O Japão e a Mídia

março 18, 2011

Japão, 11 de março de 2011

Imprensa X Desastre

Há uma semana, um terremoto de 8,8 graus na escala Richter e posterior tsunami com ondas de até seis metros de altura atingiram a costa nordeste do Japão, devastando cidades inteiras. Em última atualização de autoridades do país, o número de mortos foi elevado a 6.911 e o de desaparecidos a 10.319. O governo japonês também luta para evitar um desastre nuclear após vazamentos ocorridos na Usina de Fukushima, localizada no entorno do epicentro do tremor.

São desastres de magnitude sem precedentes no país, como afirmou Naoto Kan, primeiro-ministro do Japão. Um acontecimento como este marca de forma trágica a história da humanidade. Há necessidade de noticiar, a população mundial precisa estar ciente das causas e consequências do acidente. O papel da imprensa, mais do que nunca, é o de informar, cobrindo os fatos, debatendo o tema, mantendo-se em alerta 24 horas para que tudo chegue a tempo ao conhecimento da opinião pública.

O por menor incide no excesso, no viés, nos meios escolhidos para transmitir o conteúdo. Faz sete dias que não se fala em outra coisa. Todos os veículos tocam a mesma tecla, as manchetes entopem o leitor, ouvinte, telespectador de detalhes em níveis entorpecedores. Existe limite entre o bem informar e o utilizar de material jornalístico para fins promocionais. Os próprios japoneses já pediram para que a imprensa pare, mas a insistência em seguir marcha parece não ter fim. Abusar de sensacionalismo e tratar da catástrofe como forma de ganhar dinheiro enviesa o processo e inibe o fluxo coerente, crítico e qualitativo do produto informativo. Infelizmente esta parece ser uma prática corriqueira da imprensa mundo afora. E o público? Que se dane. Uma mídia comprometida (no mau sentido), a qual presta um desserviço ao receptor de tudo o que ela desenvolve não está preocupada com o umbigo alheio.

Capítulo de hoje: A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Nada mais ro-ro-ro do que ler os despachos dos consulados norte-americanos no site de Julian Assange. A última preciosidade trazida dos confins do baú diplomático revela o perfil de brasileiros by The King of the World. Em alusão ao faroeste The Good, the bad and the ugly, estrelado por Clint Eastwood na década de sessenta, “the yankees guys” classificam candidatos brasileiros a visto temporário de trabalho no país do tio Sam como bons, maus e feios. O ex-cônsul geral dos Estados Unidos em São Paulo – Christopher J. McMullen – descreve as levas de tupiniquins, para usar um termo ameno (vai saber o que cospem “our brothers” em off), de forma curta e direta. Vamos ao indigesto palavrório.

Segundo McMullen:

BONS: São os jovens que vão ao país para trabalhar em resorts, estações de esqui e cassinos por vários meses para ganhar algum dinheiro e melhorar o seu inglês. O grupo é formado principalmente por integrantes de famílias de classe média.

MAUS: São os parentes e amigos de brasileiros que vivem nos Estados Unidos e vão ao país para trabalhar em subempregos como jardineiro, faxineiro e peixeiro. De acordo com esclarecimentos do ex-cônsul, tais imigrantes representam um grande risco, já que muitos dos que conseguiram trabalhos anteriormente não retornaram.

FEIOS: São aqueles que pagam US$ 3 mil ou mais para corretores para conseguir um emprego e uma chance de ficar nos EUA. O grupo é formado, em maioria, por pessoas pobres, desesperadas, que pedem dinheiro emprestado para pagar taxas escandalosamente altas aos corretores.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro! Dá para acreditar? Humanos de último calibre assinando papelotes encharcados de soberba. Quá! A macaca sabe, todavia, que, em se tratando do espaço mais exótico do planeta, tudo é possível. Verdade seja dita: Mr. Assange é um homem com H, merecedor de respeito. Recebe as informações mais pérfidas das profundezas do Estado e as coloca, na íntegra, à disposição do leitor. – Um herói da pós-modernidade, constata a bichana.

O documento publicado no Wikileaks revela ainda que de janeiro a novembro de 2005, o consulado norte-americano com sede na capital paulista entrevistou 1,5 mil candidatos ao visto de trabalho temporário e rejeitou 49% deles. O aumento de quase 200% em relação aos vistos negados no mesmo período de 2004 ressalta a característica xenofóbica do governo ianque. – De dar dó!, afirma a símia chacoalhando a cabeça…ts, ts, ts. A macaca já viu de um tudo em suas andanças pela savana, mas nada que se compare ao quadrilátero. – Na boa! Por onde circulam seres humanos, desabrocham as mais assombrosas aberrações.

Para ler o documento no Wikileaks, clique aqui.

Capítulo de hoje: o mundo está cada vez mais ro-ro-ro

A macaca encosta a cabeça no tronco de seu aposento e resmunga: – Parece piada. Mas não é. Os jornais diários estampam manchetes do mundo cão sem dono. – Onde já se viu um ex-governante receber benefícios vitalícios mesmo tendo exercido o cargo por irrisórios 10 dias?, indaga a bichana perplexa. Chega a beirar o absurdo de tão surreal. O Estado pesa nos ombros e onera os bolsos do contribuinte brasileiro em níveis descarados. A torneira aberta nas fuças da população não cessa a jorrar fortunas usadas para cobrir gastos de políticos que fizeram do serviço público uma profissão de carreira. Quantos ex-governadores, ex-presidentes, ex-ministros e ex (de tudo um pouco) existem no País? Pois as pensões destes cidadãos variam, para o resto de suas vidas, de R$ 15 mil a R$ 24 mil. Não suficiente, as mesmas são estendidas aos parentes do titular após registro de seu óbito. – Acredite se quiser, provoca a macaca.

Em Santa Catarina, a filha do ex-governador Hercílio Luz, morto em 1924, recebe do Governo uma quantia mensal de milhares de reais desde o falecimento do pai. No Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon tem, ou tinha, já que admite rever o pedido, a intenção de acumular ao seu salário atual – de R$ 26,7 mil –, R$ 24 mil correspondentes ao valor de sua aposentadoria como ex-governador. – Por que ele ficaria fora da boquinha?, comenta a símia abestalhada com páginas e mais páginas de notícias sobre o tema. Todos sabem que políticos custam aos cofres da Viúva, para utilizar um termo de Elio Gaspari, mais de R$ 100 mil por mês. A lista é extensa e inclui fartos adicionais, além do direito à moradia, a automóvel, a motorista, a combustível, a passagens aéreas, à hospedagem, à alimentação e a praticamente tudo. – Para aonde vai o mundo?, pensou ao virar a folha e pah, mais um título escandaloso: Obama cobra China por direitos humanos.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro. Ah! Ah! Ah! Eu me divirto com humanos. A cara de pau de uns não inibe a falta de vergonha de outros, reitera a símia se torcendo em gargalhadas. Responda se puder: quem é Barack Obama para pressionar Hu Jintao no que diz respeito a direitos humanos? O presidente de um país que, para o bem da humanidade, aniquila povos mundo afora tem propriedade para exigir o que do presidente da China? Claro, os heróis do universo (tradução = norte-americanos) sempre deflagram guerras pela paz. Crã, crã. – Fala sério Mr. King of the World. Menas companheiro, para usar uma expressão de Lula.

