Instante

março 20, 2011

Ontem à noite, tive o privilégio de assistir a um dos luares mais bonitos de minha vida. Estava quieta em meio ao silêncio da brisa, era eu intensamente, talvez um pouco mais do que isso, mas nada além de mim mesma. Lembrei-me de poemas que caberiam ao sabor do que sentia. Os que seguem abaixo acompanham o meu regalo a todos que comigo estavam, mesmo que distantes. Fiz também um pequeno registro do céu para ilustrar a cantoria.

Never give all the heart

William Butler Yeats

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that’s lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
Oh never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

Poética

Vinícius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando

Esperança

Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Amar

Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Para ser grande

Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

_________

Passou-me pelas vistas este trecho do inesquecível Tomates Verdes Fritos. A simplicidade é abrigo do essencial. Tenho dito.

Um olhar sobre a China

março 17, 2011

O olhar audaz, fiel e objetivo da jornalista Xinran sobre a era comunista de Mao Tsé-Tung em seu livro As boas mulheres da China, publicado no Brasil em edição de bolso pela Companhia das Letras, traz ao Ocidente uma realidade desconhecida. Refiro-me ao relato mais emocionante que já li. Impunidade, violência, ignorância e repressão de um regime totalitário que mutilou a vida de mulheres de todas as idades e condições sociais são temáticas constantes da obra.

A jornalista, que deixou a China em 1997 para conseguir publicar o seu trabalho, passou cerca de oito anos coletando depoimentos de mulheres chinesas que viveram os horrores da Revolução Cultural, período que – como ela afirmou em entrevistas – levou à China a um regresso sem freios ao medievalismo. De acordo com a autora, o atraso foi tão proeminente que seu país retrocedeu mil em 10 anos.

Xinran tem o cuidado de manter a dramaticidade das histórias a fim de disponibilizar ao leitor uma compreensão direta e profunda da condição feminina na China posmoderna. Durante os anos em que apresentou o programa Palavras na brisa noturna, a jornalista conseguiu abrir um canal de discussão sobre temas proibidos como violência sexual, opressão e homossexualidade. A quebra do silêncio fez do espaço uma fonte inesgotável de memórias de humilhação, dor e abandono da mulher.

Xinran explorou a vida íntima de chinesas de todas as partes, vasculhou as regiões mais inóspitas do país atrás de informação. O mergulho – a contar a sua própria experiência com o regime –, quase a levou a um colapso emocional. A jornalista e seu irmão foram separados dos pais pela Guarda Vermelha quando crianças. Criados em um quartel general sob o jugo de carrascos, os dois só reencontraram a família anos mais tarde.

Estupros, casamentos forçados, espancamentos, miséria e preconceito compõem o cenário de um tempo em que a égide do poder usurpou o povo chinês e dilacerou a alma de uma geração. “Nos relatos do livro, a autora possibilita a vozes antes silenciadas revelar provações, medos e uma capacidade de resistência que as permitiu se reerguer e sonhar em meio ao sofrimento extremo.”

Eu assisti a Xinran em uma das mesas literárias (China no Divã) da VII edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Naquele mesmo dia, comprei o livro. Há meses, comentei que a sua leitura valeria um texto no blog. Segue a dica para os meus leitores.

Sugestões

Outros títulos da autora são Enterro celestial, O que os chineses não comem e Testemunhas da China – vozes de uma geração silenciosa.

Íntegra da entrevista concedida por Xinran à Folha Online

Leia sinopse e trecho do livro em

Capítulo de hoje: A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Nada mais ro-ro-ro do que ler os despachos dos consulados norte-americanos no site de Julian Assange. A última preciosidade trazida dos confins do baú diplomático revela o perfil de brasileiros by The King of the World. Em alusão ao faroeste The Good, the bad and the ugly, estrelado por Clint Eastwood na década de sessenta, “the yankees guys” classificam candidatos brasileiros a visto temporário de trabalho no país do tio Sam como bons, maus e feios. O ex-cônsul geral dos Estados Unidos em São Paulo – Christopher J. McMullen – descreve as levas de tupiniquins, para usar um termo ameno (vai saber o que cospem “our brothers” em off), de forma curta e direta. Vamos ao indigesto palavrório.

