Macaqueando por aí, eu catei um PUTA musicão para acompanhar o gosto que me deu de registrar aqui um fato. Há lugares emblemáticos, inesquecíveis. Quem já não pisou em canto qualquer e sentiu imenso prazer em simplesmente estar em tal local? floripa1Identidade é algo que adquirimos quando moleques e levamos para o resto da vida como um selo permanente: nada, ninguém ou coisa alguma arranca. Eu, por exemplo, sou mulher brasileira, nascida no Rio de Janeiro, criada em Porto Alegre e apaixonada por Florianópolis. Fazer o que se minha Ilha é gostosa, feita para amar, viver, usufruir? Há percalços em habitar cidades pequenas (em crescimento constante e desordenado, no caso específico de Floripa) em comparação a grandes capitais, não resta dúvida, mas, enfim, não se pode ter tudo.

O que estou a esclarecer tem a ver com àquela incontestável sensação de pertencimento a tal núcleo, grupo, realidade. Quem sou? Da onde venho? Que língua falo? Faço parte de que cultura? É disso que estou falando e é com base neste sabor que Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro – dois grandes nomes da MPB – compuseram, em êxtase, a canção Tô Voltando. A inspiração rio3de ambos brotou da alegria contagiante que tomou conta do País e de centenas de exilados ao ser decretada a anistia no Brasil, em agosto de 1979. Alucinante o presentão que nos deram os rapazes, hein? A música se transformou num dos maiores hinos daquele momento histórico e foi eternizada na voz de Simone.

Eu amo o crescente explosivo de emoção que os compositores – PUTA artistas – transbordaram ao constatar que retornariam a sua terra, ao seu chão, ao seu núcleo. Identidade, reitero, é selo permanente: intocável.

Por certo que pesquisei antes de escolher a versão que publicaria aqui, e lavo as minhas mãos frente ao vídeo selecionado. Sim, o que tenho de melhor para postar no momento traz como pano de fundo uma loira peituda. Ahahahahaha!!! Coisas de cotidiano. Nada contra loiras peitudas. Há inúmeras mundo afora, e muitas delas são lindas, rs1maravilhosas, ok? O mesmo ok dou para os produtores da versão. Na internet se vê de um tudo, do brega ao chique. Não serei eu a ditar regras.

De volta ao que interessa, eu, macaca endiabrada, pertenço à cultura brasileira. Repito com orgulho e infinita alegria: sou daqui. Adoro meu País, amo meu lugar. Ao rodar pelo mapa, finco dedo também no chão abençoado pelo Cristo Redentor, no piso gaudério Rio Grandense e na – adoro dizer que é minha – “Ilha da moça faceira, da velha rendeira tradicional, Ilha da velha figueira onde em tarde fagueira vou ler meu jornal.” Quando passar tempo longe, uma das primeiras providências que tomarei em data próxima ao retorno será ouvir Tô Voltando uma, dez, mil vezes. Ô música pra ter gosto BOM!

Tô Voltando

Simone

Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro

Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando

Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando

Dá uma geral, faz um bom defumador
Enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando

Faz um cabelo bonito pra eu notar
Que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar
Pode se preparar porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som
Estréia uma camisola
Eu tô voltando

Dá folga pra empregada
Manda a criançada pra casa da avó
Que eu tô voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá, lá, lá, lá, porque eu tô voltando!

Eis que surge mais um rabisco de gaveta. Decidi parar de guardar seja o que for, afinal, o propósito da palavra é a exposição, o aparecimento, a multiplicação do que ela expressa. Faz dois anos que as linhas a seguir  (capítulo 2) me acompanham monkey8beliscando minhas partes e insistindo para que eu desse a elas merecida atenção. O trabalho incessante nem sempre é proveitoso, se por ventura, deixamos de lado algo de tão nosso. Refiro-me à relação íntima que existe entre o trabalho jornalístico e o mundo da macaca, o meu mundo, a minha realidade. Um não existe sem o outro, mas faz-se necessário que o jornalismo aceite a sua existência paralela aos textos macacais. Darei o meu jeito. Admito, em tempo, que ao reler tais parágrafos, alterei coisinhas poucas. Passados mais de seiscentos dias, não há como enxergarmos as letras de forma idêntica, concordam?

