QUEM SOU EU

Posted dezembro 4, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: PERFIL

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CAROLINA PINHEIRO

Jornalista inveterada. Macaca endiabrada.

Carrega que o filho é teu

Da Ilha de Santa Catarina para o mundo, de dentro para fora, de baixo para cima, de trás para frente, de ponta a ponta, de ser para sermos, de canto para canção, de indivíduo para coletivo, de habitat para o universo, de macaca para savana selva selvagem, DE GALHO EM GALHO em prol da inquietude.

Histórias sobre o circo

Posted dezembro 3, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Matérias Jornalísticas, Publicações

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O circo fascina-me em absoluto. Fui uma criança apaixonada pelo picadeiro, pela atmosfera mágica que penetra sob a lona e hipnotiza a platéia, incendeia o coração, extravasa cor, brilho, expressão, plasticidade, dramaturgia, vida. Lembro-me da vez em que escrevi uma matéria sobre o tema, de toda a movimentação que fiz na busca de fontes, informações e referências históricas. Incrível a experiência. Coincidiu com a passagem do Grande Circo Moscou por Porto Alegre. Estive lá, assisti ao espetáculo, percorri os camarins, trailers, movimentei-me pelos bastidores. O que ouvi e senti naquele lugar foi extraordinário.

Jamais vi coisa igual. Uma lástima constatar que as crianças de hoje mal podem sair de casa, o mundo se tornou um campo de guerra. Raras são as cidades em que há crianças brincando nas ruas, nas praças, nos parques, nos quintais. O homem do século XXI cresce cercado por grades, muros e grilhões. A casa, o lar, virou sinônimo de bunker. Pena, pois não há o que estimule mais a imaginação, peça fundamental do desenvolvimento humano, do que os contornos invisíveis do horizonte. As pessoas não sabem mais o que é o circo. Afora a potência mundial em que se transformou o Cirque du Soleil, grandioso e belo, que outro contato temos com as peripécias do povo mambembe?

No decorrer das horas e entrevistas que fiz com palhaços, trapezistas, bailarinas, contorcionistas, mágicos, etc, descobri uma realidade diferente, de pessoas que vivem em outro universo, distante da concretude racional. Os saltimbancos transportavam, de um lado para o outro, suas histórias fantásticas de legado transmitido de geração para geração. A herança circense passa de pai para filho, e assim sucessivamente. Carregavam no olhar, todavia, a dúvida sobre serem parte de um grupo seleto, talvez composto pelos últimos sobreviventes de uma raça.

Infelizmente, os portões que encerram o mundo espirituoso do circo sofrem a pressão do mercado.  Os novos conceitos batem em suas portas de tal modo que em algum momento hão de romper a barreira. Qual será a tendência a partir daí? O circo e o povo que o integra desaparecerão? Estão fadados ao esquecimento? Para dar ênfase às respostas, farei o seguinte, acompanhem-me:

- Após cinco anos desde a sua publicação – eu ainda era uma estudante, estava no penúltimo semestre da faculdade quando escrevi o texto –, decidi rever o meu trabalho. Abri o envelope antigo, reli página por página, e pensei, quer saber, trarei meu texto à vida novamente. Segue abaixo, para os leitores de qualquer época, um trecho da matéria. Fiz questão de não alterar uma vírgula sequer. Deixei-o em sua forma original.

CIRCO: UM DOS MAIORES ESPETÁCULOS DA TERRA

Apesar das dificuldades de encontrar espaço dentro da sociedade contemporânea, o circo ainda se mantém e segue estrada sem fronteiras

“Respeitável público, com vocês o maior espetáculo da terra”, anuncia o mestre de cerimônia do Circo Moscou, instalado em Porto Alegre há mais de um mês. É tarde de domingo, o sol a pico no céu, a temperatura chega a 32º, o calor toma conta do picadeiro e das cadeiras embaixo da lona colorida, remendada, desgastada e envelhecida pelo tempo.

Ainda assim, há brilho nos olhos das crianças e dos adultos que recobrem a platéia de sorriso e expectativa. O que estará por vir? A curiosidade é parte da magia que inunda a atmosfera de alegria num compasso de sons e ritmos contagiantes. O show vai começar.

Contorcionistas, malabaristas, acrobatas, trapezistas, mágicos, palhaços, equilibristas, animais adestrados, o homem vulcão, o globo da morte, bailarinas e vendedores ambulantes: churrus, pirulitos, balas, pipoca, algodão doce, refrigerante, maçã do amor e batatinhas são alguns dos petiscos oferecidos nos intervalos de uma apresentação que dura cerca de duas horas.

A história das artes circenses é antiga e repleta de detalhes. Estudos revelam que o circo nasceu na China. Entre artefatos encontrados em escavações estão pinturas rupestres de 5 mil anos, imagens de contorcionistas, equilibristas e acrobatas.

(…) Na matéria, fiz uma retrospectiva histórica, passando por alguns momentos do circo em âmbito mundial até chegar ao surgimento do Cirque du Soleil. Trata-se de uma reportagem de 33 páginas. Como especifiquei acima, publico no blog apenas um trecho.

Parte final:

À porta do Circo Moscou

A rampa é de madeira pintada de azul. São quatro passos para subir e mais quatro para descer e lá está: trailers e ônibus separam o mundo lá fora do que ali se encontra. Uma lona azul, vermelha e branca cobre a tenda principal. Lá dentro, cadeiras circundam um picadeiro modesto, porém grandioso aos olhos de quem chega. É o circo! O terreno se localiza no Parque da Harmonia, à beira do Guaíba, próximo ao anfiteatro Pôr-do-Sol.

Ao entrar, o que se vê é uma comunidade formada por uma grande família. Sob a lona circular, malabaristas e acrobatas fazem um último ensaio antes da apresentação noturna de uma quinta-feira de primavera. A equipe de apoio, chamada pela trupe de barreira, prepara o local. O sol cai no horizonte. Dentro de poucas horas, o público começará a chegar para assistir ao espetáculo, marcado para às 21h30.

Em um ônibus preto, de portas e janelas abertas, uma família de artistas circenses se movimenta de lá para cá. Eles estão arrumando a sua casa, organizando objetos pessoais e utensílios que serão utilizados durante o show. Antolin Olguin e sua esposa Beatriz (era aramista quando jovem), ele 58 anos e ela 51, uruguaio e brasileira, são o pai e a mãe de Jonathan, um espanhol de 27 anos, trapezista e casado com Vanessa, brasileira, que trabalha com magia e chicote.

Antolin e sua família nasceram e foram criados em um picadeiro, assim como os seus pais. “A paixão pelas artes circenses está no sangue. Passou do meu avô para o meu pai, do meu pai para mim e do meu filho passará para os meus netos”, afirma o homem de meia idade, cabelos pretos, bigode e pele morena, típico latino, de expressão tão cativante que com um singelo sorriso infesta o ar de alegria.

Olguin conta que começou a carreira como palhaço no circo do pai, Circo Petit, passando depois para o trapézio. “Para mim, esta vida é pura magia. Iniciei como palhacinho, fui trapezista, e após abandonar às alturas com a chegada da idade, retomei a minha função de infância”, esclarece.

No Circo Moscou ele é Taruguito. “Personagem e figurino criados por mim”, relata orgulhoso o artista, e acrescenta, “quando entro no picadeiro deixo de ser o Antolin e passo a ser o Tarugo, meu nome de palhaço. Acho o sorriso das pessoas a coisa mais maravilhosa que existe. Não há nada tão lindo do que gente que sorri.”

A família Olguin trabalha no Moscou há três anos. Alguns vieram primeiro, outros depois. Antolin explica que existe muita diferença entre o circo de ontem e o de hoje. “As pessoas não dão mais importância para o circo. Olham para fora e não para dentro, para o que realmente há por aqui. Lá fora é só a lona”, diz.

O entusiasmo tomava conta da população de uma cidade quando o circo chegava nela. Sua passagem era motivo de euforia para a trupe. O palhaço avalia os sinais de mudança. “É como a morte da magia. No passado as crianças gostavam de ouvir histórias, as brincadeiras eram inventadas, surgiam do inesperado, hoje elas não se interessam mais por isso. Há robôs e todas estas coisas por aí”, enfatiza.

Nesta temporada, o Circo Moscou percorreu os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina entre o litoral e as fronteira com o Uruguai e a Argentina.  Segundo Jonathan Olguin, não se sabe qual será a próxima parada. A procura por terrenos é desgastante, a incerteza é cotidiana. “Nada parece abalar a trupe. Somos gente apaixonada pelo que faz, que traz no peito satisfação e coragem para enfrentar a dureza do dia-a-dia de cabeça erguida”, reitera.

O público que procura o Circo Moscou tem gosto variado. Muitos adoram ver os palhaços, há quem prefira o globo da morte, o barulho, o perigo, a vibração do solo. Aramistas e trapezistas são grandes atrações. Seus movimentos e a sensação de vê-los nas alturas silenciam a platéia.

