via do diálogo franco – em geral, mais eficaz. No caso do Brasil, essa capacidade de atuar com discrição não é oriunda de algum talento excepcional; é a expressão, em nossas relações com outros Estados soberanos, da natureza conciliadora do povo brasileiro.

AGENDA

Ações desse tipo são bem menos visíveis do que a admoestação midiática exercida por alguns países contra um punhado de governos, selecionados de forma nem sempre criteriosa ou politicamente isenta. A escolha dos indigitados, além de obedecer a agenda política, muitas vezes revela preconceitos, ora religiosos, ora raciais. Muitos dos países que se consideram modeladores cultivam relações com regimes não democráticos, desde que isso corresponda a interesses econômicos ou estratégico-militares. Os exemplos são tantos que não podem escapar ao mais complacente dos olhares.

Além disso, alguns aplicam, eles próprios, a pena capital. Ou conferem tratamento desumano e degradante a trabalhadores imigrantes. Ou ainda transferem suspeitos sem julgamento para prisões secretas, em voos também secretos. Isso para não falar de ações militares unilaterais, à margem do Conselho de Segurança da ONU, que resultam em milhares de vítimas civis.

O Brasil considera que as referências específicas a outros Estados no campo dos direitos humanos devem ser feitas preferencialmente no âmbito do Mecanismo de Revisão Periódica Universal do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDH), que, aliás, nosso país ajudou a criar. Ali se busca o tratamento não seletivo, objetivo e multilateral dos direitos humanos em todos os países-membros da ONU.

Em 2011, os métodos de trabalho do CDH serão revisados. Procuraremos aperfeiçoá-los para que o órgão se torne cada vez mais eficaz e para que possa trazer benefícios diretos àqueles que sofrem violações. Em matéria de direitos humanos, como já declarei diversas vezes, não há país que não tenha algo a ensinar, assim como não há país que não tenha algo a aprender.

No esforço de persuadir, o Brasil se vale da cooperação com organizações ou países da mesma região, que têm muito mais probabilidade de serem ouvidos do que, por exemplo, as ex-potências coloniais ou outras nações cuja ação é percebida como reflexo de arrogância e complexo de superioridade. Destas, pode-se dizer, como na Bíblia, que percebem mais facilmente o cisco no olho do próximo do que a trave em seu próprio olho. Foi o que se revelou quando propusemos, na antiga Comissão de Direitos Humanos, resolução que enunciava que o racismo era incompatível com a democracia. Tampouco é verdade que o Brasil se recuse à condenação quando o diálogo se revela ineficaz.

SEM INDIFERENÇA

O acompanhamento cuidadoso, não movido por preconceitos, de nossas votações no CDH revela que estas estão longe de obedecer a um padrão uniforme e tomam em conta uma variedade de fatores. Muito recentemente, aliás, o Brasil apoiou resolução condenatória a um Estado que se negou a acolher recomendações que tinham por objetivo aperfeiçoar a situação dos direitos humanos no país.

Tampouco é demais lembrar que, por meio da ação multilateral e de projetos de cooperação, o Brasil tem ajudado concretamente na melhora da situação de direitos humanos – no Haiti, na Guiné-Bissau e na Palestina, para citar apenas alguns. As posições do Brasil são fruto de um conjunto bem menos simplório de considerações do que a enganosa dicotomia entre bons e maus.

O Brasil não é indiferente ao sofrimento daqueles que defendem liberdade de expressão ou de culto, dos que lutam pela democracia, dos que se insurgem contra discriminações de toda natureza. Ao contrário, nossa diplomacia busca constantemente – sem alarde, sem interferências que geram resistências e ressentimentos, mas visando aos resultados efetivos – atuar em prol da universalização dos valores fundamentais da sociedade brasileira.

Meio Ambiente

agosto 5, 2010

Li com preocupação a matéria publicada, ontem, na Folha. As constantes alterações nas leis ambientais brasileiras estão abrindo um espaço relevante para a depredação de matas nativas no Brasil. Em época de discussões sobre alternativas que priorizem o desenvolvimento sustentável de cada país, do contrário o planeta não sobreviverá, nossos representantes viram as costas para o parecer dos cientistas e encaminham um projeto de lei para aprovação no Congresso. De acordo com o novo Código Florestal, áreas de encosta poderão ser reduzidas em até 15 metros, os pequenos proprietários não terão mais a obrigação de manter ilhas de reservas legais em seus terrenos e cito aqui somente duas das principais modificações.

Os políticos envolvidos no processo desqualificam de tal maneira os cientistas brasileiros que o proponente do projeto, o deputado federal Aldo Rebelo, retrucou declarações de profissionais especializados, chamando-os de levianos. Rebelo disse a jornalistas quando questionado que “essas pessoas precisam parar de fazer afirmações sem comprovação empírica. Isso é irresponsabilidade.” Quais são os conhecimentos empíricos de Aldo Rebelo sobre a fauna e a flora brasileira?

Houve estudos aprofundados dos impactos ambientais sobre estas áreas, correto? O trabalho foi realizado por instituições idôneas, e o parecer dado por elas foi positivo, não foi? Uma ova. Não sei por que ainda me choco com a postura irreverente dos políticos de nossa república. Francamente, a população civil, para eles, não passa da mais pífia patuléia. Como se não soubéssemos, nós, os cidadãos deste País, que as organizações contratadas para a realização destes estudos, sejam públicas, licitadas ou não, estão parcialmente atreladas ao jogo de interesses políticos e econômicos do processo. A meta é aprovar o projeto. A que custos? Ora, o progresso da nação depende de atitudes pró-ativas. Quá. Faz-me rir. O inchaço dos bolsos de muitos é que depende dos votos a favor do novo Código. A decisão final cabe ao nosso legislativo e, em seguida, ao nosso presidente. O mesmo que sancionou, no ano passado, a lei que regulariza terras amazônicas, possibilitando que proprietários da região, muitas vezes grileiros, legalizem a sua situação, podendo inclusive vender as terras em um prazo de três anos após a escritura definitiva ser lavrada em cartório.