– Sim, os jornais estão de matar de rir. Ôpa, péra aí: ‘Baby Doc’ sugere volta à política no Haiti. Porta-voz de ex-ditador propõe anulação de 1º turno para que ele possa concorrer mesmo após o indiciamento. What? Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! E esta criatura das trevas tem simpatizantes que empunham a sua foto estampada em medalhinhas de tamanho razoável. – Ai, Senhor, depois dessa, vou encerrar por hoje, senão não durmo. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! A macaca, sem conter o riso, fecha o periódico e sai a exclamar:

- O mundo está mesmo cada vez mais ro-ro-ro.

A macaca em…

janeiro 9, 2011

O quadrilátero da esquisitice

Capítulo de hoje: A praia do e$panto

 

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha…

Após temporada de pé na tábua pela capital gaúcha, a macaca retornou a Florianópolis para começar 2011 a todo vapor. Energia recarregada e Voilá, a bichana está pronta para a próxima jornada. O seu primeiro final de semana do ano foi cheio de sol e aventura por matas de restinga com direito a parada na selva da mundialmente aclamada praia do e$panto. Balneário de abastados e famosos, o e$panto, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina, causa arrepios em qualquer criatura do mundo real. Morada de tribos endinheiradas (nem todas), a praia conta, em época de alta temporada, com um fenômeno chamado A Invasão Bárbara. Clãs de ‘homens de ouro’ superlotam o lugar, transformando-o em um dos mais autênticos protótipos do capitalismo selvagem pós-moderno.

A atmosfera exótica do lugar chamou muito a atenção da macaca, pois havia no semblante do grupo seleto um gosto blasé pela queima enfurecida de muito dinheiro (seu $?). – Isso remonta aos cenários de Kubrick em seu genial De Olhos Bem Fechados, pensou a símia. Os endinheirados exibiam-se com ferocidade em áreas exclusivas à beira-mar. Ao som de música eletrônica, rapazes rodeados por mulheres de corpos impecáveis em seus beach wears distribuíam garrafas de Veuve Clicquot a torto e a direito não com o objetivo de degustar o champanhe francês de centenas de reais, mas de ostentar em demonstrações bizarras de poder. Grande parte dos jovens sacudia as garrafas com vontade, fazendo jorrar a bebida milionária em cascatas perdulárias de pura falta do que fazer. O rito de mais uma tarde de sol entre o povo de lá e eu cá alcança gastos que podem chegar a R$ 20 mil por dia.

– Excêntricos elevados à potência mais crônica da insanidade ou ricaços despreocupados com a quantia exorbitante de dinheiro jogado fora?, questionou a bichana passada com a cena cinematográfica.

A verdade é que o grupo de seres humanos que se divertiam na praia do e$panto – templo de ‘semideuses’ abençoados pelo valor da moeda –, não tem noção do que se passa do lado de fora da bolha de plástico construída para que exibam as suas penas de macho e fêmea alfa. Todos que pelas passarelas dos clubes vagueavam a esbanjar fortuna estavam cagando para o resto do planeta. Dane-se, sentenciavam com o olhar. Eu tenho, eu existo, eu posso. Ponto. O resto, meus caros leitores, somos nós, os farofeiros.

– Opa, exclamou a macaca. Pelo que descreve a repórter da matéria a seguir, eu pertenço ao limbo da farinha de mandioca. Sim, é isso. Quem diria, eu, uma símia bem-nascida, graduada, habitante da Grande Árvore, vegetal situado em zona privilegiada da mata, reduzida à pífia ralé da fauna e flora universal?

A macaca arregalou os olhos, ergueu a sobrancelha direita, largou os beiços e, sem armas para resistir, caiu na gargalhada. – Quá! Quá! Quá!, balbuciou estupefata com a força esmagadora do capital. O dinheiro banaliza a condição humana. Os ‘homens de ouro’ carregam a certeza de que tudo podem. Eles realmente podem. Na praia do e$panto, por exemplo, têm absoluta liberdade para defenestrar dinheiro pelos cotovelos. Em ambientes fechados, pessoas do degrau debaixo – ou seja, os apenas ricos – são observadas com olhar de esgueira.

– Os apenas ricos?, indagou a símia. Como assim? Para os veranistas do e$panto, há classificação de endinheirados a começar pelos ricos, que são a farofa ignóbil. A pensar que 10% das pessoas englobam esta fatia da sociedade, senão menos, o que resta para àqueles que não têm os bolsos fartos? Como seriam classificados os integrantes da classe média alta? Hein!

A macaca deixou o balneário pelo qual circulam ferraris e helicópteros com uma certeza ácida, mas lúcida. Todos sabem exatamente como se locomover pelo tabuleiro da vida. Os que conquistam dinheiro têm poder. São os donos do mundo. Os que não alcançam o degrau da fortuna não têm escolha. São os subordinados aos ‘homens de ouro’. Assim caminha a humanidade. O que sobra dessa sopa de caroços difícil de engolir é um rastro largo de vazio e estereotipia. Criatividade zero. O mundo sempre girou nesta órbita; e que se dane o resto. Ah sim, o resto somos nós.

Quem quer dinheiro?

 

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* Matéria publicada originalmente no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, no dia 9 de janeiro de 2011.

‘Super-rico’ torce nariz para ‘farofa’ dos ‘apenas ricos’

Em Florianópolis, na Jurerê Internacional, há quem não tire o pé de áreas ‘exclusivas’


Luiza Bandeira/ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS

Eliane Luiz, 36, é juíza, tem apartamento de veraneio comprado a R$ 800 mil na praia mais badalada de Florianópolis e bebe champanhe Veuve Clicquot à beira-mar, a R$ 280 a garrafa. Mas, na opinião de alguns frequentadores de Jurerê Internacional, ela é “farofa”. Os “super-ricos” do balneário passam toda a temporada sem pôr os pés na areia e pagam até R$ 1 mil só para entrar em um bar livre dos que consideram “farofeiros”.

Eles são necessariamente mais ricos que o pessoal da areia, mas desprezam a democracia à beira-mar, onde entra quem quer. “Super-rico” aprecia apenas o público “bonito e selecionado” de local pago. “No lugar aberto tem cara tatuado, bombado, de corrente. Estou pagando para ficar em lugar exclusivo”, diz o paulista Rodrigo de Castro, 31, enquanto bebe champanhe na piscina do P12, espécie de clube na praia.