Segundo McMullen:

BONS: São os jovens que vão ao país para trabalhar em resorts, estações de esqui e cassinos por vários meses para ganhar algum dinheiro e melhorar o seu inglês. O grupo é formado principalmente por integrantes de famílias de classe média.

MAUS: São os parentes e amigos de brasileiros que vivem nos Estados Unidos e vão ao país para trabalhar em subempregos como jardineiro, faxineiro e peixeiro. De acordo com esclarecimentos do ex-cônsul, tais imigrantes representam um grande risco, já que muitos dos que conseguiram trabalhos anteriormente não retornaram.

FEIOS: São aqueles que pagam US$ 3 mil ou mais para corretores para conseguir um emprego e uma chance de ficar nos EUA. O grupo é formado, em maioria, por pessoas pobres, desesperadas, que pedem dinheiro emprestado para pagar taxas escandalosamente altas aos corretores.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro! Dá para acreditar? Humanos de último calibre assinando papelotes encharcados de soberba. Quá! A macaca sabe, todavia, que, em se tratando do espaço mais exótico do planeta, tudo é possível. Verdade seja dita: Mr. Assange é um homem com H, merecedor de respeito. Recebe as informações mais pérfidas das profundezas do Estado e as coloca, na íntegra, à disposição do leitor. – Um herói da pós-modernidade, constata a bichana.

O documento publicado no Wikileaks revela ainda que de janeiro a novembro de 2005, o consulado norte-americano com sede na capital paulista entrevistou 1,5 mil candidatos ao visto de trabalho temporário e rejeitou 49% deles. O aumento de quase 200% em relação aos vistos negados no mesmo período de 2004 ressalta a característica xenofóbica do governo ianque. – De dar dó!, afirma a símia chacoalhando a cabeça…ts, ts, ts. A macaca já viu de um tudo em suas andanças pela savana, mas nada que se compare ao quadrilátero. – Na boa! Por onde circulam seres humanos, desabrocham as mais assombrosas aberrações.

Para ler o documento no Wikileaks, clique aqui.

Capítulo de hoje: o mundo está cada vez mais ro-ro-ro

A macaca encosta a cabeça no tronco de seu aposento e resmunga: – Parece piada. Mas não é. Os jornais diários estampam manchetes do mundo cão sem dono. – Onde já se viu um ex-governante receber benefícios vitalícios mesmo tendo exercido o cargo por irrisórios 10 dias?, indaga a bichana perplexa. Chega a beirar o absurdo de tão surreal. O Estado pesa nos ombros e onera os bolsos do contribuinte brasileiro em níveis descarados. A torneira aberta nas fuças da população não cessa a jorrar fortunas usadas para cobrir gastos de políticos que fizeram do serviço público uma profissão de carreira. Quantos ex-governadores, ex-presidentes, ex-ministros e ex (de tudo um pouco) existem no País? Pois as pensões destes cidadãos variam, para o resto de suas vidas, de R$ 15 mil a R$ 24 mil. Não suficiente, as mesmas são estendidas aos parentes do titular após registro de seu óbito. – Acredite se quiser, provoca a macaca.