Sigamos, pois! Adelante!

Pra frente é que se anda.

capítulo 2

 

As delícias da juventude estão atreladas a um desenfreado entusiasmo cuja pré-disposição é pontilhada de dobraduras monkey-typing62que abrem e fecham o tempo todo. A boa característica da pouca idade tem a ver com a desgarrada frase: sem ter porque nem para que. Vive-se simplesmente da parafernália embevecida de hormônios. – “O que por um lado é muito divertido”, constata a macaca. Não há como fechar os olhos para o gargalhar solto do bicho juvenil. Memórias de passos dados aos solavancos, do saracotear, do correr mundo e do sobressaltar o peito fresco – ainda em fase de maturação –, são motivo de orgulho para uma fêmea recém chegada à carreira dos 30. A macaca sabe disso, e sem pestanejar infla os poros da pele satisfeita de vida. Não consegue imaginar nada melhor do que a certeza de que é forte. Apesar de tropeços e fracassos, trata-se de um símio de carne e osso, tentou, enfrentou, foi até onde pôde em tudo.

– “O animal que descobre o rio e não se joga na água, jamais saberá o gosto que tem um banho do tipo, não conhecerá o som que o corpo provoca em ambiente líquido, não experimentará os sabores da correnteza, não desfrutará da plena sintonia com o natural estado de ser. Fato é que tudo vale a pena sim, mas claro, é sábio e arguto utilizar de bom senso seeeeeeeeeeeeeempre”, cochicha sem a intenção de interpretar ou deliberar sobre o significado das coisas. – “Não foi para achar demais que vim ao mundo”. Achismos e significâncias são conteúdos amplamente estudados pelo homem, o qual adora dizer que sabe. Vira e mexe, o tal bípede penetra a savana com a retorcida cara de pau do ser racional que é. Espalha-se como mamífero reinante, domina o espaço e comanda o princípio ativo do universo com a habilidade de um regente tenaz.

– “Ô gentinha complicada. Percorre todos os caminhos do mundo para chegar à primária conclusão de que somente em se plantando é que tudo dá. GRANDE novidade!”, repete a macaca para si enquanto deixa-se tomar pela reflexão. Encostada num dos galhos altos da grande árvore, ela contempla a retidão dos horizontes enquanto um sorriso maroto colore com descrição seu olhar concentrado. Braços cruzados desenham sua posição descomprometida com as próximas horas. Termina por apoiar o queixo sobre os dedos da mão esquerda, suspira, relaxa, franze a testa, larga a musculatura e deixa o pensamento correr. Exercitou bastante a cuca para poder fazê-lo com a integridade compatível a sua condição de irmã mais velha. – “Disse o homem que provém do macaco. Estudos científicos comprovam o parentesco. Estou aqui há bem mais tempo e ainda não consegui entender a lógica de seu raciocínio avantajado”, pondera.

– Será que alguém consegue me explicar por que raios os seres humanos não se apegam aos detalhes? Logo eles que se acham os monkey-in-doubt2tais. Regras básicas de sobrevivência passam despercebidas por eles. Eu hein! Nem todos têm a insípida aparência dos insetos, é bem verdade. Pelo legado de alguns, me ocorre que humanos, quando dispostos, podem desfrutar da imponência leonina num piscar de olhos. A fama de garboso mamífero alfa não vem do nada. Leões são dignos de reconhecimento. Cumprem a risca o seu papel e o fazem com a hombridade que lhes cabe. Por menor que seja o elo, ser associado ao bichano é um privilégio para poucos. Pois então?