No local, as atrações são a piscina com bar dentro, camas confortáveis e DJs. A entrada varia de R$ 45 para mulheres a até R$ 300 para homens, preço cobrado nos dias mais cobiçados. “Na praia você fica cheio de areia. É muita farofa, muito Maresias”, afirma Davi Almeida, 30, que diz gastar cerca de R$ 500 ao dia no clube.

No Café de la Musique, os preços são mais salgados: os “super-ricos” chegam a gastar até RS 5 mil diariamente. “Aqui o nível é melhor. Mas está ficando muito caro agora, nem a Europa é assim”, diz o advogado cuiabano Diogo Alves, 27, que foi à praia em só dois dos 20 dias em que esteve na cidade. Com amigos, ele pagou, em um dia, R$ 20 mil de consumação para ficar na piscina do Cafe de la Musique.

A consumação é gasta em muito champanhe, vodca, energético, cerveja e ofertas de bebidas para mulheres. No Cafe, a entrada para homens custa até R$ 1 mil. A das mulheres é de graça. “Os donos sabem que os homens querem estar cercados de mulheres bonitas”, diz Diogo, cercado por oito garotas dançando ao redor de sua mesa, bebendo de graça.

PELA VISTA

Mesmo os lugares que não cobram entrada dão um jeito de selecionar o seu público. No restaurante Taikô, a entrada é livre e as mesas da parte de trás são liberadas. Mas, para ficar nas da frente, com vista para a praia, a consumação é de R$ 3 mil. “Não é todo mundo que entra aqui. Viemos porque seleciona a frequência. É outro perfil”, diz o empresário paulista Ronaldo Zardur, 44.

Quem fica na praia critica ‘ostentação’

“É um cuscuz marroquino, não uma farofa”, diz o advogado Gustavo Nadalin, 32, negando o título de “farofeiro” dado pelos “super-ricos” e bebendo champanhe Chandon em taças de acrílico em Jurerê Internacional. Morador de Curitiba, ele e a mulher passam férias no apartamento da família no balneário e dizem gostar mais de aproveitar a praia do que ir aos bares e clubes.

A farofa chique, para ele, contrasta com o exibicionismo dos “super-ricos”. “Tem que ter bombinha na garrafa de champanhe [alguns lugares colocam velas que soltam faíscas nas garrafas]. Simboliza o dinheiro deles sendo queimado”, diz. “Nós somos de uma família de classe média alta, mas somos ‘low profile’ Tem gente que está tão bem como eles, mas não está se exibindo”, afirma a mulher dele, a empresária Ângela Nadalin, 38. Para o casal Edson Luiz, 34, advogado, e Eliane Luiz, 36, juíza, há muito exibicionismo entre os “super-ricos.”

“Rola competição de quem pede mais champanhe, eles abrem e jogam tudo fora, para o alto. Onde está a farofa?”, pergunta Edson, que bebia champanhe Veuve Clicquot. “Gostamos de apreciar a bebida”, diz Eliane. Champanhe é a bebida mais característica da Jurerê Internacional, mas muitas pessoas levam também água, comida, refrigerante e cerveja em seus isopores. Dizem que o fazem por costume e para evitar os preços da praia.

Um Quilômetro a Mais

junho 30, 2010

Na semana retrasada, fartei-me ao ler a coluna do Miguel Falabella, na Isto É.  Com eloquente sagacidade, ele dá uma bela e ardida bitoca no destorcido narizinho dos bullies:  “(…) medíocres urrando sua total incapacidade de relacionar-se com a espécie.” Texto elegante e certeiro. Excepcional.

Imagino a multidão de medíocres que o agrediram no decorrer de seu trajeto. Falabella cita a Claudia Jimenez como exemplo de vitória da força e da competência sobre a incapacidade cruel de uns e outros. As sociedades estão impregnadas de estereótipos boçais. Desclassificados  têm a epiderme sorvida pela psicopatia. Eles sempre dão o seu jeito de chegar a lugar que valha, mesmo que para isso tenham de violar o espaço individual do próximo.

O bullyng é perigoso, perverso e pode sim causar sequelas graves. Não passa de uma série de intimidações proferidas ao léu por uma parcela de sujeitos com baixa autoestima. Ok. Há tentativa desesperada do bando de chamar a atenção. Ok. Mas agressões em massa têm um poder avassalador, se não forem devidamente detidas, punidas ou ignoradas. Crianças e adolescentes – seres ainda em formação – têm o ego rijo para rebolar na hora certa? A intervenção dos pais e do setor pedagógico das escolas pode salvar vidas e futuros brilhantes. Há que se esticar um bocado até que se aprenda a desviar de pauladas verbais. Nem sempre um indivíduo indefeso, em fase de estruturação da psique, sabe enxergar a saída.

Os bullies não têm a capacidade de fazer por si. Por isso, partem para a ignorância. Medíocres, infelizmente, ora vencem, ora mínguam. Depende. Cabe a nós, armarmo-nos com a certeza de quem somos e do que queremos. Como bem disse Falabella, “quando sabemos para onde ir, não há de ser um empurrão que vai nos tirar da rota. Ao contrário, ele nos empurra para frente.”

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* Texto originalmente publicado na revista Isto É, página 170, em 16 de junho de 2010.

Dia desses, numa daquelas mesas divertidas no fim de noite, Claudia Jimenez mudou inesperadamente o rumo da prosa e nos contou o quanto sofreu no início de sua adolescência por causa do Bullyng imposto a ela pelos valentões da escola. Bullyng é o termo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo, o “bully” (valentão), ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos). Segundo ela, para fugir do assédio e da intimidação, costumava trilhar um caminho muito maior na ida e na volta da escola, evitando as zonas consideradas perigosas.

O silêncio caiu sobre a mesa, e eu percebi, nos olhos de cada uma daquelas pessoas, que aquele quilômetro a mais que Claudia afirmava ter trilhado durante bom período da adolescência espelhava-se nos vários quilômetros extras que cada um de nós tinha percorrido em sua trajetória, na vã tentativa de fugir à intimidação dos valentões que povoam este planeta. Infelizmente, o bullyng não é apenas um fenômeno de adolescentes com baixa autoestima, tentando afirmar-se sobre aqueles que ele considera mais fracos. O desejo de bullyng cresce dentro desses indivíduos, amadurece na salmoura da crueldade e continua a nos assombrar vida afora, como aquele pesadelo recorrente que desejamos evitar.