Em Santa Catarina, a filha do ex-governador Hercílio Luz, morto em 1924, recebe do Governo uma quantia mensal de milhares de reais desde o falecimento do pai. No Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon tem, ou tinha, já que admite rever o pedido, a intenção de acumular ao seu salário atual – de R$ 26,7 mil –, R$ 24 mil correspondentes ao valor de sua aposentadoria como ex-governador. – Por que ele ficaria fora da boquinha?, comenta a símia abestalhada com páginas e mais páginas de notícias sobre o tema. Todos sabem que políticos custam aos cofres da Viúva, para utilizar um termo de Elio Gaspari, mais de R$ 100 mil por mês. A lista é extensa e inclui fartos adicionais, além do direito à moradia, a automóvel, a motorista, a combustível, a passagens aéreas, à hospedagem, à alimentação e a praticamente tudo. – Para aonde vai o mundo?, pensou ao virar a folha e pah, mais um título escandaloso: Obama cobra China por direitos humanos.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro. Ah! Ah! Ah! Eu me divirto com humanos. A cara de pau de uns não inibe a falta de vergonha de outros, reitera a símia se torcendo em gargalhadas. Responda se puder: quem é Barack Obama para pressionar Hu Jintao no que diz respeito a direitos humanos? O presidente de um país que, para o bem da humanidade, aniquila povos mundo afora tem propriedade para exigir o que do presidente da China? Claro, os heróis do universo (tradução = norte-americanos) sempre deflagram guerras pela paz. Crã, crã. – Fala sério Mr. King of the World. Menas companheiro, para usar uma expressão de Lula.

– Sim, os jornais estão de matar de rir. Ôpa, péra aí: ‘Baby Doc’ sugere volta à política no Haiti. Porta-voz de ex-ditador propõe anulação de 1º turno para que ele possa concorrer mesmo após o indiciamento. What? Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! E esta criatura das trevas tem simpatizantes que empunham a sua foto estampada em medalhinhas de tamanho razoável. – Ai, Senhor, depois dessa, vou encerrar por hoje, senão não durmo. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! A macaca, sem conter o riso, fecha o periódico e sai a exclamar:

- O mundo está mesmo cada vez mais ro-ro-ro.

A macaca em…

janeiro 9, 2011

O quadrilátero da esquisitice

Capítulo de hoje: A praia do e$panto

 

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha…

Após temporada de pé na tábua pela capital gaúcha, a macaca retornou a Florianópolis para começar 2011 a todo vapor. Energia recarregada e Voilá, a bichana está pronta para a próxima jornada. O seu primeiro final de semana do ano foi cheio de sol e aventura por matas de restinga com direito a parada na selva da mundialmente aclamada praia do e$panto. Balneário de abastados e famosos, o e$panto, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina, causa arrepios em qualquer criatura do mundo real. Morada de tribos endinheiradas (nem todas), a praia conta, em época de alta temporada, com um fenômeno chamado A Invasão Bárbara. Clãs de ‘homens de ouro’ superlotam o lugar, transformando-o em um dos mais autênticos protótipos do capitalismo selvagem pós-moderno.

A atmosfera exótica do lugar chamou muito a atenção da macaca, pois havia no semblante do grupo seleto um gosto blasé pela queima enfurecida de muito dinheiro (seu $?). – Isso remonta aos cenários de Kubrick em seu genial De Olhos Bem Fechados, pensou a símia. Os endinheirados exibiam-se com ferocidade em áreas exclusivas à beira-mar. Ao som de música eletrônica, rapazes rodeados por mulheres de corpos impecáveis em seus beach wears distribuíam garrafas de Veuve Clicquot a torto e a direito não com o objetivo de degustar o champanhe francês de centenas de reais, mas de ostentar em demonstrações bizarras de poder. Grande parte dos jovens sacudia as garrafas com vontade, fazendo jorrar a bebida milionária em cascatas perdulárias de pura falta do que fazer. O rito de mais uma tarde de sol entre o povo de lá e eu cá alcança gastos que podem chegar a R$ 20 mil por dia.

– Excêntricos elevados à potência mais crônica da insanidade ou ricaços despreocupados com a quantia exorbitante de dinheiro jogado fora?, questionou a bichana passada com a cena cinematográfica.

A verdade é que o grupo de seres humanos que se divertiam na praia do e$panto – templo de ‘semideuses’ abençoados pelo valor da moeda –, não tem noção do que se passa do lado de fora da bolha de plástico construída para que exibam as suas penas de macho e fêmea alfa. Todos que pelas passarelas dos clubes vagueavam a esbanjar fortuna estavam cagando para o resto do planeta. Dane-se, sentenciavam com o olhar. Eu tenho, eu existo, eu posso. Ponto. O resto, meus caros leitores, somos nós, os farofeiros.