O Moscou conta com uma agenda extensa. Durante os finais de semana, são quatro espetáculos no sábado e no domingo. Em dias úteis, há somente um show noturno. A exceção ocorre quando as escolas agendam horários para turmas de alunos. As apresentações, nesse caso, são fechadas. Antolin festeja a chegada da meninada. “O circo faz muito bem para a criança, é o melhor que há. O espetáculo mais sábio para os pequenos. Aqui, a imaginação deles voa”, comenta.

Em um trailer próximo à entrada, mora Ana Karla Giovane Silva, baiana, nascida em Mucugê, a 500 km de Salvador. Aos 25 anos, 16 de profissão, a bailarina e equilibrista divide a casa – “esta é a nossa casa, alegra-se ao falar” – com Wili Marcio Palácio, globista, irmão do dono do circo. Ao lado da mesa em que há pãezinhos, leite, margarina, biscoitos e café preto, Ana Karla esfrega as mãos com base. Ela se maquia, preparando-se para a hora de sua entrada. “O circo é tudo para mim, eu não me imagino fazendo outra coisa”, diz.

Relembra de quando começou, seu primeiro número foi aos nove anos, no circo do pai. Ela morre de rir ao buscar na memória uma de suas passagens pelo picadeiro. “Cômica”, ressalta. “Dia de casa cheia, eu tinha lá meus 13 anos, fazia um número de contorção e, de repente, meu top desamarrou…pááá, abriu e lá fiquei eu, com tudo de fora. Ainda bem que eram pequenos na época.”, conta às gargalhadas. “E você acha que a platéia sossegou? Que nada. Enquanto eu não saí dali, lógico que fiquei até o fim, todo mundo gritava, deixa cair de novo, vai! Eu só sei que amarrei a roupa e continuei o que estava fazendo. Morri de vergonha, claro. Ai, ai, cada coisa que acontece com a gente”, afirma.

Ana acredita no circo, tem esperança que ele permaneça vivo. “O circo é alegria, cultura, beleza. Ele estará sempre na estrada”, diz. Antolin Olguin, o palhaço palhacinho, compartilha a opinião. “Morrer ele não morre porque sempre haverá uma criança que goste do circo”, comemora.

William Peterson que o diga. Filho de seu Adilson – o manobrista –, aos 10 anos, ele se encanta ao experimentar o que está ao seu redor. “Eu gosto de olhar, de ajudar a montar a cama elástica, gosto de tudo por aqui”, conta.

A forma como o mestre de cerimônia do Moscou reverencia a platéia com suas palavras, no final do espetáculo, resume o sentimento da família circense, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.

- Enquanto houver uma estrela no céu e uma criança sobre a terra, o circo seguirá o seu caminho.

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O picadeiro em prosa

Há uma canção do Dead Can Dance, chamada The Carnival Is Over (álbum Into the Labyrinth), que retrata muito bem o circo e sua atmosfera mágica, contagiante e misteriosa. Conheço Dead Can Dance há 12 anos e sempre que ouço esta música, transporto-me automaticamente para o mundo do circo.

Vejo uma vila perdida em meio ao inóspito. O silêncio desprende-se fagueiro pelos poros do lugar. A poeira seca e vermelha percorre a única rua, o ar levanta folhas em dia de sol ameno. Os poucos moradores estão entretidos com seus afazeres diários, uns trabalham a lavoura de tons pastéis, outros afiam facas, mulheres torcem roupa, algumas se botam à beira das janelas, crianças correm junto a dispersas árvores alaranjadas.

De repente, um som distante quebra a rotina. Tambores, trombetas, chocalhos, malabares, palhaços, contorcionistas, homens que cospem fogo, mulheres que se equilibram nas pontas dos pés, cores vibrantes, cavalos, elefantes, cães amestrados, é a mágica circense que, sem aviso prévio, irrompe o horizonte. A atenção das pessoas passa a ter somente um foco: o desfile de saltimbancos. O fascínio penetra os olhos de crianças e adultos. O tumulto abre espaço para sorrisos, brincadeiras, curiosidade, encantamento. Tudo muda, passa pela dinâmica do espetáculo, de personagens desconhecidos, das faces expressivas, dos corpos pintados que se movem ao sabor de ritmos independentes.

A força dramática do momento gera contentamento, causa uma impressão imediata e marca de forma irreversível a alma do lugarejo. Nada será como antes. Conforme o trajeto é consumido pelos passos da trupe, a névoa inebriante confunde os olhares absortos. – Será mesmo a realidade ou um eco do além?

Uma moça, em especial, vê-se misturada à beleza e ao mistério. Ela acompanha cada movimento. Levada pelo poder de absorção dos mambembes, a garota vibra. Seu vestido florido cobre o corpo alvo, sandálias baixas, de couro macio, vestem os pés. O cabelo castanho e levemente ondulado é comprido, compondo harmonicamente o conjunto juvenil de feições suaves e corpo delgado. A visão a cega de imediato, é paixão que sente correr por dentro, que a comove, que a transforma em vulcão.

A cena segue, o circo se afasta, a vila retoma o eixo, a população desperta do transe. A moça pisca os olhos e, em questão de instante, nota que ficou para trás. ‘The Carnival Is Over’. O circo se despede, deixando na memória dos moradores um vestígio de alegria, e no semblante da garota, a certeza de que ele existe. Ela perde a trupe de vista, os saltimbancos desaparecem na linha remota da estrada. Ela mantém o olhar fixo naquela direção, e ao esfregar os dedos das mãos sente uma picada. Arrepia-se, espia para ver o que a beliscou, há uma rosa vermelha em sua mão esquerda. Ela aproxima a flor do rosto, a cheira, concentra-se no recorte perfeito das pétalas, e sorri, docemente.

Dead Can Dance (The Carnival Is Over)

Outside
The storm clouds gathering
Moved silently along the dusty boulevard
Where flowers turning crane their fragile necks
So they can in turn
Reach up and kiss the sky

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye
Someone is calling

I remember when you held my hand
In the park we would play when the circus came to town
Look! Over here

Outside
The circus gathering
Moved silently along the rainswept boulevard
The procession moved on the shouting is over
The fabulous freaks are leaving town

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye

Someone is calling
The carnival is over

We sat and watched
As the moon rose again
For the very first time

Corrida (macacal) Maluca

Posted novembro 30, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Palavreando

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O chavão ‘estar com a macaca’ coube na símia como tailleurzinho by Chanel. A rotina de trabalho, inexorável de setembro para cá, tomou a bichana de tal maneira que quase tudo a tem levado ao contumaz teque-tequear. Para novatos na divertida arte do bem usar a língua portuguesa & desvarios SA., teque-teques são nada mais do que os sons emitidos pelas teclas do carinhosamente apelidado por um mestre da música: cérebro eletrônico.

Em ritmo frenético de final de ano, o que poderia encaixar melhor em constituição arredondada do que incontáveis horas de labuta? Ao corpanzil da macaca se integram desafios para além do feijão com arroz. O conceito tem a ver com experimentar novidades, aprender com o que a vida traz de fresco, desbravar mundo ao lado do que há de mais espetacular, a superação de limites, dia após dia.

São milhões de caracteres a tomar páginas e mais páginas, definição de pautas, distribuição de tarefas, apuração de informações, saídas a campo, produção de textos, inúmeros telefonemas, acertos com equipe, coordenação de projetos, revisão de materiais, fechamento de arquivos, checagem de provas, e para tudo há que se montar plano e manter foco absoluto na meta, a entrega de resultados e o lançamento dos produtos. A reta final exige mais do que o processo inteiro: contatos, ampliação de network, desdobramentos, imprevistos, decisões rápidas, objetividade, reuniões de última hora, combate a súbitos rompantes de intrusos (provações personificadas) e a lista segue completamente sem rumo dias a fio.

Quem disse que é fácil? Viver em contexto contemporâneo é de lascar o fio do bigode. Se como macaca e jornalista a vida vira do avesso, imagina quando entrarem para o time macaco e filhotes? Wow! Tudo vem há seu tempo, mas filhotes só para adiante. Lááááá lá lá. Cada passo vale a pena porque a símia transborda prazer em cada pequena coisa a qual se dedica. Garra e amor combinam com a escolha que fez para si.

As últimas experiências, por exemplo, a fizeram encontrar caminhos e conhecer realidades surpreendentes. O que poderia ser mais fascinante do que o contato consigo mesma? Em meio ao turbilhão, somam-se constatações inesperadas, pois não há o que pareça mais complexo do que a maturação de quem somos. A macaca olha para si com orgulho. Transpor barreiras é promover revolução. Esta vitória tem significado amplo, não se resume ao ponto final de projetos profissionais, embora eles representem parte inebriante do todo. Não é específica. O brilho de seus olhos simiescos liga-se diretamente à exploração de suas vias internas, canais por onde a força pulsa certeira; vincula-se ao reconhecimento de um valor próprio de quem sabe se relacionar com as suas verdades, sejam elas quais forem. Voilà! Exclama de peito cheio. Quero, anseio, desejo ardentemente que a vida se lance cada vez mais viva para dentro de mim!