Claudia, é claro, graças a seu inegável e imenso talento, sobreviveu às ofensas e chacotas cotidianas, transformando o sofrimento numa vitória pessoal, mas há aqueles que não suportam a pressão e se deixam abater. Nem todos têm o talento de um Truman Capote que, para fugir do bullyng dos colegas e do próprio pai que o chamava de Miss Sissy, descobriu que podia pegar um punhado de palavras e atirá-las para o alto, porque elas cairiam no lugar certo. “Como se eu fosse um Paganini semântico”, afirmava Mr. Capote. A história das artes, em geral, é recheada de contos de bullyng intelectual escondidos sob o manto da crítica. A poeta americana Emily Dickinson enviou alguns de seus trabalhos para Thomas Higginson, editor da “Atlantic Monthly”, uma respeitada revista literária, e ele comparou seus versos a espasmos sem controle. Anos depois, Mr. Higginson tentou retratar-se num artigo sobre as cartas da poeta, mas o dano tinha sido maior do que ele imaginava.

Não há como fugir do bullyng. Ele vem de todos os lados, e quase nunca temos tempo de identificar o agressor antes que ele possa atacar. Há, entretanto, uma atitude comum para aqueles que sofrem de bullyng e que deve ser adotada. O agressor faz o que faz em busca de atenção. Geralmente são medíocres urrando sua total incapacidade de relacionar-se com a espécie.

Aproveite o quilômetro a mais nosso de cada dia para reafirmar seus credos, seus desejos, sua arte e seu encanto. Porque quando sabemos para onde ir, não há de ser um empurrão que vai nos tirar da rota. Ao contrário, ele nos empurra para frente.

E, principalmente, entenda o seu agressor. Saiba quem ele é e você vai entender, como dizia o mestre Osho, que mais importante que o caminho é, sem dúvida, o caminhar. E isto, meu caro leitor, isto também passará.

Saúde Mental

maio 27, 2010

Ai ai. A Martha Medeiros é mesmo uma coisa muito séria. Não canso de me surpreender com esta mulher. Quando penso que li a melhor crônica que já escreveu, shrbum, lá vem outra mais arrebatadora. No domingo do dia 23 de maio, minha mãe exclamou da sala: “Carolina, a Martha hoje está demais. Vem ler isso aqui. Você vai gostar”. Ueba, pensei. O sinal verde abriu.

Saúde Mental era o título do texto. Confesso que foi à primeira vista, identifiquei-me na hora. Por quê? Respondo. Integro a tribo de corajosos capazes de se abrir a tal ponto que para sobreviver precisam, com o passar de sua existência, aprender a desviar das balas, lançadas em disparada, sistematicamente, por franco atiradores. Não há escapatória. Cedo ou tarde, iremos cruzar com mais um e outro.

O que temos em nossas mãos é a certeza da escolha. Há caminhos e caminhos. Optamos pelo enfrentamento primeiro de nós mesmos, depois da realidade de uma sociedade educada para temer, esconder e se alimentar de opiniões formadas. Não queremos a regra, o padrão, o politicamente correto, mas o céu, a liberdade, “o universo todo, incerto e mágico”.

Medo? No início. “Mas o segredo está em nos acostumarmos com a ideia”. Não deu para resistir. Vim saltitante até vocês sabem onde (laptop) para escrever estas linhas e, com todo o meu fôlego, publicar a crônica da Martha no blog. Mais uma.

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* Texto publicado originalmente no Caderno Donna, jornal Zero Hora, no dia 23 de maio de 2010.

Acabo de saber da existência de um filósofo grego chamado Alcméon, que viveu no século 6 antes de Cristo, e que certa vez disse que saúde é o equilíbrio de forças contraditórias.

O psicanalista Paulo Sergio Guedes, nosso contemporâneo, reforça a mesma teoria em seu livro (A Paixão, Caminhos & Descaminhos, em que discute os fundamentos da psicanálise). Escreve Guedes: “A saúde constitui sempre um estado de equilíbrio instável de forças, enquanto a doença traz em si a ilusória sensação de estabilidade e permanência”.

Não sei se entendi direito, mas me pareceu coerente. O sujeito de boa cuca não é aquele que pensa de forma militarizada. Não é o que nunca se contradiz. Não é o cara regido apenas pela lógica e que se agarra firmemente em suas verdades imutáveis. Esse, claro, é o doente.

Do nascimento à morte há uma longa estrada a ser percorrida. Para atravessá-la, recebemos uma certa munição no reduto familiar, mas nem sempre é a munição que precisávamos: em vez de nos darem conhecimento, nos deram regras rígidas. Em vez de nos ofertarem arte, nos deram apenas futebol e novela. Em vez de nos estimularem a reverenciar a paixão e o encantamento, nos adestraram para ter medo. E lá vamos nós, vestidos com essa camisa de força emocional, encarar os dias em total estado de insegurança, desprotegidos para uma guerra que começa já dentro da própria cabeça.

Armados até os dentes contra qualquer instabilidade, como gozar a vida? A paz que tanto procuramos não está na previsibilidade e na constância, e sim no reconhecimento de que ambas inexistem: nada é previsível nem constante. E isso enlouquece a maioria das pessoas. Quer dizer que não temos poder nenhum? Pois é, nenhum.

Dá medo, no início. Mas o segredo está em acostumar-se com a ideia. Só então é que se consegue relaxar e se divertir. Ou seja, a pessoa de mente saudável é aquela que, sabedora da sua impotência contra as adversidades, não as camufla, e sim as enfrenta, assume a dor que sente, sofre e se reconstrói, e assim ganha experiência para novos embates, sentindo-se protegida apenas pela consciência que tem de si mesma e do que a cerca – o universo todo, incerto e mágico.

Acho que é isso. Espero que seja só isso, pois me parece perfeitamente curável, basta a coragem de se desarmar. O sujeito com a mente confusa é um cara assustado, que se algemou em suas próprias convicções e tenta, sem sucesso, se equilibrar em um pensamento único, sem se movimentar. Já o sadio, baila sobre o precipício.

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Para encerrar, deu-me vontade de passar manteiga no pão. E agora? O que fazer? Humm. Como uma onda, de Lulu Santos, é uma ótima pedida.

Lá vai.

Condição de Entrega

abril 21, 2010

Agrada-me a visão de mundo ampla, direta, construtiva e leve da Martha Medeiros. Muitos de vocês, sem dúvida, sabem de quem estou falando. Trata-se de uma profissional com relevante projeção nacional. O roteiro de Divã, para citar uma das adaptações de sua obra, baseou-se em um livro da jornalista. O filme, a meu ver, é um convite à vida com abundante pitada de saúde mental.

Domingo passado, enquanto lia o jornal, deparei-me com uma crônica da Martha que faço questão de publicar na página. O conjunto de palavras me tocou no ponto certo. Quando cheguei ao final do texto pensei, nossa, é isso. Eu acrescentaria, ainda, uma pergunta para deixar no ar maior possibilidade de reflexão ou talvez para ser mais incômoda do que ela: por que a dificuldade de entrega é um ponto manjado, insistente e rígido em tempos modernos? Refiro-me ao raciocínio de homens e mulheres de qualquer cultura.