– Opa, exclamou a macaca. Pelo que descreve a repórter da matéria a seguir, eu pertenço ao limbo da farinha de mandioca. Sim, é isso. Quem diria, eu, uma símia bem-nascida, graduada, habitante da Grande Árvore, vegetal situado em zona privilegiada da mata, reduzida à pífia ralé da fauna e flora universal?

A macaca arregalou os olhos, ergueu a sobrancelha direita, largou os beiços e, sem armas para resistir, caiu na gargalhada. – Quá! Quá! Quá!, balbuciou estupefata com a força esmagadora do capital. O dinheiro banaliza a condição humana. Os ‘homens de ouro’ carregam a certeza de que tudo podem. Eles realmente podem. Na praia do e$panto, por exemplo, têm absoluta liberdade para defenestrar dinheiro pelos cotovelos. Em ambientes fechados, pessoas do degrau debaixo – ou seja, os apenas ricos – são observadas com olhar de esgueira.

– Os apenas ricos?, indagou a símia. Como assim? Para os veranistas do e$panto, há classificação de endinheirados a começar pelos ricos, que são a farofa ignóbil. A pensar que 10% das pessoas englobam esta fatia da sociedade, senão menos, o que resta para àqueles que não têm os bolsos fartos? Como seriam classificados os integrantes da classe média alta? Hein!

A macaca deixou o balneário pelo qual circulam ferraris e helicópteros com uma certeza ácida, mas lúcida. Todos sabem exatamente como se locomover pelo tabuleiro da vida. Os que conquistam dinheiro têm poder. São os donos do mundo. Os que não alcançam o degrau da fortuna não têm escolha. São os subordinados aos ‘homens de ouro’. Assim caminha a humanidade. O que sobra dessa sopa de caroços difícil de engolir é um rastro largo de vazio e estereotipia. Criatividade zero. O mundo sempre girou nesta órbita; e que se dane o resto. Ah sim, o resto somos nós.

Quem quer dinheiro?

 

______________

* Matéria publicada originalmente no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, no dia 9 de janeiro de 2011.

‘Super-rico’ torce nariz para ‘farofa’ dos ‘apenas ricos’

Em Florianópolis, na Jurerê Internacional, há quem não tire o pé de áreas ‘exclusivas’


Luiza Bandeira/ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS

Eliane Luiz, 36, é juíza, tem apartamento de veraneio comprado a R$ 800 mil na praia mais badalada de Florianópolis e bebe champanhe Veuve Clicquot à beira-mar, a R$ 280 a garrafa. Mas, na opinião de alguns frequentadores de Jurerê Internacional, ela é “farofa”. Os “super-ricos” do balneário passam toda a temporada sem pôr os pés na areia e pagam até R$ 1 mil só para entrar em um bar livre dos que consideram “farofeiros”.

Eles são necessariamente mais ricos que o pessoal da areia, mas desprezam a democracia à beira-mar, onde entra quem quer. “Super-rico” aprecia apenas o público “bonito e selecionado” de local pago. “No lugar aberto tem cara tatuado, bombado, de corrente. Estou pagando para ficar em lugar exclusivo”, diz o paulista Rodrigo de Castro, 31, enquanto bebe champanhe na piscina do P12, espécie de clube na praia.

No local, as atrações são a piscina com bar dentro, camas confortáveis e DJs. A entrada varia de R$ 45 para mulheres a até R$ 300 para homens, preço cobrado nos dias mais cobiçados. “Na praia você fica cheio de areia. É muita farofa, muito Maresias”, afirma Davi Almeida, 30, que diz gastar cerca de R$ 500 ao dia no clube.

No Café de la Musique, os preços são mais salgados: os “super-ricos” chegam a gastar até RS 5 mil diariamente. “Aqui o nível é melhor. Mas está ficando muito caro agora, nem a Europa é assim”, diz o advogado cuiabano Diogo Alves, 27, que foi à praia em só dois dos 20 dias em que esteve na cidade. Com amigos, ele pagou, em um dia, R$ 20 mil de consumação para ficar na piscina do Cafe de la Musique.