Paul Auster abre o seu livro A Invenção da Solidão – excelente leitura –, com uma frase que a macaca considera fantástica. É de Heráclito. Diz assim: “Ao buscar a verdade, esteja pronto para o inesperado, pois é difícil de achar e, quando a encontramos, nos deixa perplexos.”

That’s it!

Esperamos por você 2010. Iháááááááááááááááááá!

Cazuza

Posted novembro 28, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Diga-me com quem anda...

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Estou eu aqui, em noite chuvosa, para variar, Floripa é foda (mas é demais)! Sexta-feira do dia 27 de novembro, se bem que a estas horas já entrei nos 28 com facilidade. Eita relógio (tic tac) que voa. No problem.  Sigamos! Faz dias que quero escrever sobre o Cazuza. Ele está sempre por perto, é presença constante em meus dias, noites, vida. Tenho exatamente a idade de Cazuza: 32 anos! Cresci ouvindo tudo deste senhorzinho coisa de louco. Sei eu o que ele diria disto, faria uma careta, abriria um sorriso, diria que tudo bem…

Semana passada, sexta-feira dos antigamentes, tive uma noite ao lado de mama que para mim foi uma das mais incríveis de todos os tempos! Em final de tarde quente, expediente da semana encerrado, decidimos, eu e ela, minha estrela maravilha, abrir uma garrafa de bom vinho, aquele tinto e seco, óbvio, uma vez que o resto é troço indigno da denominação. Tomamos a primeira e pensamos que o momento pedia por mais uma, abrimos outra. A conversa fluía. Mamãe e eu nos comunicamos por olhar, pensamento, telepatia. Imagina quando abrimos espaço para diálogo compulsivo? A sequência costuma ser desenfreada, com muito prazer. Ô BOM!!!!

Foi inesquecível. De casa fomos para um boteco de Jurerê Tradicional, moramos no Internacional doido de pedra, e acomodadas em mesa e cadeiras simplesinhas optamos por chope geladinho e outras ‘cervezitas más’. No caminho do lar para o bar, ou como diria a minha tia, da igreja para o puteiro, se bem que minha casa nunca foi igreja, Graças a Deus, o que ouvíamos era o Cazuza, Blues da Piedade: “Agora eu vou cantar pros miseráveis que vagam pelo mundo derrotados/pra essas sementes mal plantadas que já nascem com cara de abortadas/pras pessoas de alma bem pequena remoendo pequenos problemas, querendo sempre aquilo que não têm/pra quem vê a luz, mas não ilumina as suas minicertezas, vivi contando dinheiro e não muda quando é lua cheia/pra quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos/como varizes que vão aumentando/como insetos em volta da lâmpada/vamos pedir piedade, Senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde.”

O Cazuza é um algo assim que não sei, como o amor e a vida. Quem foi? Acho que se eu dissesse aqui que foi um dos maiores gênios da música popular brasileira e que depois dele nunca mais vi nada parecido, ele me diria que sou meiga, fofa, lindinha, mas que na verdade, bem no fundo, ele era um misto de coisas, como todos nós. Menino? Homem? Cantor? Compositor? Letrista? Poeta? Boêmio? Inconsequente? Sem limites? Eu não sei. Não acho que eu tenha o direito de definir quem foi Cazuza. Se ele mesmo dizia que não sabia nada sobre si, quem sou eu para ficar aqui descascando miudezas? Decifrar pessoas é coisa que não cabe a pessoas. Mania temos. Adoramos, quase que como um vicio incontrolável, falar da vida alheia, dos seres sejam eles idolatrados ou menosprezados.  Por quê? Vício puro e simples. A coisa mais deliciosa do mundo é abrir a boca, este canal de comunicação fenomenal que temos com o mundo, embora haja uns tão largados às traças que chega a dar dó.

Mas não. Se eu o fizesse, abrisse a minha boca para especular quando o assunto é Cazuza, ele me diria para não perder tempo, até porque, por mais que me esforçasse, não conseguiria chegar perto de combinação  articulada. Cazuza para mim é como um amigo, um irmão, alguém tão íntimo que chega a abusar. Ele conversa comigo, conta da vida, das novidades, dos planos, do que pensa e sente, quer e deseja, espera e almeja. Deixou um legado como poucos.

Cazuza só não está neste mundo em corpo. Sim, ele morreu. E cedo. Excedeu-se, se jogou sem medir consequências, mas penso que ele foi o que queria ser, fez o que queria ter feito, escolheu o seu caminho. Somos resultado de nossas escolhas. Fato é que já se foram quase 20 anos desde a sua partida e até hoje eu o vejo por aí, mais presente e atual do que nunca. Impressionante Cazuza, como você conseguiu passar para todas as gerações posteriores a sua tanta bagagem. E da melhor qualidade. Tudo o que você foi está a léguas do verbo precisar, pois ele lembra a falta do que é necessário, negócio que não rima com a tua voz nem toca as tuas ideias. Acho que o tanto que recebemos de você cabe direitinho em palavras marcantes como atrever. Alguém chega para você e diz: como você se atreve a falar assim comigo? Ou ousar. Outro esmurra em bom tom: não ouse! Cazuza era atrevido e ousado, e isso, senhoras e senhores, quer dizer carisma.

Ele toca, desperta, estimula. Creio que a reflexão sobre seja o que for causa muito mais efeito do que o pão nosso de cada dia. Por certo ninguém sobrevive sem o alimento, mas o conteúdo relevante que empurra para frente está nas pequenas grandes revelações: “Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso, minha metralhadora cheia de mágoas, eu sou um cara/cansado de correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada, eu sou mais um cara/mas se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados porque o tempo, o tempo não para.” Refiro-me a isto. Falar de si em nível arrebatador não é para qualquer um.

Eu também sou ariana, quebro tudo, arrombo portas, sou impulsiva, passional, intensa, desgovernada, travessa, moleca. Dá na veneta e, pronto, fecha-se a butique. Lógico que eu me identifico com ele. Somos parecidos. Como eu disse, somos amigos, irmãos. Quem ler o que aqui está e não entender, me chamar de pretensiosa, cretina, ridícula, estúpida, que fique bem à vontade. Eu responderei: espanta-se por quê? Não ouve Cazuza? Não atenta para o que ele fala? O Cazuza não compôs para chegar à divindade, mas para invadir a alma dos outros. Ele não pede licença e faz tudo isso de propósito, o objetivo é chocar, chamar a atenção, instigar o sentimento, animar (no sentido de dar vida a) a consciência.

Quanta gente xinga, inverte os significados, empobrece os nossos instintos, reverte as nossas perspectivas Cazuza? Um bando de chatos, mesquinhos, frios, minúsculos.  Pois bem, cada um com o seu cada qual. Né, Cazuza? Foda-se! Danem-se! Se não bate, não rola. É isso. A vida é assim. Que seja!

Para mim é claro: Aqueles que se expõem estão sujeitos a todos os tipos de feedbacks. Burrice, pequeneza, tacanhice é não conseguir enxergar que as pessoas mais fortes são as que entram em contato com a sua fragilidade, a conhecem, provocam, tratam bem, sabem lidar. Jogo de cintura, mi queridos, é fundamental. Estas são dignas de respeito, são especiais, fazem a diferença, possuem algo próprio da minoria: flexibilidade de pensamento, elasticidade mental. Cazuza está neste rol de criaturas; pessoas do bem, lúcidas, criativas, sagazes.

O que tenho a dizer? Que sinto muita saudade. O Cazuza faz muita falta: leve, solto, afetuoso, autêntico, bem humorado, excelente caráter, generoso, inteligente, corajoso, brasileiro, alto astral, ‘cínico, revoltado e menino’, como ele mesmo se descrevia.

Eu amo você Cazuza! Te conheci menina, cresci ao teu lado, te trago por dentro, te ouço, escuto, saco, capto. Vamos seguir conversando pelos bares da vida. Por todos os lugares, qualquer um deles vale a pena ao lado teu. “O barato da vida é estar sempre aprendendo, sempre de olho, sabe? Acho que a gente tem que ter essa coisa de mudar, de não sedimentar.”

Com certeza!