A resposta parece banal, mas há embutida nela a complexidade humana, muitas vezes inteligível. O acesso a esta compreensão costuma ser restrito àqueles que optam com afinco  pelo contato consigo mesmo. Peça de difícil obtenção, mas fundamental para a abertura de um caminho mais sólido, iluminado e oportuno. O problema mora na falta de confiança e de um entendimento do outro e de si, ou seja, na ausência completa de comunicação. A escolha sempre tende a ser o eu, o self, a persona. Não há quem não queira, sobre a face da terra, amar e ser amado, exceto psicopatas, pessoas com transtorno de personalidade. Entretanto, na hora de mergulhar fundo, de se jogar, de se entregar ao outro, o que ocorre? Instinto de sobrevivência? Bela desculpa para não enfrentar o desconhecido, o incerto, o impalpável.

Uma junção de fatores agrega excesso de racionalismo à conduta das pessoas. Alguns deles, desmedidos e determinantes, são o medo aterrorizante da dor; o individualismo contaminado por lobbies de mercado tais como o sucesso só depende de você ou para chegar ao topo viva primeiro para o trabalho; a resistência, já que a perda do controle não consta no manual de instruções criado por seres humanos; a imaturidade, pois o compromisso afetivo (qualquer um, né gente?) exige que responsabilidades sejam assumidas; e a indisponibilidade. Há uma tendência de se associar o vínculo amoroso à perda da liberdade, o que, inúmeras vezes, acontece mesmo porque as pessoas não sabem se relacionar. O sentimento de posse, o ciúme descomunal, a intenção de mudar o outro (ah, isso ele (a) vai perder com o tempo), o pré-julgamento, etc, são ingredientes antiamor, predadores de qualquer perspectiva.

Qual é o tema em questão? O amor. Para ele não há plano, receita, estratégia, fórmula, feitiço, nada. Há quem diga: eu não vou me jogar do abismo sem saber o que lá embaixo me espera. Olhar para baixo procurando certezas  é um ato vazio.  Não existem certezas, apenas oportunidades. Joguemo-nos do alto e com tudo, sem titubear. Correremos o risco de nos esborrachar? Sem dúvida. Caso isso não aconteça, o encontro será pleno. Para amarmos, precisamos, primeiro, abrir mão de toda e qualquer garantia.

Eu sempre apostei nisso. Já amei? Sim, e muito. Estou realizada no amor? Não, continuo solteira. Com 33 anos? Exatamente. Absurdo? Não, apenas a minha realidade. Eu quero alguém? Lógico. E agora? Sei lá. Mas trago comigo uma alegria imensa por saber desta conquista, que é minha, rara e de grande valor. Do que estou falando? Desta que me faz brilhar e ser cada vez mais forte, dinâmica, curiosa, bonita, flamejante, bem-humorada, poderosa, feliz: a capacidade de amar.

Segue abaixo a crônica da Martha. Concordo com ela e sei que existe muita gente por aí que concorda conosco. Hoje, a minha irmã caçula, Bebel, comentou, sem entrar em muitos detalhes, sobre uma entrevista do Chico (Buarque) na qual ele cita Michel de Montaigne. Em seus escritos, o autor fala da perda de um amigo que morreu jovem. Perguntaram para ele na época: o que você gostava nele? Montaigne respondeu: Huuuum, sei lá, eu não sei explicar, só sei que gostava dele, e ponto. Após quinze anos, ao repensar a resposta que deu, ele acrescentou: eu gostava dele porque era ele, e ponto. Depois de mais quinze anos, reviu a resposta, e incluiu: eu gostava dele porque era ele e eu, e ponto.

Né? Ô!

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* Texto publicado originalmente no Caderno Donna, jornal Zero Hora, no dia 18 de abril de 2010.

 

Acaba de ser revelado o que uma mulher quer – e que Freud nunca descobriu. Ela quer uma relação amorosa equilibrada onde haja romance, surpresa, renovação, confiança, proteção e, sobretudo, condições de entrega. É com essa frase objetiva e certeira que Ney Amaral abre seu livro Cartas a uma Mulher Carente, um texto suave que corria o risco de soar meio paternalista, como sugeria o título, mas não. É apenas suave.

Romance, surpresa, etc, não chegam a ser novidade em termos de pré-requisitos para um amor ideal, supondo que o amor ideal exista, mas “condição de entrega” me fez erguer o músculo que fica bem em cima da sobrancelha, aquele que faz com que a gente ganhe um ar intrigado, como se tivesse escutado pela primeira vez algo que merece mais atenção.

Mesmo havendo amor e desejo, muitas relações não se sustentam, e fica a pergunta atazanando dentro: por quê? O casal se gosta tanto, o que os impede de manter uma relação estável, divertida e sem tanta neura?

Condição de entrega: se não existir, a relação tampouco existirá pra valer. Será apenas um simulacro, uma tentativa, uma insistência. Essa condição de entrega vai além da confiança. Você pode ter certeza de que ele é uma pessoa honesta, de que falou a verdade sobre aquele sábado em que não atendeu ao telefone, de que ele realmente chegará na hora que combinou. Mas isso não é tudo. Pra ser mais incômoda: isso não é nada.

A condição de entrega se dá quando não há competitividade, quando o casal não disputa a razão, quando as conversas não têm como fim celebrar a vitória de um sobre o outro. A condição de entrega se dá quando ambos jogam no mesmo time, apenas com estilos diferentes. Um pode ser mais rápido, outro mais lento, um mais aberto, outro mais fechado: posições opostas, mas vestem a mesma camisa.

A condição de entrega se dá quando se sabe que não haverá julgamento sumário. Diga o que disser, o outro não usará suas palavras contra você. Ele pode não concordar com suas ideias, mas jamais desconfiará da sua integridade, não debochará da sua conduta e não rirá do que não for engraçado.

É quando você não precisa fingir que não pensa o que, no fundo, pensa. Nem fingir que não sente o que, na verdade, sente. Havendo condição de entrega, então, a relação durará para sempre? Sei lá. Pode acabar. Talvez vá. Mas acabará porque o desejo minguou, o amor virou amizade, os dois se distanciaram, algo por aí. Enquanto juntos, houve entrega. Nenhum dos dois sonegou uma parte de si.

Quando não há condição de entrega, pode-se arrastar, prolongar, tentar um amor para sempre. Mas era você mesmo que estava nessa relação? Condição de entrega é dar um triplo mortal intuindo que há uma rede lá embaixo, mesmo que todos saibamos que não existe rede pro amor. Mas a sensação da existência dela já basta.