A consumação é gasta em muito champanhe, vodca, energético, cerveja e ofertas de bebidas para mulheres. No Cafe, a entrada para homens custa até R$ 1 mil. A das mulheres é de graça. “Os donos sabem que os homens querem estar cercados de mulheres bonitas”, diz Diogo, cercado por oito garotas dançando ao redor de sua mesa, bebendo de graça.

PELA VISTA

Mesmo os lugares que não cobram entrada dão um jeito de selecionar o seu público. No restaurante Taikô, a entrada é livre e as mesas da parte de trás são liberadas. Mas, para ficar nas da frente, com vista para a praia, a consumação é de R$ 3 mil. “Não é todo mundo que entra aqui. Viemos porque seleciona a frequência. É outro perfil”, diz o empresário paulista Ronaldo Zardur, 44.

Quem fica na praia critica ‘ostentação’

“É um cuscuz marroquino, não uma farofa”, diz o advogado Gustavo Nadalin, 32, negando o título de “farofeiro” dado pelos “super-ricos” e bebendo champanhe Chandon em taças de acrílico em Jurerê Internacional. Morador de Curitiba, ele e a mulher passam férias no apartamento da família no balneário e dizem gostar mais de aproveitar a praia do que ir aos bares e clubes.

A farofa chique, para ele, contrasta com o exibicionismo dos “super-ricos”. “Tem que ter bombinha na garrafa de champanhe [alguns lugares colocam velas que soltam faíscas nas garrafas]. Simboliza o dinheiro deles sendo queimado”, diz. “Nós somos de uma família de classe média alta, mas somos ‘low profile’ Tem gente que está tão bem como eles, mas não está se exibindo”, afirma a mulher dele, a empresária Ângela Nadalin, 38. Para o casal Edson Luiz, 34, advogado, e Eliane Luiz, 36, juíza, há muito exibicionismo entre os “super-ricos.”

“Rola competição de quem pede mais champanhe, eles abrem e jogam tudo fora, para o alto. Onde está a farofa?”, pergunta Edson, que bebia champanhe Veuve Clicquot. “Gostamos de apreciar a bebida”, diz Eliane. Champanhe é a bebida mais característica da Jurerê Internacional, mas muitas pessoas levam também água, comida, refrigerante e cerveja em seus isopores. Dizem que o fazem por costume e para evitar os preços da praia.

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7 de dezembro de 2010

Conforme afirmei que o faria (desta vez sem titubeios) no comentário que escrevi para Ingra, fui atrás do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Descobri esta psicanalista junguiana em 2006, época em que li uma edição deslumbrante de Contos dos Irmãos Grimm, a qual Clarissa organizou e escreveu o prefácio.

Lembro-me de ter ficado fascinada com o argumento, mas o tempo passou e acabei deixando a experiência desta leitura para trás. O raio caiu duas vezes no mesmo lugar, já que Ingra trouxe, sem querer, o passado, este que ficou em aberto, à tona. Sinto-me, hoje, tomada mais uma vez pela força impactante da história. Trata-se de um caso raro, ser instigada duas vezes pela mesma possibilidade. Foi neste momento que me vi entre dois caminhos. Ou eu faria acontecer e me daria este presente ou eu abriria mão em definitivo do livro, da autora e da experiência.

Não pensei duas vezes. Corri para a livraria, comprei o Mulheres que correm com os lobos e comecei a me dedicar as 614 páginas de uma viagem fantástica, transformadora e recomendável para toda a mulher.

“Os lobos sempre rondaram o universo da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, em sonhos ou mesmo na vida real. Ao estudar esses animais, ela observou várias semelhanças entre a loba e a mulher, principalmente no que se refere à dedicação aos filhos, ao companheiro e ao grupo. Ao longo do desenvolvimento da civilização, porém, esses instintos mais naturais – a que ela dá o nome de Mulher Selvagem – foram sendo domesticados, sufocando todo o potencial criativo da alma feminina.