O que será do futuro de nossas matas? Ninguém sabe? Sabemos, mas nada fazemos. O povo adora falar, mas não age. Muitos não o fazem por pura falta de informação. As pessoas, há exceções, precisam sentir o problema na pele para mexer os pauzinhos. No Brasil, mais da metade da população está começando a se alimentar melhor agora, na primeira década do século XXI. Graças ao nosso Governo? Sim. Já disse em outras ocasiões que apóio o Lula. Assistencialismos ou não, ele conseguiu colocar mais comida na mesa de milhões de brasileiros. Os seus antecessores não.

Contradições à parte, expresso aqui a minha revolta frente à possível aprovação do projeto que altera o Código Florestal Brasileiro. Dou fé ao parecer dos cientistas que lotaram indignados o auditório da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, no dia 3 de agosto. Uma classe rechaçada por deputados, senadores e, quiçá, pelo próprio presidente. Leviandade é promover a legalização de mais desmatamentos Brasil afora em época que revela o tamanho do rombo no meio ambiente causado por nós. O excesso da intervenção humana na natureza gerou uma nova cultura de pensamento. Colocá-la em prática é um desafio a ser enfrentado, é uma responsabilidade ética que está em nossas mãos. Não serão os políticos a salvar o planeta.

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* Texto publicado no jornal Folha de S. Paulo (Primeiro Caderno, Editoria Ciência), no dia 4 de agosto de 2010.

NOVO CÓDIGO FLORESTAL COLOCA

ESPÉCIES EM RISCO, AFIRMA GRUPO

Para cientistas, redução de matas na beira de riachos é erro de proposta na Câmara

Se for implantado o novo Código Florestal, aprovado no mês passado por uma comissão da Câmara, os impactos negativos na fauna brasileira – como a redução e até extinção de algumas espécies – poderão ser sentidos já nos próximos cinco anos. A análise é de cientistas que lotaram ontem o auditório da FAPESP (Fundação de Amaro à Pesquisa do Estado de São Paulo) para discutir o projeto de lei proposto pelo deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP). De acordo com eles, o código não contou com a comunidade científica para ser elaborado.

O novo código, que ainda precisa ser votado no Congresso, encolhe as APPs (áreas de proteção permanente), entre outras medidas. A redução de 30 m para 15 m das APPs nas margens dos riachos (com até 5 m de largura), que compõem 90% da malha hidrográfica nacional, é um dos pontos críticos. Matas na beira dos rios são importantes para os bichos terrestres e os debaixo d’água, pois fornecem insetos e material orgânico aos peixes. “Em São Paulo, 45 das 66 espécies de peixes de água doce ameaçadas de extinção estão justamente nos riachos”, relata a bióloga Lilian Casatti, da Unesp.

OS SEM-FLORESTA

Répteis e anfíbios, que vivem em regiões alagadas, também sofrerão impactos, com menos vegetação às margens dos pequenos rios. “Onde há menos proteção de APPs pelo novo código é onde há mais biodiversidade”, analisa o biólogo Luiz Felipe Toledo, da Unicamp. No caso dos répteis, o novo código afeta também um outro habitat natural: as montanhas. Isso porque áreas acima de 1.800 m deixam de ser consideradas APPs e recebem permissão legal para serem desmatadas.

Para Otávio Marques, biólogo do Instituto Butantan, a preservação dos répteis é importante inclusive do ponto de vista da saúde pública. “O veneno da jararaca, por exemplo, possui uma molécula que controla a hipertensão e deu origem a um dos principais medicamentos da doença.

CORREDORES

O espaço menor para as florestas na beira dos rios pode afetar também certas populações ameaçadas e restritas de aves e mamíferos. Ambos usam as margens preservadas como habitat ou como caminho para migrar de uma “ilha” de floresta para outra. “Sem isso, os bichos escapam para o meio urbano ou para áreas de pastagens e acabam morrendo”, diz Mauro Galetti, biólogo da Unesp. O encontro realizado na Fapesp deverá resultar em um documento para integrar as discussões da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) sobre o novo Código Florestal.

MATAGAL DA POLÊMICA

As críticas dos biólogos à nova lei

O QUE É O CÓDIGO AMBIENTAL

Conjunto de regras sobre exploração florestal que estabelece, entre outras coisas, APPs (áreas de preservação permanente, como beira de rios) e reserva legal (que varia de bioma para bioma; na Amazônia, é de 80%)

QUAIS AS PRINCIPAIS MUDANÇAS?

1. Redução das APPs. Beira de riachos (até 5 m de largura), por exemplo, passam de 30 m para 15 m de área preservada

2. Pequenas propriedades não precisam manter sua reserva legal

POSSÍVEIS IMPACTOS NA BIODIVERSIDADE

Peixes

Das 66 espécies de peixes de água doce ameaçadas de extinção em São Paulo, 45 vivem em pequenos rios, os mais afetados pela mudança nas APPs

Mamíferos

70% dos mamíferos exclusivos do país e ameaçados de extinção estão em APPs. É o caso do cachorro-do-mato-vinagre: 95% desses bichos vivem em APPs e reserva legal no Pantanal

Anfíbios e Répteis

Ambos os grupos têm seu habitat reduzido com as APPs menores. O Brasil tem o maior número de anfíbios e 8% dos répteis do mundo

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