Não foi por menos que terminei a noitada com mi mama na beira da praia do Forte, que está localizada ao lado de Jurerê esquisita, cheia de mansões vazias durante a maior parte do ano. Fantasmas e discrepâncias à parte, eu e minha estrela bebemos a saideira ao nascer do dia em frente à APA do Anhatomirim, ao lado da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, próximas da ESEC Carijós, rodeadas por pescadores com suas redes e baleeiras, Mata Atlântica, mar, gaivotas – alguém me conta onde raios dormem elas? –, e ao som de Cazuza: “Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de star, fantasiando um segredo, o ponto aonde quer chegar, o teu futuro é duvidoso, eu vejo grana, eu vejo dor, num paraíso perigoso, que a palma da tua mão mostrou, quem vem com tudo não cansa, Bete balança meu amor, me avise quando for a hora. Não ligue pra essas caras tristes, fingindo que a gente não existe. Sentadas, são tão engraçadas, donas das suas salas. Quem tem um sonho não dança, Bete Balanço, por favor, me avise quando for embora”

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!

Valeu Cazuza! O mundo sem você não é o mesmo.

Loreena McKennitt para o povo brasileiro

Posted novembro 20, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Macaca D auditório

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Eu tinha 19 anos quando ouvi Loreena McKennitt pela primeira vez. A época era de transformações para mim, em vários sentidos. Lembro-me, hoje, do quão emblemático foi estar em contato mais íntimo com Florianópolis. Recém-chegados à ilha – dois anos depois retornei a Porto Alegre –, morávamos eu e minha família em apartamento com amplas aberturas, por elas o dia entrava intenso, ora voluptuoso, ora introspectivo. Divino. Todas as janelas frontais ofereciam uma vista espetacular da Baía Norte. O mar sempre me trouxe múltiplas sensações. Enxergo-o forte, tempestuoso, e, ao mesmo tempo, apaziguado, terno. A mistura causa em mim o que chamo de indescritível. Não me lembro de nada que me deixe absolutamente sem palavras, tão entregue, tão pequena grandiosa. Não é à toa que chamamos a Terra de Planeta Água. Os oceanos são os senhores de nossa História. Em sua imensidão repousa silencioso o nosso princípio e dela brotará com veemência a nossa extinção. A dinâmica da vida tem neles a sua mais significativa referência. Sinto-me privilegiada por ter o mar próximo, tocável, visível. Cresci afastada dele, mas jamais distante. Nasci em uma cidade litorânea e parte de minhas cinzas, um dia, será jogada em águas marinhas. Se Deus existe, e acredito que sim, ele se apresenta aos olhos da humanidade por meio deste Rei felino e apaixonado.

Era final de tarde chuvosa, cinzenta, enevoada. A meia luz cobria a atmosfera e os ânimos da cidade. Sentia-me muito bem, estava a trabalhar em algum exercício para a escola, não recordo ao certo, quando a música invadiu o ar e me chamou a atenção de forma instantânea. Era Loreena McKennitt. Com o toque em um botão, o álbum The Visit seguiu caminho por tempo que, agora, não saberia precisar. Não importa. As primeiras notas logo me tomaram o pensamento, abandonei o que estava fazendo e caminhei em direção à sala. Lá estava o meu irmão, Cristiano, sentado em uma berger ao lado da janela, quieto, absorvido pela música, vidrado na paisagem. Com a minha chegada, ele começou a contar sobre a cantora e compositora canadense, pianista, harpista, de origem celta e dona de uma sonoridade fora do comum. Mostrou-me o álbum, o encarte do cd, as fotos e as letras, entrou em detalhes; enfim, colocou-me a par de tudo o que eu precisava saber a respeito do que ouvia ao fundo. Meu irmão sempre teve o dom de capturar informações mil sobre assuntos relevantes. Não é por outra razão que se tornou um excelente historiador, além de um homem de muito bom gosto.

Foi uma experiência única. Desde então ouço Loreena McKennitt, sempre por intermédio do Naninho, que foi adquirindo um álbum depois do outro. Todos excelentes! Um em particular, atraiu-me primeiro pela qualidade das canções, como esperado, depois pelo relato que ela, a compositora, fez sobre a viagem que havia empreendido em busca de suas raízes. Sem querer terminou em um trem rumo à Sibéria e quando deu por si estava em Istambul. No encarte de The Book of Secrets há um verdadeiro diário desta jornada. Cada palavra me transportou para longe, trouxe-me impressões diversas das culturas, pessoas, dos lugares, países pelos quais passou. Lembro-me de um trecho, o qual trago bem guardado, em que ela fala sobre a experiência de viajar, de como esta se revela enriquecedora e extraordinária, de como se manifestam as sensações no decorrer do caminho, nos meandros do trajeto, da importância de nos deixarmos levar pelos acontecimentos para que possamos nos perder para nos encontrar, rompendo assim barreiras que jamais imaginávamos que existissem dentro e fora de nós mesmos. Loreena entrega ao público por meio dos escritos um pouco do que experimentou estrada afora, complementando o contexto de sua obra musical a partir do que viveu neste momento específico de sua história pessoal e carreira.

Há algumas semanas, senti-me surpreendida ao escutar Loreena em pleno horário nobre da televisão brasileira. Confesso que foi a primeira vez que a ouvi em uma novela transmitida pela Rede Globo. Ôpa! Ocorreu-me que tal feito só poderia ter as mãos de Jayme Monjardim, diretor do núcleo de Viver a Vida. Pelo pouco que acompanhei de sua carreira, tenho como evidente o fato dele ter gosto apurado, sensibilidade e excelência em trazer técnicas do cinema para a televisão, consciente do quanto isso amplia no telespectador o conhecimento sobre cultura clássica e erudita, cujo grau de informação é acessível, na maior parte das vezes, a poucos. Considero fantástica esta postura de Monjardim por ela não subestimar a inteligência e o grande potencial do povo brasileiro, capaz de absorver um leque amplo de dados e elementos independente de serem mais elaborados. Outro ponto para o diretor, que mostra com clareza o quão estúpido e paralisante é o preconceito e o estado padrão.

Com prazer publico na página o clipe de uma versão ao vivo da canção Dante’s Prayer. Na introdução do vídeo, a artista comenta um pouco sobre a sua a viagem, a leitura da obra de Dante Alighieri – que teve influência direta na composição das músicas que integram o álbum –, e a marca que a experiência deixou em sua vida. A canção é parte da trilha sonora da novela Viver a Vida. Muito bom saber que o nosso telespectador tem a oportunidade de conhecer Loreena McKennitt e sua obra musical, de grande valor para a contemporaneidade.

Dante’s Prayer, by Loreena McKennitt

When the dark wood fell before me
And all the paths were overgrown
When the priests of pride say there is no other way
I tilled the sorrows of stone

I did not believe because I could not see
Though you came to me in the night
When the dawn seemed forever lost
You showed me your love in the light of the stars

Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me

Then the mountain fell before me
By the deep well of desire
From the fountain of forgiveness
Beyond the ice and the fire

Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me

Though we share this humble path, alone
How fragile is the heart
Oh give these clay feet wings to fly
To touch the face of the stars

Breathe life into this feeble heart
Lift this mortal veil of fear
Take these crumbled hopes, etched with tears
We’ll rise above these earthly cares

Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me…

Uma História da Mama

Posted outubro 19, 2009 by Carolina Pinheiro
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Eu escrevi o texto abaixo para o livro Uma História da Mama, lançado pela Da Barca Casa Editorial no dia 16 de outubro de 2009, durante o XV Congresso Nacional de Mastologia, realizado em Gramado, Rio Grande do Sul. Com a autorização do editor, disponibilizo no meu blog o trecho a seguir.

Vénus no Espelho, TicianoAbundantes, fecundas, fartas, férteis, as mamas não são apenas glândulas cujas características mais evidentes são as de identificar a mulher e propiciar o desenvolvimento sadio de seus descendentes. A simbologia dos seios femininos é tão forte que a palavra mama deu origem ao verbo amamentar – o princípio básico da alimentação – e ao adjetivo mamífero, designativo da classe de animais que inclui a espécie humana. Apelidadas por especialistas de “árvores da vida” (o interior da glândula assemelha-se a uma árvore), as mamas permeiam a história da humanidade. A força iconográfica das mamas humanas se manifesta em todos os âmbitos da sociedade: nas ciências, nas religiões, nas artes, na cultura de mercado e na exploração do corpo feminino em busca de respostas sobre a origem da vida.

De acordo com cientistas e historiadores, a ausência de fósseis de seios dificulta a identificação de quando e como surgiram e se transformaram, ao longo das eras, no que são hoje. Teorias foram criadas com base na evolução da espécie e no poder sexual que as mamas possuem. Algumas indicam que após o homem se tornar bípede o seu corpo passou por uma série de modificações; o feminino afinou, desenvolveu curvas e a necessidade de um espaço frontal para a manutenção do aleitamento e da atração do sexo oposto resultou no aparecimento dos seios.