Clarissa Pinkola Estés, analista junguiana e cantadora, isto é, contadora de histórias, mostra neste livro como, a partir de mitos, contos de fada, lendas do folclore e outras histórias escolhidas em 20 anos de pesquisa, a mulher pode se ligar novamente aos atributos saudáveis e instintivos do arquétipo da mulher selvagem.

É assim que em La Loba se ensina a função transformadora da psique, Barba-Azul mostra como sarar feridas que parecem não ter cura, a Mulher-Esqueleto revela todo o poder místico de uma relação e como sentimentos aparentemente mortos podem ser revigorados e a Menina dos Fósforos alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios.

Enriquecedor, ela revela uma psicologia da mulher em seu estado mais puro, o de profunda busca do conhecimento de sua alma.”

após ter sido estimulada pela memória quando li suas palavras há poucas semanas,

Feira do Livro

outubro 24, 2010

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24 de outubro de 2010

Estarei em Porto Alegre no início de novembro para assistir ao show do McCartney. Que alegria saber que as datas coincidiram e que poderei também conferir mais uma edição da Feira do Livro.

Brique da Redenção

outubro 5, 2010

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29 de setembro de 2010

O Brique da Redenção é um dos eventos mais tradicionais da capital gaúcha. Sempre que vou a Porto Alegre adoro caminhar por ali, conhecer “novidades antigas” dispostas em tapetes e tecidos coloridos por dezenas de expositores. São peças decorativas (muitas do início do século XX), artesanatos, bijuterias, plantas medicinais e ornamentais, livros e uma infinidade de opções para os visitantes. Há até mesmo vitrolas a tocar clássicos como smoke gets in your eyes. Um deleite! O Brique ocorre todo o domingo e o site da feira é www.briquedaredencao.com.br. Vale a pena conferir.

Brechó ao ar livre

Etiqueta Negra

outubro 5, 2010

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3 de outubro de 2010

Excelente fala de Julio Villanueva Chang durante a oficina que ministrou na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2010: “Acreditamos que sabemos ler e não sabemos. É preciso criar um novo modo de ler como forma de perseguir seu próprio texto.” Para maiores informações sobre o jornalista e a sua revista Etiqueta Negra, acesse:

Desvarios literários e jornalísticos sobre o tema em blog da flip.

Histórias em Quadrinhos habitam o meu imaginário desde a tenra infância. Tio Patinhas, Zé Carioca, Pato Donald, O Menino Maluquinho e Mônica e sua turma são personagens que me acompanharam por longos anos em aventuras divertidas, engraçadas e desprendidas de qualquer elo com a fronteira factual. O tempo passou, outros estímulos irromperam meu andar e o viço colorido da adolescência me levou por outros caminhos. Sem perceber, virei a página, deixando para trás o universo animado pelas figuras de bandas desenhadas. Pensei que não fosse mais cruzar com elas. Tomei-me de preconceitos. Lembro-me de reagir com estranheza a comentários de garotos sobre super-heróis. Pensava: “Mas que tolos. Passaram dos 18 e ainda se empolgam com este tipo de leitura? Homens demoram a crescer.” Sentia-me a anos-luz da maioria dos rapazes do colégio. Pretensão a minha. Hoje, depois de idas e vindas de boas curvas na estrada, vejo o quão inadequado era o meu ponto de vista. Já ouvi incontáveis vezes que a maturidade é uma conquista para a vida. Clichê ou não, a frase é contundente, pois retrata a mais pura e bem servida verdade.