Reflexões

setembro 27, 2009

Macaca editadaHá muito tempo não via luar como aquele. Movimentava-se entusiasmada com a sensação gostosa de soltura que o banho lhe proporcionava. O rio se ampliava à luz da lua, cheia de uma primavera que insidia ardente. Nada a faria parar. Eram mãos e pernas a tomar as águas com a frescura de seu corpo macio e arredondado…

– Eu adoro este lugar. Como é lindo!, exclamou a macaca. A ilha possuía belezas singulares: montanhas, verdes de tonalidades mil, rochas encravadas entre céu, costões e a imensidão azul do mar, praias de areias claras a brotar aqui e ali. – Viver próxima a tanto é um privilégio para poucos! A maioria dos seres reside em locais turbulentos, degradados e estressantes. Eu não. Pelo menos por enquanto. A bichana continuava angustiada pela dúvida que residia em seu peito há alguns pares de meses. – Tenho pensado em me mudar para uma grande floresta, destas esculpidas pela mão do homem, onde árvores de plantio secundário se amontoam junto a uma terra cuja composição nutritiva já não se faz presente há décadas. Não tem sido fácil decidir. Sinto-me dividida entre as oportunidades que lá existem e a qualidade de vida que conquistei neste pedaço de paraíso. Splach splach, chacoalhava-se à beira-d’água ainda em estado de graça com os sabores que o momento havia lhe concedido da epiderme à corrente sangüínea.

– E agora? O mais difícil na vida não é a constatação de determinadas coisas. Comprovar é tomar para si o resultado do macaco artísticodesenrolar das histórias. Perceber é se manter atento aos passos dados, um de cada vez. A macaca estava prestes a tomar novo rumo na vida. Enxergava o caminho a seguir de forma tão clara que até a ela causava espanto tamanha transparência. Uuuuuummffff…suspirava enquanto a pele era tomada por uma efervescente rajada de arrepios. – Cheguei ao ponto que muitos chamam de encruzilhada ou momento exato em que a trilha se divide. Posso definir sem pestanejar que me encontro na fase X da questão. De agora em diante, ou vai ou racha. Tenho uma escolha a fazer. A boa notícia é que conheço meu potencial, minha qualidade simiesca e minha necessidade de estruturar um plano estratégico sólido. A dúvida se instala nas perguntas que me consomem no decorrer do trajeto: chegarei aonde quero ficando? Há meios de vencer habitando um ecossistema cujo mercado de bananas é incipiente? Preciso avaliar, ponderou a símea enquanto se esfregava no tronco de árvores vizinhas. Passeou pelo entorno em direção a sua casa. Respingos marcavam o seu rastro sobre a relva.

– O que valerá mais a pena? Devo buscar conselhos de macacos velhos. Pensei que já tivesse encerrado o assunto, mas vejo que não. Minhas ideias seguem trementes, noto-me aflita…arg. Como sei das experiências que quero ter mundo afora, vasculhando países, culturas e animais de espécies variadas, talvez o importante seja optar pela floresta central. O que me prende à ilha são as pessoas que eu amo, as belezas que me enchem o espírito e a qualidade de vida que este lugar me oferece. Por que escolheria viver longe do que para mim é bom? Sim, para abrir portas que me possibilitarão sair por aí a conhecer e reportar tudo o que por minhas vistas passar.

macaco1A macaca estava cansada. Fazia-se tarde, a noite rasgava as horas com a sua típica e insaciável rapidez. Findo o ritual de delícias nas águas do rio, a bicha tratou de escalar o tronco da Grande Árvore relaxadamente, pulando de galho em galho com cuidado para não acordar a macacada. No caminho, pegava-se sorrindo sem mais nem por que. Agradava-lhe a sensação de estar perto de sua família, de ter macacos tão especiais como mãe e pai, irmão e irmãs, cunhado e cunhada. Por ora eram apenas dois. Ela e sua caçula trilhavam solteiras a estrada da vida. Acontece! Amar não é para qualquer hora. Eis uma verdade primordial.

– Já amei, mas ou não fui correspondida, ou a distância derrotou perspectivas, ou fui enganada; enfim. Além do mais, o mundo está cada vez mais RO RO RO e os seres cada vez mais esquisitos, pensou balançando a cabeça com um ar de descontentamento. Encontrar alguém em contexto insólito é tarefa árdua. Deparar-se com animais de bom caráter e disponíveis é raridade. O importante é o amor que trazemos por dentro. O resto é pura sorte ou coincidência. Quem sabe um dia? Não vou me preocupar com isso agora. Tenho assuntos a resolver, mais urgentes e que dependem só de mim.

Foi quando avistou o seu galho, o predileto, aproximou-se dele, bateu as patas traseiras no ar antes de pisar a madeira, subindoacomodou-se, olhou para o céu, enxergou a lua e sossegou o pensamento. – Amanhã é outro dia. Independente da escolha que farei, o maior valor está na força de vontade. O talento não serve para muita coisa se não estiver acompanhado de muita força de vontade. Portanto macaca, dê o seu passo, tenha ele a direção que tiver, com a certeza de que está munida de ambos os quesitos. A modéstia que permaneça à parte sim senhora. Todas as suas conquistas são frutos do trabalho, da garra e da determinação. Há apenas um porém. Não vacile quando encontrar a sua resposta. Siga em frente porque nada precisa ser definitivo, mas oportunidades não vão e vêm. Como diz o ditado, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

(A macaca e o quadrilátero da esquisitice)

monkey.laptop2Aonde, afinal de contas, leva o blá blá blá? Quem já reparou no quanto as pessoas adoram blábláblázear feito lunáticas sem dizer coisa com coisa? Acreditam que estão a se comunicar, defendem argumentos, dissertam sobre cada mínimo detalhe de situações diversas, dando assim, sequência ao infinito e poderoso falatório. Chegam, com tamanha verborragia, a fim de linha com conclusão satisfatória? Não. Conduzem-se por caminho fértil após desembarque interminável (barbaridade) de sabe-se quantas palavras? Não. Aproximam-se de um entendimento? Não. Constroem plano estratégico que objetive o seu cotidiano de forma a alcançar o que pretendem, ou pensam que, encerrado o exercício desenfreado? Não. Isso é salutar? Pelamordedeus!

Manter o cérebro em atividade sedentária causa sérios danos aos miolos. Blá blá blás geram flacidez mental, dizem os especialistas. A língua, no entanto, chega à beira do divino, tamanha a perfeição do fio. Afirmam inclusive, que com anos de prática do famigerado blá, o músculo passa a riscar feito lâmina japonesa. A macaca se esforça para entender o porquê da satisfação humana em ter uma língua enxuta e, em contrapartida, um cérebro molenga. Ela definitivamente não encontra respaldo em bibliografia de qualidade sã. Fato é que o homo sapiens sapiens  insiste na repetição do tal método por descomunal número de vezes, dias, meses, décadas.

– Considero incompreensível o desgaste de energia inútil. Como podem soltar tanto as suas línguas sem intervalo nemamazon_monkey2 mesmo para uma banana? Se as discussões surtissem efeito positivo na vida ampla, bela e direta, mas não. Ocorre exatamente o oposto. Quem saberia me dizer: o mundo foi sempre assim ou deu surto generalizado na humanidade?