O desejo e a curiosidade do homem pelas mamas remonta à pré-história. A representação mais antiga de um ser venus_von_willendorfhumano está retratada no corpo de uma mulher com tetas fartas. A Vênus de Willendorf, uma estatueta do paleolítico datada de 24.000 a.C., foi encontrada durante escavações na Áustria pelo arqueólogo Josef Szombathy nos primeiros anos do século XX. Ele a descreveu da seguinte forma:

“A escultura representa uma mulher gorda, inchada, com grandes glândulas mamárias, uma barriga saliente, cadeiras e coxas grossas (…) Os lábia minora estão claramente indicados (…) Toda figura mostra que o artista possuía um excelente domínio da forma humana e que ele, deliberadamente, enfatizou as partes referentes à função reprodutora”.

Esculpida em calcário, a escultura mais antiga feita por mãos humanas possui 11 centímetros de altura, é um retrato idealizado da figura feminina e suas formas voluptuosas guardam profunda relação com o conceito de fertilidade. Embora tenha sido a primeira evidência da era pré-histórica descoberta em escavações arqueológicas, não é a única. Cerca de 40 mil pequenas estatuetas semelhantes foram encontradas em escavações realizadas na Europa, no Oriente Médio, na África e na América Central.

deuses_egipciosNo Antigo Egito, a imagem da Deusa Nut (a personificação da abóbada celeste despida e arqueada sobre o Deus Geb, a personificação da Terra) era representada pelo corpo alongado de uma mulher coberto por estrelas. Dizia-se que o leite que escorria de seus seios, o qual formou a Via Láctea, fertilizava o solo. O desenho de Nut – “deusa do céu que acolhe os mortos no seu império” – foi encontrado em sarcófagos de faraós de dinastias como a de Tutankhamon. As crenças funerárias egípcias associavam a deusa ao conceito de ressurreição: o morto transformava-se em estrela no interior do corpo de Nut. Segundo a mitologia, o Deus Rá, principal divindade egípcia, viajava pelo corpo da deusa durante a noite engolindo estrelas que posteriormente acenderiam o céu, renascendo em Nut.

Em cerca de 2.000 a.C., onde hoje se localiza a Palestina, Hebat era adorada como a Grande Deusa, a Mãe Sol, o símbolo supremo da fertilidade, da beleza e da realeza. Artefatos e documentos da época descrevem Hebat como uma mulher de corpo belíssimo, cujos seios eram arredondados e rijos. A imagem de Hebat carrega um bebê, o qual alimenta e acolhe em seus braços. Para os povos da região, o recém-nascido representava a esperada “criança das luzes”.

Na Grécia mecênica, por volta do século IV a.C., Kourotrophos – que significa “aquela que cuida das crianças” – foi kourotrophos_6 a.ceternizada pelas mãos de artistas da época. Peças como esculturas, vasos e estelas funerárias representam a divindade conhecida como a Deusa Mãe da mitologia grega, a mulher responsável por alimentar, proteger e educar infantes até que eles estivessem preparados para os rituais de iniciação. O arqueólogo Ross Holloway batizou de Night um dos maiores exemplares de Kourotrophos, que se encontra no Paolo Orsi Museum, em Siracusa, na Itália. De acordo com Holloway, a escultura retrata a divindade amamentando e cobrindo com o seu manto os irmãos gêmeos Sleep and Death (Hypnos and Thanatos), que quando jovens carregarão o cadáver de Sarpedon, em Ilíada 16.

Para os gregos, a Via Láctea surgiu do leite que escorreu dos seios de Hera, esposa de Zeus, enquanto ela alimentava Hércules, um dos ícones de sua mitologia. Para que Hércules se tornasse imortal, ele deveria ser amamentado por Hera. Dizia-se que Hermes, filho de Zeus com Maia, conduzira Hércules aos seios de Hera enquanto ela dormia para que o bebê pudesse adquirir a imortalidade. Outra figura grega emblemática é a Vênus de Milo, escultura cuja autoria é atribuída a Alexandros de Antioquia. A estátua de uma mulher com o dorso nu e os seios perfeitos, uma das mais conhecidas do mundo, pertence ao período helenístico (século IV a século I a.C.), possui dois metros de altura e simboliza a feminilidade. A Vênus, representação de Afrodite, a deusa do amor e da beleza, está exposta no Museu do Louvre, em Paris.

A verdade revelada pelo tempoAs mamas humanas projetam no imaginário coletivo sensações as mais diversas. São capazes de provocar em ambos os sexos sentimentos como desejo, beleza, confiança, paz, inveja, amor, responsabilidade, paixão, esperança e cuidado. O ser feminino é complexo e dinâmico. Ser mulher significa ser capaz de cuidar, de gerar, de esperar, de educar, de dar e de sentir prazer. Da concepção ao nascimento, da amamentação à atração sexual, os seios trazem consigo a força, o orgulho, o poder, a conquista, a vitória feminina.

Dentro dessa perspectiva, Giambattista Tiepolo, um dos mestres do barroco italiano, pintou no século XVIII A Verdade Revelada pelo Tempo. No quadro, a verdade é revelada por uma mulher cujos seios estão desnudos. O italiano Torquato Tasso (século XVI), um dos mais célebres poetas da literatura universal – comparado a Homero, Virgílio e Dante –, autor do clássico Jerusalém Libertada (1851), relatou que mães, esposas e amantes gaulesas costumavam comparecer aos campos de batalha para exibirem os seios a fim de transmitirem aos seus homens força e confiança para a luta que travariam contra os invasores.

Ferdinand Victor E. Delacroix, representante do romantismo francês no século XIX, exprime, em sua obra A A Liberdade Guiando o PovoLiberdade Guiando o Povo, firmeza, contundência e obstinação. Na tela, estes sentimentos estão retratados na imagem de uma mulher (a Liberdade) com os peitos de fora carregando a bandeira da França e incutindo nos soldados a coragem para enfrentar o inimigo e vencer a batalha. Considerada a primeira obra política da pintura moderna, o quadro celebra a revolução que levou à queda de Carlos X.

Entre as pinturas sacras e as renascentistas, inúmeras trazem mulheres de seios nus amamentando os filhos. A condição primaz da mulher revela-se por inteiro em obras-primas das artes plásticas como A Madona Litta, de Leonardo da Vinci; A Virgem Amamentando o Menino e São João Batista Criança em Adoração, de Giampietrino (século XVI); O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticceli (século XV); The Melun Diptych, de Jean Fouquet (século XV) e em tantas outras de autores desconhecidos datadas dos séculos X e XI.

sonho pablo picasso_1932Objetos do desejo masculino, os seios instigam também o erótico, a fantasia, o êxtase associado ao corpo feminino. A sexualidade é fator inerente às mamas, uma realidade inseparável de sua existência e evolução. Na tela O Sonho (1932), da fase cubista de Pablo Picasso, o artista extravasa seu fascínio pelo corpo da mulher e gosto pelo sexo. A obra foi produzida com o objetivo de proporcionar no espectador o gozo visual. A dama retratada, Marie-Thérèse Walter, uma das amantes do pintor, toca seu púbis e, de olhos fechados, masturba-se. Picasso revela de forma sensual a mama da mulher endurecida, imagem própria de um ato de sexo e erotismo explícito.

A quebra de paradigmas proposta por Picasso é reflexo de uma nova era. Questionamentos referentes à figura da mulher ocorriam na Europa, nas Américas do Norte e do Sul e na Ásia. O momento histórico sugeria a abertura sexual, a quebra de tabus e a redefinição do papel feminino na sociedade. Obras como a de Picasso impulsionaram a revolução sexual e alguns dos movimentos vanguardistas da década de 1960.

Simone de Beauvoir, escritora, ensaísta e uma das principais precursoras do feminismo, desconstruiu a ideia Anita Ekbergpreconcebida da mulher presa a uma trajetória única, a de ser mãe e esposa. Em sua obra O Segundo Sexo (1949), um dos marcos da época, Simone se posiciona contra o puritanismo e o maternalismo do pós-guerra, opondo-se ao determinismo biológico e esclarecendo que a mulher não deveria estar amarrada a nada, a não ser a si mesma, como sujeito social autônomo, capaz e independente. “A mulher tem o direito de decidir sobre a sua vida. O seu corpo é um território livre.”