Qual não foi a minha surpresa ao me deparar, há exatos três anos, com autores e personagens de Histórias em Quadrinhos? Em meio aos reboliços da época, eis que um ex-colega de trabalho – o meu primeiro mentor e bom amigo – apresentou-me a alguns dos grandes nomes desta literatura popular, conforme afirmou Will Eisner (meu quadrinista predileto) em prólogos e entrevistas. Notei-me envolvida por um estado curioso, uma sensação de euforia típica dos momentos de descoberta. Quanto mais eu o ouvia falar de Millôr Fernandes; Jaguar; Sergio Aragonés e Mark Evanier; e do esplendoroso Will Eisner; mais eu desejava lê-los, devorá-los, conhecê-los. Passava horas pesquisando na internet, buscando informações, cutucando aqui e ali. Nós dois perambulávamos pelas ruelas estreitas do Centro de Florianópolis atrás de sebos. Ele comprava muita coisa do que via pela frente. Tudo para mim. Eu fui engordando a minha estante com alguns dos super títulos das HQs. Lia um atrás do outro com os olhos vidrados na sutileza e maestria dos traços, nuances e contornos dos desenhos, atendo-me ao sabor e à genialidade das histórias, uma mais arrebatadora que a outra. Um delírio.

Desde então, nunca mais cogitei a possibilidade de deixar de lado as Histórias em Quadrinhos. Pelo contrário. Apaixonei-me de tal maneira que o hábito da leitura deste gênero anda próximo, se não colado ao meu trilhar junto a uma das mais formidáveis criações e aptidões da humanidade: a literatura. Quadrinhos já integram a minha lista de compras. Incluo-os em meu hall de leitura do ano. Nem pensar em fazer diferente. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2009, fiz um banquete de causar inveja aos xeiques. Na Livraria da Vila, as promoções refletiam um ponto alto do evento. Todos se empanturravam de livros, dos clássicos aos contemporâneos, dos lançamentos aos títulos vendidos pelos autores participantes. Comprei um exemplar de Nova York – a vida na grande cidade, de Will Eisner, uma obra de 440 páginas, por menos de quarenta reais.

Há pouco tempo, em uma loja da Saraiva, aqui na Ilha, vasculhei o setor de quadrinhos atrás de boas safras. Eu abria revistas, fechava livros, acumulava uma pilha de opções nas mãos até que um casal de jovens muito simpático resolveu me ajudar. “O que você está procurando?”, perguntou o rapaz. “Eu não sei ao certo. Estou em dúvida entre Blues, do Robert Crumb, e Um Contrato com Deus, de Will Eisner; entre Umbigo sem Fundo, de Dash Shaw, e Retalhos, do Craig Thompson”, respondi, dando pausa a uma lista que parecia não ter fim. Eles demonstraram espanto ao constatar que se tratava de uma balzaquiana interessadíssima em HQs. Contei de minha jornada e de como foi mágico o meu reencontro com o universo das HQs. Gostaram tanto de saber sobre o meu estalo que passaram prontamente a me dar dicas. O rapaz, Fred era o seu nome, puxou um livro da estante. “Olha, eu sugiro que você leve este. Os desenhos são escuros, mas contextualizam o ambiente em que se passa a história, de uma beleza e riqueza fantástica. Vale a pena.”, comentou, entregando-me o livro. Ele estava me apresentando a Persépolis, de Marjane Satrapi.

Fiquei sem ação, nunca tinha ouvido falar. “Persépolis?”, pensei. O instante foi gerado pelo acaso ou pelo destino? Reforço a questão, pois assim que Fred e Marina apareceram na minha frente, eu estava devolvendo este mesmo livro à estante sem ter dado a ele o seu devido valor. Eles me pegaram no flagra. “Eu não vi isso.”, exclamou Fred de onde estava. Mas eu o ouvi. Como eu poderia saber? Faz pouco tempo que me enveredo pelos títulos de Comics & Cia. Não acompanhei o boom de Persépolis. Confiei no vasto conhecimento do casal e tomei a minha decisão. Escolhi o livro de Marjane. Despedi-me dos dois, deixando com eles o meu cartão para que, a partir daquele momento, pudéssemos dar início a uma troca de figurinhas sobre o tema.