Dizem por aí que quem tagarela sem parar é a mulher. – Mentira. Hoje ouvi som articulado saindo de boca masculina por horas. Humpf. A criatura aqueceu motor, entrou em ritmo de conversação e tocou ficha: blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá. Não menos desconjuntada, e crente que estava coberta pela luz da razão – eles sempre tomam postura empertigada para dar ao drama veracidade –, a mulher entrou em cena para terminar de descarrilhar o trem. Matraqueavam de tal forma que a impressão é de que nutriam prazer orgásmico pelo ato. No fundo, ouviam um ao outro sem escutar uma palavra sequer.

blá1Blá blá blá sobre despesas – sejam domésticas ou acumuladas pelo vício de consumo desgovernado –; sobre a falta de sal no feijão; a lâmpada que alguém teima em deixar acesa na sala; a pouca demonstração de afeto, pois um se dedica mais ao outro e isso não é justo; a cara amarrada que um faz quando o outro comenta sobre o modo como o carro está estacionado; a dúvida sobre a real intenção de beltrano caso não retribua a um sorriso; os pingos que não foram colocados nos is no dia tal do ano y; a desconsideração de um por não entender a atitude do outro: ­“Eu sempre faço o melhor, sempre estou aqui para tudo o que você precisa e isso nunca parece ser o bastante, jamais será, não é mesmo?”, resmunga uma das partes. O embate cansativo surge do nada e termina em coisa alguma. Impressionante!

– De onde vem a capacidade de disparar frases a torto e a direito? A macaca coça a penugem macia das fuças e decidemacacada2 entregar os pontos. Arre, cansei! A vida é simples, por mais que doa. Que nexo existe na perda de tempo quando é óbvio que se está a andar em círculo? Não se chega a canto qualquer com cobranças, pitacos, lamúrias, comparações, apontamentos do que é ser ideal e blá blá blá. A miséria das pessoas está na insatisfação perene. O melhor para o ser humano tem referência em ponto de vista mirrado por ele tomar como certo a concepção individual. “Já que EU sou assim, todos devem ser, ora, que maneira de conduzir as coisas poderia ser mais adequada e inteligente?” Ô prepotência! De que parte da cuca brotam tais sandices? Não faço a mínima!

Há blá blá blás entre homens e mulheres, crianças e adultos, pais e filhos, amigos consomem vitalidade agarrados ao blá blá blá, equipes trabalham no vira e mexe do dito cujo e o troço não cessa. A profusão de cacarejos chega às raias da loucura, absorvendo de tal modo a mente que palavras inflamadas começaram a pipocar da “comunicativa” rotina desta gente maluca: filho da puta, vaca, cretino, tomar no cú, veado, o caralho que te carregue, é a puta que pariu, entre outras não menos criativas.

bla– Ahahahahahahahahaha!!! Eu me divirto! Que seres tragicômicos. Ninguém merece! Está muito bem que falta de vergonha na cara e de caráter de alguns merece o despejo de tais filhotes, há uma penca de vadias e calhordas espalhados pelos sete continentes. O excesso de bombardeio, entretanto, expõe as relações a fungos e bactérias altamente prejudiciais. Estraga!

Não há cristo que explique o modus vivendi de humanos. Depois não entendem o porquê de viverem pendurando o bico. Ninguém arrasta o beiço hora sim hora não se traz consigo maior leveza, ou seja, se não leva tudo à ponta de faca. Do que adianta se levar tão a sério? Quem é exemplo de vida para os outros? – O ser que eu sou é modelo para mim, não para o mundo. Eu não tenho que tomar a minha postura frente à realidade como base para o comportamento alheio. Com que direito? A macaca repete balançando a cabeça. – Ts ts ts, quanta desordem! Isso é que eu chamo de cegueira. Cada um dá o que tem. Alimentar a ilusão de que os outros agirão de acordo com determinada expectativa é fechar os olhos para a diversidade, é não se permitir conviver, é perder a oportunidade de trocar, de amadurecer, de ir além.

Os temperos que faltam ao ser humano são o respeito, a confiança e o limite. As pessoas não têm limite algum. Invadem o bla3espaço umas das outras com assustadora facilidade. Expandem-se demais em lugar que não lhes pertence. Ao se deixarem levar pelo ímpeto do poder e da garantia (estes os quais precisariam abrir mão ao se relacionar), acreditam que se apossam do outro, que possuem o controle sobre a sua vida, os seus pensamentos, as suas ações. Em meio a esta crença irracional, elas se perdem e se frustram.

Enquanto não conquistarem os pré-requisitos citados no início do parágrafo anterior – e olha que já estão sobre a face da Terra há milhares de anos –, não alcançarão a liberdade. Até lá, haja saúde para agüentar o degenerativo blá blá blá.

De repente, um estribilho. Zuuuuuuuuuuuuum, crec, crec. Alguém se aproximava da Grande Árvore. A macaca virou bruscamente o corpanzil de encontro ao tronco e subiu em disparada para o galho mais alto. – Que barulho foi este? indagou a símea. O sol caía quente sobre o horizonte, incendiando a savana com brilhantes tons alaranjados. Por um instante, ela se viu confusa. Não sabia se apreciava o entardecer ou se reservava atenção ao movimento que vinha de baixo. O romper dos passos sobre o capim seco quebrava a mata fina, crec, crec, crec. A platéia macacal ocupou pontos estratégicos da Grande Árvore com o objetivo de vasculhar o solo com os olhos. As vozes que acompanhavam os estalos foram tomando, a cada minuto, mais vigor, até que se mostraram claras, estridentes, irritantes: “Blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá.”

macaco.lindo– Ai, meus sais! sentenciou a macaca. Lá vem uma dupla de humanos de regresso para o alojamento. Ser1: “Foi você quem começou. Eu estava quieto no meu canto.” Ser2: “Eu? Tá maluco? Alucinou? Porra, eu repito tantas vezes a mesma coisa e pareço estar sempre falando sozinha. Você não tem jeito mesmo.” …

A macacada logo dispersou. Em questão de segundos, a bicharada estava aglutinada próxima à macaca. Pareciam absortos em rastro de luz, calor e espetacular show da natureza. Sentada na ponta de um belo galho, ela exclamou. – Ai ai, que maravilha! Eu é que sou feliz, e esperta, claro!

capítulo 2

 

As delícias da juventude estão atreladas a um desenfreado entusiasmo cuja pré-disposição é pontilhada de dobraduras monkey-typing62que abrem e fecham o tempo todo. A boa característica da pouca idade tem a ver com a desgarrada frase: sem ter porque nem para que. Vive-se simplesmente da parafernália embevecida de hormônios. – “O que por um lado é muito divertido”, constata a macaca. Não há como fechar os olhos para o gargalhar solto do bicho juvenil. Memórias de passos dados aos solavancos, do saracotear, do correr mundo e do sobressaltar o peito fresco – ainda em fase de maturação –, são motivo de orgulho para uma fêmea recém chegada à carreira dos 30. A macaca sabe disso, e sem pestanejar infla os poros da pele satisfeita de vida. Não consegue imaginar nada melhor do que a certeza de que é forte. Apesar de tropeços e fracassos, trata-se de um símio de carne e osso, tentou, enfrentou, foi até onde pôde em tudo.