Em meio ao turbilhão de impressões e incitações, o dia 7 de setembro de 1968 foi marcado pelo Bra-Burning, a Queima dos Sutiãs. Centenas de ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement) se reuniram em Atlanta (USA), em frente ao Atlantic City Convention Hall, para protestar contra a eleição da Miss América, Jordi Ford, que ocorria dentro do prédio. As ativistas gritavam do lado de fora, reunindo em uma lata de lixo todos os objetos considerados ideais para que uma mulher obtivesse status de beleza: cílios postiços, maquiagens, revistas femininas, espartilhos, cintas, sapatos de salto alto e sutiãs. A despeito do nome pelo qual o ato ficou conhecido, a queima, na verdade, não chegou a ocorrer, devido à proibição da prefeitura por razões de segurança. O episódio, contudo, entrou para a história como o grande marco do movimento feminista. Para aquelas mulheres, a “queima dos sutiãs” representou a conquista da liberdade perante o modelo vigente. O homem era o ser público e a mulher, o cerne do lar. A expressão seio da família tem esta conotação.

gisele_bundchen_seiosNa história da humanidade, há uma profusão de mitos, lendas e causos populares envolvendo os úberes femininos. Alguns documentos revelam inclusive a influência feminina na prática política e social de vilarejos orientais. Escrituras do século XII descrevem o estado de Karnataka, situado no sul da Índia, como um espaço onde as vilas eram administradas por mulheres. Elas lideravam também instituições religiosas.

De acordo com a historiadora Jyotsna Kamat (Universidade de Karnataka), as mulheres gozavam de direitos que até há bem pouco tempo eram reservados aos homens nas sociedades ocidentais e orientais. Na Índia, diz-se que Krishna foi alimentado por Putana, uma Rakshasi (demônio feminino). Kamsa, o tio demônio do Deus Krishna, solicitou a Putana, que tinha o poder de assumir a forma de qualquer ser, que envenenasse Krishna. Ela assumiu o disfarce de Gopikaa, que significa ama-de-leite, entrou na casa de Krishna e o amamentou com o seu leite envenenado. O Deus, mesmo ainda bebê, soube reconhecer a Rakshasi e sugou tão forte o seu seio que junto com o leite extraiu a vida de Putana.

Por todo o planeta há registros das mamas como um símbolo da cultura e da identidade dos povos. Jean Baptiste retrato de índia_Jean-Baptista Debret (1768-1848)Debret, pintor francês que integrou a Missão Artística Francesa ao Brasil (1816), realizada a pedido de Dom João VI, destaca em sua obra Retrato de Índia a suntuosidade dos seios nus de uma nativa jovem e bela. O Brasil Colônia está repleto de telas, desenhos e descrições do esplendor das mamas sempre à mostra das índias e do impacto que sua imagem causava nos europeus que desembarcavam no Novo Mundo.

Exemplos significativos da presença das mamas na história das artes podem ser destacados em qualquer cultura. Tsukioka Yoshitoshi, um dos grandes mestres do Ukiyo-e, um gênero de arte que une xilogravura e pintura japonesa do século XIX, apresenta em sua obra várias cenas de mulheres com os seios nus sempre sensuais e delicados. Na peça Kayuso Kaei Nenkan Kakoimono no Fuzoku (A Aparência de Uma Concubina da Era Kaei), o artista revela os seios da dama com primor de detalhes. Destacam-se em meio a cores fortes o quase branco da pele da mulher e o rosa que define com minúcia as auréolas de suas mamas.

yoruba_womanNa arte Yorùbá, uma cultura milenar africana – a etnia Yorùbá habita a Nigéria, na África Ocidental –, a representação de mulheres com as mamas expostas nos rituais e no cotidiano local pode ser vista em inúmeras peças de artesanato. A fertilidade está diretamente associada à mulher, um dos símbolos da vida para este povo. Nanã é a irunmole (orixá no Brasil) que entregou a Oxalá a lama, material com o qual o ancestral, que se tornou divino após a morte, criou o homem. Nanã é o irunmole feminino das águas das chuvas, dos pântanos e da morte. Iemanjá, um dos irunmoles mais conhecidos do mundo, é feminino e representa os lagos, os mares e a fertilidade. Iemanjá é a mãe de todos os irunmoles da mitologia Yorùbá.

A cultura Yorùbá tem forte influência sobre a cultura de países como República de Benin, Togo, Costa do Marfim, Haiti, Bahamas, Porto Rico, Estados Unidos, El Salvador, Reino Unido e Brasil. A ligação histórica tem início com a chegada dos escravos neste País. Das culturas africanas existentes no Brasil, a Yorùbá é a que mais influenciou o povo.

A América Latina também é cenário de mitos e lendas relacionados às mamas. O folclore Difunta Correa_Marcelo Sola Argentinaargentino traz desde o século XIX a história da Difunta Correa, adorada como santa pela população da região de Vallecito, um vilarejo localizado a 1.160 quilômetros de Buenos Aires. Na cidadezinha construída ao pé da Cordilheira dos Andes, María Antonia Deolinda Correa vivia como uma mulher simples, considerada um exemplo de esposa e de mãe. “Se hizo carne en ella como una profecía la que después fuera la admirable definición de Sarmiento: ‘La madre es para el hombre la personificación de la providencia’.”

Entre os anos de 1840 e 1850, contudo, seu marido foi obrigado a entrar para o exército. Sem opção, Deolinda decidiu partir de Vallecito em direção a San Juan, situada a 63 quilômetros da vila, na esperança de encontrá-lo. Levou consigo guarnições, que supôs serem o suficiente para a longa jornada, e seu filho. “Para que entre las gentes quedara como ejemplo de amor de esposa y madre, Deolinda Correa iniciaba por fidelidad al amor, su viaje al infinito Amor y a la leyenda”. Enganou-se. Após percorrer a pé boa parte do caminho, o alimento e a água acabaram e Deolinda, exaurida e famélica, morreu sob o sol escaldante do deserto San Juanino. Reza a lenda que quando seu corpo foi finalmente encontrado, muitos dias depois, ele estava em uma posição capaz de proteger o bebê de tal maneira que ele teria condições de mamar e se nutrir enquanto houvesse leite para sugar da mãe já sem vida. Existe na região de San Juan um santuário erguido em homenagem à Difunta Correa, visitado por milhares de peregrinos todos os anos.

Fantasia das Amazonas_Roland Steverson capa da lista telef do Amazonas 1989Na Amazônia, a lenda das Icamiabas (que significa “mulheres sem homens” ou “escondidas dos homens”) ronda o imaginário coletivo não somente dos povos do Norte do Brasil. A história gera fascínio e entusiasmo mesmo em pessoas de países longínquos. Embora não haja registro de sua existência, ainda há quem percorra a região entre os rios Tapajós, Trombetas e Jamundá em busca de respostas. O mito ganhou proporções imensas e se manifesta em versões diversas. A lenda é uma das mais completas formas de expressão da fertilidade, feminilidade e sexualidade feminina.

As Icamiabas são descritas como mulheres lindíssimas, donas de corpos fortes, morenos e sensuais, com curvas bem delineadas e seios deslumbrantes e imponentes, capazes de provocar arrebatamento em quem as vislumbrasse. Por viverem em contato direto com a natureza, livres, as Icamiabas ignoravam qualquer regra moral, passando a maior parte do tempo nuas. Tal detalhe estimula nos homens o desejo e a fantasia de encontrá-las, sentir os seus seios, possuí-las.

Diz-se que estas mulheres guerreiras e destemidas habitaram, há cerca de 600 anos, uma região próxima à cabeceira do Rio Jamundá. Viviam completamente isoladas dos homens e em certas épocas do ano celebravam a sua vitória sobre o sexo oposto nas margens do lago sagrado Yaci Uarua (Espelho da Lua). Após o cair da noite, quando a lua se debruçava sobre o espelho d’água, as Icamiabas mergulhavam nas águas em ritual de purificação e chamavam pela mãe do Muiraquitã, a Grande Mãe. Era ela quem entregava a cada uma das mulheres a pedra de cor verde (jade), o Muiraquitã, o talismã de proteção material e espiritual das guerreiras.

(…)

Pedaço de mim

Posted outubro 2, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Diga-me com quem anda...

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* Para Yamara e Cláudio (MEUS pais).

cambará9Um dos filmes mais importantes da minha vida se chama Cinema Paradiso. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que o assisti pela primeira vez. Minha mãe me pegou pela mão – a mim e aos meus irmãos –, éramos pequenos, e nos levou para o cinema. Ela sempre teve o hábito de nos apresentar ao mundo e foi sempre uma aventura inenarrável conhecê-lo pelas suas mãos. Considero tal experiência um privilégio! Obrigada minha estrela, por ter colocado tanto brilho em minha vida com o seu sorriso e a sua força. Eu te amo!

O longa-metragem italiano, lançado em 1988, dirigido por Giuseppe Tornatore e com trilha sonora composta por Ennio Morricone, deixou em mim uma marca eterna. O tempo é implacável, a hora é agora. Nossos laços, todavia, são para sempre. Mamãe repete: “Filha amada, a única coisa eterna, na vida, são os vínculos que construímos no decorrer de nossa história.”

Cinema Paradiso fala exatamente sobre a ligação forte que pode existir entre as pessoas, a qual se solidifica conforme cada um rega o seu jardim. Não há o que dure se não for bem cuidado, tratado com amor, alimentado com respeito e instigado pela atenção genuína. O meu pai também me ensinou um bocado sobre a simplicidade, a integridade e a entrega. Eu também te amo!