Voltei para casa satisfeita com a nova aquisição. Na mesma noite, sob a luz do meu abajur, abri o livro e engatei a primeira marcha de uma leitura que duraria cerca de três semanas. Persépolis é uma obra autobiográfica. Marjane, uma iraniana que hoje mora em Paris, conta com uma verve contagiante sobre uma fase de sua história (que vai da infância aos vinte e poucos anos). Escreve sobre como foi criada por uma família de intelectuais aberta e politicamente engajada, que viveu as turbulências de um país devastado pela rigidez cega e castradora de um Governo religioso fundamentalista. Entrei em contato direto com a realidade iraniana da época de transição entre o Xá da Pérsia e o aiatolá Khomeini. Percebi o quão próximo do ocidente está o povo persa, demonizado pela cultura antiterrorista. Emocionei-me com a sua trajetória, que inclui o seu exílio em Viena (dos 14 aos 18 anos), o seu retorno a Teerã e o seu reencontro com a família. Cada passo dado pela personagem expandia minhas ideias, sacudia-me por inteiro. Quando, por fim, cheguei à última página (o volume completo possui 352 pgs), catei na memória o Fred e a Marina e os agradeci pelo presente que me deram.

Fiquei com água na boca, coçando-me para ver o filme com título homônimo. Soube que Marjane adaptou Persépolis para o cinema. Minha vontade de dar seguimento às aventuras por entre as páginas dos quadrinhos me levou a Pequenos Milagres, de Will Eisner, o qual será devorado, mas não já. Adoro intercalar. Estou lendo As boas mulheres da China, da jornalista Xinran. O livro valerá um texto no blog. Aguardem.

Enquanto isso, revelo aos integrantes da tribo (dos amantes de HQs), aos principiantes como eu, que há, entre os títulos de Will Eisner, uma beleza de relíquia. Trata-se de uma das obras mais brilhantes do autor, segundo grande número de leitores de HQs. Chama-se O Edifício. Eu ainda não o li, nem mesmo o comprei. Será uma questão de tempo para mim. Quem puder e quiser me acompanhar, procure por ele nas livrarias e sebos online. Muitos vendem exemplares.

Na Amazon, existe um link que disponibiliza as primeiras páginas dos livros. Não me contive, por que o faria? Folheei, comecei a ler, bem devagarzinho. Pressa estraga. De repente, pou, dei um salto na cadeira, coisa discreta, para não me arrebentar. Wow. Encostei-me, apreciei, suspirei e pensei: “O acaso nada mais é do que o nosso encontro com o destino.” Agradeço a todos aqueles que me deram a oportunidade de crescer como pessoa e como profissional a partir da leitura de HQs. A experiência me transformou. Não concebo a ideia de haver jornalistas soltos por aí, jovens ou experimentados, que desconheçam ou ignorem, propositalmente, o mundo fabuloso, instigante e emblemático das Histórias em Quadrinhos.

Um comentário formidável:

“Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte, são propriedade daqueles que os construíram; em parte, das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles; aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar. Temos liberdade de derrubar o que construímos. Da mesma forma, o direito sobre obras a que outros homens dedicaram a vida para erigir não desaparece com a sua morte.” De John Ruskin.

Com ele e todo o contexto ficcional de Eisner, que escrevia baseado em experiências reais, dado que torna as suas histórias ainda mais primorosas, abrem-se as portas de O Edifício. A narrativa começa em um cruzamento de duas grandes avenidas de Nova York. Nesta esquina, repousa o espaço vazio de um prédio que, no local, permaneceu erguido por oitenta anos. Demoliram-no e levantaram outro em seu lugar, pomposo, moderno. Dias após o término da nova construção, apareceram quatro fantasmas na entrada do edifício. Somente os leitores enxergam as almas ali paradas no meio da multidão. O resto, meus caros leitores, cabe a vocês descobrir.

Seguem alguns bons links de bandeja. Entre eles, o site oficial de Will Eisner e uma entrevista que Marjane Satrapi concedeu ao The New York Times em maio de 2007, quando Persépolis concorreu (e ganhou) a Palma de Ouro em Cannes, na categoria de melhor animação.

Will Eisner Official Web Site

The Bulding (em A Filactera)

Marjane Satrapi at Cannes

Especial Persépolis

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