A macaca se esforça, mas não compreende. Está mais do que farta de ouvir dos experientes macacos da barba branca que o desatino vem do plantar de qualquer jeito, mesmo quando se sabe que a terra precisa de espaço para florescer. Bons frutos nascem da perseverança? Sim, mas acima de tudo brotam do cuidado, do zelo, da paciência em bem dosar o tanto que se tem. A mania de desbravar o chão sem a devida parcimônia causa no solo danos dificilmente reparáveis.

­ – Coisa tão óbvia! Banal, eu diria. Deixa estar. Eles que são “gente” que se entendam com suas impregnadas pseudo-definições do gastar dos dias. – “Por isso não há razão para condenar a juventude. Não é mesmo? Quebrando-se a cara é que se aprende ou não. Cada um com o seu cada qual”. A macaca estava em um dia daqueles. Por mais que o sol brilhasse, estava dedicada a revisão dos acontecimentos. Foram anos de experiência a vagar por terrenos distantes. Formou-se com a coerência que se deve ter em momentos de escolha. Tomou a acertada decisão de seguir o coração. Saboreava com voracidade cada pedacinho do conhecimento que adquirira. Instruir-se é tarefa para uma vida, sem dúvida. Contar com a competência do que somos, contudo, é a materialização da pedra fundamental do porque saltamos do útero feito bolotas. A macaca pensa que as conquistas são mais do que impulsos tomados de vigor. Após três décadas e dois anos desde o seu nascimento, ela está careca de saber que vitórias vão além do ato consciente da labuta. Vencer é romper as barreiras do dia com a clareza de que o fazer pede o acompanhamento apaixonado de temperos potencialmente estimulantes: determinação, respeito, confiança, paixão, entrega, transparência, disciplina, persistência, prazer, objetividade, prática e doses compatíveis de vontade entre o estabelecimento de metas e a realização do projeto, seja ele qual for.

­ – Ahahahahah!!! Não sei o que me deu hoje. Acho que estou literalmente com a macaca. A risada a trouxe de volta à realidade. O sol já havia se posto, a noite caía suntuosa, o céu transbordava de estrelas e a macaca decidiu sair do transe. –“Vou me jogar no rio, tomar um banho de descarrego e me debruçar sobre o frescor dos cheiros primaveris. Depois de uma tarde abraçada a um contexto de conjecturas, o melhor que tenho a fazer é libertar o intelecto. Amanhã tenho o dia inteiro para fazer e acontecer mais um bocado”, afirmou restabelecendo-se sem pressa.

– Mas que situação a minha. Tomei um tombo danado e agora passo horas refazendo meu trajeto, pontuando cada monkey11um de meus experimentos, instante a instante, sem parar. Será que fui contagiada por um vírus do tipo que nos leva do A ao Z de nossa história? Destes que nos amortecem sem pedir licença? Invadem e páh, nos jogam aos traços mais remotos da memória? Bom, não estou maluca. Apenas me restauro na velocidade constante de quem precisa, vez em quando, da linha reta para não deixar passar pontos e vírgulas. Ahh, sei lá. Já disse para mim mesma que não quero mais pensar por hora, e sigo batendo os neurônios. Eita! Credo! Chega! Ufff! O jeito é me lançar daqui de cima. Vou direto e sem intervalo para evitar que novas idéias interfiram em meu plano. Levantou, agarrou-se no galho e sem titubear consumiu seu comprimento em direção ao passo anterior à queda: “Iaaaaaaaaaaaaaaaaaaa”, gritou a macaca. O barulho estridente do som desafinado espantou a passarada que resolvera pernoitar nos arredores da grande árvore. Centenas de penas misturavam-se aos quatro ventos enquanto o inevitável frio na barriga levantava todos os pelos da silhueta arredondada da bela símia, gata pra caramba...yeah, baby! Cair de certa altura expõe qualquer animal desprovido de asas a sensações bastante previsíveis, não é mesmo? Tibuuuuuuuumm!

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