Como vou viver no mundo? Sou absolutamente movida pela força do amor. Respondo a tal pergunta com orgulho: viverei para ser, para amar e para me abrir a cada passo um pouco mais.  Amar não significa negar a realidade.  Muito pelo contrário, pois o sentimento tem o poder indiscutível de abraçá-la com firmeza. Agradeço aos meus pais pela luz que carrego por dentro. Homenageio os dois com ela – e não poderia ser diferente –, a música tema de Cinema Paradiso.

Deram-me raízes e asas quando nasci. E vivo assim, a renascer…Raízes que sustentam o meu pouso, a minha morada, o carol16meu canto, a minha casa. Sei que sempre estarão lá. Asas que me levam para longe a abrir o coração curioso, largo, solto, faminto de mundo, caminhos, ideias abstratas do desconhecido. Suponho que o concreto se faz de mim aos poucos, absorto, acordado, predisposto. O que encontro é fatia desta liberdade cativante que desembarca em meu olhar e repousa em minha vontade de estar junto de mim acompanhada.

Reflexões

Posted setembro 27, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Palavreando

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Macaca editadaHá muito tempo não via luar como aquele. Movimentava-se entusiasmada com a sensação gostosa de soltura que o banho lhe proporcionava. O rio se ampliava à luz da lua, cheia de uma primavera que insidia ardente. Nada a faria parar. Eram mãos e pernas a tomar as águas com a frescura de seu corpo macio e arredondado…

– Eu adoro este lugar. Como é lindo!, exclamou a macaca. A ilha possuía belezas singulares: montanhas, verdes de tonalidades mil, rochas encravadas entre céu, costões e a imensidão azul do mar, praias de areias claras a brotar aqui e ali. – Viver próxima a tanto é um privilégio para poucos! A maioria dos seres reside em locais turbulentos, degradados e estressantes. Eu não. Pelo menos por enquanto. A bichana continuava angustiada pela dúvida que residia em seu peito há alguns pares de meses. – Tenho pensado em me mudar para uma grande floresta, destas esculpidas pela mão do homem, onde árvores de plantio secundário se amontoam junto a uma terra cuja composição nutritiva já não se faz presente há décadas. Não tem sido fácil decidir. Sinto-me dividida entre as oportunidades que lá existem e a qualidade de vida que conquistei neste pedaço de paraíso. Splach splach, chacoalhava-se à beira-d’água ainda em estado de graça com os sabores que o momento havia lhe concedido da epiderme à corrente sangüínea.

– E agora? O mais difícil na vida não é a constatação de determinadas coisas. Comprovar é tomar para si o resultado do macaco artísticodesenrolar das histórias. Perceber é se manter atento aos passos dados, um de cada vez. A macaca estava prestes a tomar novo rumo na vida. Enxergava o caminho a seguir de forma tão clara que até a ela causava espanto tamanha transparência. Uuuuuummffff…suspirava enquanto a pele era tomada por uma efervescente rajada de arrepios. – Cheguei ao ponto que muitos chamam de encruzilhada ou momento exato em que a trilha se divide. Posso definir sem pestanejar que me encontro na fase X da questão. De agora em diante, ou vai ou racha. Tenho uma escolha a fazer. A boa notícia é que conheço meu potencial, minha qualidade simiesca e minha necessidade de estruturar um plano estratégico sólido. A dúvida se instala nas perguntas que me consomem no decorrer do trajeto: chegarei aonde quero ficando? Há meios de vencer habitando um ecossistema cujo mercado de bananas é incipiente? Preciso avaliar, ponderou a símea enquanto se esfregava no tronco de árvores vizinhas. Passeou pelo entorno em direção a sua casa. Respingos marcavam o seu rastro sobre a relva.

– O que valerá mais a pena? Devo buscar conselhos de macacos velhos. Pensei que já tivesse encerrado o assunto, mas vejo que não. Minhas ideias seguem trementes, noto-me aflita…arg. Como sei das experiências que quero ter mundo afora, vasculhando países, culturas e animais de espécies variadas, talvez o importante seja optar pela floresta central. O que me prende à ilha são as pessoas que eu amo, as belezas que me enchem o espírito e a qualidade de vida que este lugar me oferece. Por que escolheria viver longe do que para mim é bom? Sim, para abrir portas que me possibilitarão sair por aí a conhecer e reportar tudo o que por minhas vistas passar.

macaco1A macaca estava cansada. Fazia-se tarde, a noite rasgava as horas com a sua típica e insaciável rapidez. Findo o ritual de delícias nas águas do rio, a bicha tratou de escalar o tronco da Grande Árvore relaxadamente, pulando de galho em galho com cuidado para não acordar a macacada. No caminho, pegava-se sorrindo sem mais nem por que. Agradava-lhe a sensação de estar perto de sua família, de ter macacos tão especiais como mãe e pai, irmão e irmãs, cunhado e cunhada. Por ora eram apenas dois. Ela e sua caçula trilhavam solteiras a estrada da vida. Acontece! Amar não é para qualquer hora. Eis uma verdade primordial.

– Já amei, mas ou não fui correspondida, ou a distância derrotou perspectivas, ou fui enganada; enfim. Além do mais, o mundo está cada vez mais RO RO RO e os seres cada vez mais esquisitos, pensou balançando a cabeça com um ar de descontentamento. Encontrar alguém em contexto insólito é tarefa árdua. Deparar-se com animais de bom caráter e disponíveis é raridade. O importante é o amor que trazemos por dentro. O resto é pura sorte ou coincidência. Quem sabe um dia? Não vou me preocupar com isso agora. Tenho assuntos a resolver, mais urgentes e que dependem só de mim.

Foi quando avistou o seu galho, o predileto, aproximou-se dele, bateu as patas traseiras no ar antes de pisar a madeira, subindoacomodou-se, olhou para o céu, enxergou a lua e sossegou o pensamento. – Amanhã é outro dia. Independente da escolha que farei, o maior valor está na força de vontade. O talento não serve para muita coisa se não estiver acompanhado de muita força de vontade. Portanto macaca, dê o seu passo, tenha ele a direção que tiver, com a certeza de que está munida de ambos os quesitos. A modéstia que permaneça à parte sim senhora. Todas as suas conquistas são frutos do trabalho, da garra e da determinação. Há apenas um porém. Não vacile quando encontrar a sua resposta. Siga em frente porque nada precisa ser definitivo, mas oportunidades não vão e vêm. Como diz o ditado, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

Pra rua me levar

Posted setembro 13, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Diga-me com quem anda...

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divã

Choveu o dia inteiro em Florianópolis. Tempo de transformação na Ilha. A primavera começa a ensaiar alguns de seus toques. Eis a sua hora! Ela vem chegando aos poucos, devagar. Mostra-se em pequenos momentos do dia e da noite. Eu gosto! Todas as estações do ano me fazem bem, mas a primavera tem um tanto de especial: momento gracioso, delicado, exuberante, colorido!

Independente de preocupações frente a tudo o que houve de trágico no ano passado em Santa Catarina, ocorreu um fato inesperado. Minha mãe me convidou para assistir Divã, MARAVILHOSO!  O longa metragem dirigido por José Alvarenga Jr e baseado em obra literária de Martha Medeiros é sensacional! EXCELENTE! Acho incrível o que vejo no povo brasileiro: força, carisma, criatividade e bom humor em tudo o que faz. O poder de transformação que temos é singular e apaixonante. O enredo do filme é simples, porém carregado de verdades que apenas com o passo certo nós conseguimos enxergar: na vida absolutamente TUDO é transitório.

Lilia Cabral – uma das grandes atrizes que temos – está perfeita no papel de Mercedes, a protagonista.  Um dos poréns deste todo de qualidade,  (que me pegou desprevenida), foi a canção Pra rua me levar, música de Ana Carolina e Totonho Villeroy. Lembro-me do dia em que uma pessoa querida para mim, mas que passou sem deixar rastro pela minha vida, entregou-me o CD gravado por Ana Carolina e Seu Jorge, o qual trazia no repertório esta canção, Pra rua me levar. Deu-me de presente de aniversário de 30 anos. Um dos propósitos dela foi o de me apresentar a música, já que eu estava em uma fase de transição, de reencontro comigo mesma.

Hoje, ao assistir ao filme – foi inevitável –, eu trouxe a minha memória a Erika. Tenho a certeza de que ela jamais lerá as palavras que deixo aqui. De todo modo, já que me vejo mais uma vez em uma fase de transição – ainda não entrarei em detalhes  –, faço questão de registrar no blog o meu muito obrigada a Erika, por ter me entregado de forma carinhosa uma mensagem representativa, e a minha alegria por ter tomado a decisão mais clara e bonita da minha trajetória. Vou ao encontro do que eu mais quero.