– “O animal que descobre o rio e não se joga na água, jamais saberá o gosto que tem um banho do tipo, não conhecerá o som que o corpo provoca em ambiente líquido, não experimentará os sabores da correnteza, não desfrutará da plena sintonia com o natural estado de ser. Fato é que tudo vale a pena sim, mas claro, é sábio e arguto utilizar de bom senso seeeeeeeeeeeeeempre”, cochicha sem a intenção de interpretar ou deliberar sobre o significado das coisas. – “Não foi para achar demais que vim ao mundo”. Achismos e significâncias são conteúdos amplamente estudados pelo homem, o qual adora dizer que sabe. Vira e mexe, o tal bípede penetra a savana com a retorcida cara de pau do ser racional que é. Espalha-se como mamífero reinante, domina o espaço e comanda o princípio ativo do universo com a habilidade de um regente tenaz.

– “Ô gentinha complicada. Percorre todos os caminhos do mundo para chegar à primária conclusão de que somente em se plantando é que tudo dá. GRANDE novidade!”, repete a macaca para si enquanto deixa-se tomar pela reflexão. Encostada num dos galhos altos da grande árvore, ela contempla a retidão dos horizontes enquanto um sorriso maroto colore com descrição seu olhar concentrado. Braços cruzados desenham sua posição descomprometida com as próximas horas. Termina por apoiar o queixo sobre os dedos da mão esquerda, suspira, relaxa, franze a testa, larga a musculatura e deixa o pensamento correr. Exercitou bastante a cuca para poder fazê-lo com a integridade compatível a sua condição de irmã mais velha. – “Disse o homem que provém do macaco. Estudos científicos comprovam o parentesco. Estou aqui há bem mais tempo e ainda não consegui entender a lógica de seu raciocínio avantajado”, pondera.

– Será que alguém consegue me explicar por que raios os seres humanos não se apegam aos detalhes? Logo eles que se acham os monkey-in-doubt2tais. Regras básicas de sobrevivência passam despercebidas por eles. Eu hein! Nem todos têm a insípida aparência dos insetos, é bem verdade. Pelo legado de alguns, me ocorre que humanos, quando dispostos, podem desfrutar da imponência leonina num piscar de olhos. A fama de garboso mamífero alfa não vem do nada. Leões são dignos de reconhecimento. Cumprem a risca o seu papel e o fazem com a hombridade que lhes cabe. Por menor que seja o elo, ser associado ao bichano é um privilégio para poucos. Pois então?

A macaca se esforça, mas não compreende. Está mais do que farta de ouvir dos experientes macacos da barba branca que o desatino vem do plantar de qualquer jeito, mesmo quando se sabe que a terra precisa de espaço para florescer. Bons frutos nascem da perseverança? Sim, mas acima de tudo brotam do cuidado, do zelo, da paciência em bem dosar o tanto que se tem. A mania de desbravar o chão sem a devida parcimônia causa no solo danos dificilmente reparáveis.

­ – Coisa tão óbvia! Banal, eu diria. Deixa estar. Eles que são “gente” que se entendam com suas impregnadas pseudo-definições do gastar dos dias. – “Por isso não há razão para condenar a juventude. Não é mesmo? Quebrando-se a cara é que se aprende ou não. Cada um com o seu cada qual”. A macaca estava em um dia daqueles. Por mais que o sol brilhasse, estava dedicada a revisão dos acontecimentos. Foram anos de experiência a vagar por terrenos distantes. Formou-se com a coerência que se deve ter em momentos de escolha. Tomou a acertada decisão de seguir o coração. Saboreava com voracidade cada pedacinho do conhecimento que adquirira. Instruir-se é tarefa para uma vida, sem dúvida. Contar com a competência do que somos, contudo, é a materialização da pedra fundamental do porque saltamos do útero feito bolotas. A macaca pensa que as conquistas são mais do que impulsos tomados de vigor. Após três décadas e dois anos desde o seu nascimento, ela está careca de saber que vitórias vão além do ato consciente da labuta. Vencer é romper as barreiras do dia com a clareza de que o fazer pede o acompanhamento apaixonado de temperos potencialmente estimulantes: determinação, respeito, confiança, paixão, entrega, transparência, disciplina, persistência, prazer, objetividade, prática e doses compatíveis de vontade entre o estabelecimento de metas e a realização do projeto, seja ele qual for.

­ – Ahahahahah!!! Não sei o que me deu hoje. Acho que estou literalmente com a macaca. A risada a trouxe de volta à realidade. O sol já havia se posto, a noite caía suntuosa, o céu transbordava de estrelas e a macaca decidiu sair do transe. –“Vou me jogar no rio, tomar um banho de descarrego e me debruçar sobre o frescor dos cheiros primaveris. Depois de uma tarde abraçada a um contexto de conjecturas, o melhor que tenho a fazer é libertar o intelecto. Amanhã tenho o dia inteiro para fazer e acontecer mais um bocado”, afirmou restabelecendo-se sem pressa.

– Mas que situação a minha. Tomei um tombo danado e agora passo horas refazendo meu trajeto, pontuando cada monkey11um de meus experimentos, instante a instante, sem parar. Será que fui contagiada por um vírus do tipo que nos leva do A ao Z de nossa história? Destes que nos amortecem sem pedir licença? Invadem e páh, nos jogam aos traços mais remotos da memória? Bom, não estou maluca. Apenas me restauro na velocidade constante de quem precisa, vez em quando, da linha reta para não deixar passar pontos e vírgulas. Ahh, sei lá. Já disse para mim mesma que não quero mais pensar por hora, e sigo batendo os neurônios. Eita! Credo! Chega! Ufff! O jeito é me lançar daqui de cima. Vou direto e sem intervalo para evitar que novas idéias interfiram em meu plano. Levantou, agarrou-se no galho e sem titubear consumiu seu comprimento em direção ao passo anterior à queda: “Iaaaaaaaaaaaaaaaaaaa”, gritou a macaca. O barulho estridente do som desafinado espantou a passarada que resolvera pernoitar nos arredores da grande árvore. Centenas de penas misturavam-se aos quatro ventos enquanto o inevitável frio na barriga levantava todos os pelos da silhueta arredondada da bela símia, gata pra caramba...yeah, baby! Cair de certa altura expõe qualquer animal desprovido de asas a sensações bastante previsíveis, não é mesmo? Tibuuuuuuuumm!

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