O que vai acontecer? No que isso vai dar? Não sei. Acho que quando escolhemos um caminho abdicamos de outro. A maturidade está no abrir mão das garantias. Não existem certezas, apenas oportunidades. Sinto medo sim. Não sei se conquistarei o meu espaço e o que pretendo por meio da escolha que fiz. Tudo o que tenho e levarei comigo é a minha coragem e persistência. Andale Macaca! Vai com tudo…

para que haja mudança, precisamos dar o primeiro passo.

É isso!

Pra Rua Me Levar

Ana Carolina / Totonho Villeroy

Não vou viver como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
Às vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você

É… mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você…

O Todo Poderoso blábláblá

Posted setembro 10, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Palavreando

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(A macaca e o quadrilátero da esquisitice)

monkey.laptop2Aonde, afinal de contas, leva o blábláblá? Quem já reparou no quanto as pessoas adoram blábláblázear feito lunáticas sem dizer coisa com coisa? Acreditam que estão a se comunicar, defendem argumentos, dissertam sobre cada mínimo detalhe de situações diversas, dando assim, sequência ao infinito e poderoso falatório. Chegam, com tamanha verborragia, a fim de linha com conclusão satisfatória? Não. Conduzem-se por caminho fértil após desembarque interminável (barbaridade) de sabe-se quantas palavras? Não. Aproximam-se de um entendimento? Não. Constroem plano estratégico que objetive o seu cotidiano de forma a alcançar o que pretendem, ou pensam que, encerrado o exercício desenfreado? Não. Isso é salutar? Pelamordedeus!

Manter o cérebro em atividade sedentária causa sérios danos aos miolos. Blábláblás geram flacidez mental, dizem os especialistas. A língua, no entanto, chega à beira do divino, tamanha a perfeição do fio. Afirmam inclusive, que com anos de prática do famigerado blá, o músculo passa a riscar feito lâmina japonesa. A macaca se esforça para entender o porquê da satisfação humana em ter uma língua enxuta e, em contrapartida, um cérebro molenga. Ela definitivamente não encontra respaldo em bibliografia de qualidade sã. Fato é que o homo sapiens sapiens  insiste na repetição do tal método por descomunal número de vezes, dias, meses, décadas.

– Considero incompreensível o desgaste de energia inútil. Como podem soltar tanto as suas línguas sem intervalo nemamazon_monkey2 mesmo para uma banana? Se as discussões surtissem efeito positivo na vida ampla, bela e direta, mas não. Ocorre exatamente o oposto. Quem saberia me dizer: o mundo foi sempre assim ou deu surto generalizado na humanidade?

Dizem por aí que quem tagarela sem parar é a mulher. – Mentira. Hoje ouvi som articulado saindo de boca masculina por horas. Humpf. A criatura aqueceu motor, entrou em ritmo de conversação e tocou ficha: blábláblá, blábláblá, blábláblá. Não menos desconjuntada, e crente que estava coberta pela luz da razão – eles sempre tomam postura empertigada para dar ao drama veracidade –, a mulher entrou em cena para terminar de descarrilhar o trem. Matraqueavam de tal forma que a impressão é de que nutriam prazer orgásmico pelo ato. No fundo, ouviam um ao outro sem escutar uma palavra sequer.

blá1Blábláblá sobre despesas – sejam domésticas ou acumuladas pelo vício de consumo desgovernado –; sobre a falta de sal no feijão; a lâmpada que alguém teima em deixar acesa na sala; a pouca demonstração de afeto, pois um se dedica mais ao outro e isso não é justo; a cara amarrada que um faz quando o outro comenta sobre o modo como o carro está estacionado; a dúvida sobre a real intenção de beltrano caso não retribua a um sorriso; os pingos que não foram colocados nos is no dia tal do ano y; a desconsideração de um por não entender a atitude do outro: ­“Eu sempre faço o melhor, sempre estou aqui para tudo o que você precisa e isso nunca parece ser o bastante, jamais será, não é mesmo?”, resmunga uma das partes. O embate cansativo surge do nada e termina em coisa alguma. Impressionante!

– De onde vem a capacidade de disparar frases a torto e a direito? A macaca coça a penugem macia das fuças e decidemacacada2 entregar os pontos. Arre, cansei! A vida é simples, por mais que doa. Que nexo existe na perda de tempo quando é óbvio que se está a andar em círculo? Não se chega a canto qualquer com cobranças, pitacos, lamúrias, comparações, apontamentos do que é ser ideal e blábláblá. A miséria das pessoas está na insatisfação perene. O melhor para o ser humano tem referência em ponto de vista mirrado por ele tomar como certo a concepção individual. “Já que EU sou assim, todos devem ser, ora, que maneira de conduzir as coisas poderia ser mais adequada e inteligente?” Ô prepotência! De que parte da cuca brotam tais sandices? Não faço a mínima!

Há blábláblás entre homens e mulheres, crianças e adultos, pais e filhos, amigos consomem vitalidade agarrados ao blábláblá, equipes trabalham no vira e mexe do dito cujo e o troço não cessa. A profusão de cacarejos chega às raias da loucura, absorvendo de tal modo a mente que palavras inflamadas começaram a pipocar da “comunicativa” rotina desta gente maluca: filho da puta, vaca, cretino, tomar no cú, veado, o caralho que te carregue, é a puta que pariu, entre outras não menos criativas.

bla– Ahahahahahahahahaha!!! Eu me divirto! Que seres tragicômicos. Ninguém merece! Está muito bem que falta de vergonha na cara e de caráter de alguns merece o despejo de tais filhotes, há uma penca de vadias e calhordas espalhados pelos sete continentes. O excesso de bombardeio, entretanto, expõe as relações a fungos e bactérias altamente prejudiciais. Estraga!

Não há cristo que explique o modus vivendi de humanos. Depois não entendem o porquê de viverem pendurando o bico. Ninguém arrasta o beiço hora sim hora não se traz consigo maior leveza, ou seja, se não leva tudo à ponta de faca. Do que adianta se levar tão a sério? Quem é exemplo de vida para os outros? – O ser que eu sou é modelo para mim, não para o mundo. Eu não tenho que tomar a minha postura frente à realidade como base para o comportamento alheio. Com que direito? A macaca repete balançando a cabeça. – Ts ts ts, quanta desordem! Isso é que eu chamo de cegueira. Cada um dá o que tem. Alimentar a ilusão de que os outros agirão de acordo com determinada expectativa é fechar os olhos para a diversidade, é não se permitir conviver, é perder a oportunidade de trocar, de amadurecer, de ir além.

Os temperos que faltam ao ser humano são o respeito, a confiança e o limite. As pessoas não têm limite algum. Invadem o bla3espaço umas das outras com assustadora facilidade. Expandem-se demais em lugar que não lhes pertence. Ao se deixarem levar pelo ímpeto do poder e da garantia (estes os quais precisariam abrir mão ao se relacionar), acreditam que se apossam do outro, que possuem o controle sobre a sua vida, os seus pensamentos, as suas ações. Em meio a esta crença irracional, elas se perdem e se frustram.

Enquanto não conquistarem os pré-requisitos citados no início do parágrafo anterior – e olha que já estão sobre a face da Terra há milhares de anos –, não alcançarão a liberdade. Até lá, haja saúde para agüentar o degenerativo blábláblá.

De repente, um estribilho. Zuuuuuuuuuuuuum, crec, crec. Alguém se aproximava da Grande Árvore. A macaca virou bruscamente o corpanzil de encontro ao tronco e subiu em disparada para o galho mais alto. – Que barulho foi este? indagou a símea. O sol caía quente sobre o horizonte, incendiando a savana com brilhantes tons alaranjados. Por um instante, ela se viu confusa. Não sabia se apreciava o entardecer ou se reservava atenção ao movimento que vinha de baixo. O romper dos passos sobre o capim seco quebrava a mata fina, crec, crec, crec. A platéia macacal ocupou pontos estratégicos da Grande Árvore com o objetivo de vasculhar o solo com os olhos. As vozes que acompanhavam os estalos foram tomando, a cada minuto, mais vigor, até que se mostraram claras, estridentes, irritantes: “Blábláblá, blábláblá, blábláblá.”

macaco.lindo– Ai, meus sais! sentenciou a macaca. Lá vem uma dupla de humanos de regresso para o alojamento. Ser1: “Foi você quem começou. Eu estava quieto no meu canto.” Ser2: “Eu? Tá maluco? Alucinou? Porra, eu repito tantas vezes a mesma coisa e pareço estar sempre falando sozinha. Você não tem jeito mesmo.” …

A macacada logo dispersou. Em questão de segundos, a bicharada estava aglutinada próxima à macaca. Pareciam absortos em rastro de luz, calor e espetacular show da natureza. Sentada na ponta de um belo galho, ela exclamou. – Ai ai, que maravilha! Eu é que sou feliz, e esperta, claro! (continua…)