Uma História da Mama

Posted Outubro 19, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Publicações

Eu escrevi o texto abaixo para o livro Uma História da Mama, lançado pela Da Barca Casa Editorial no dia 16 de outubro de 2009, durante o XV Congresso Nacional de Mastologia, realizado em Gramado, Rio Grande do Sul. Com a autorização do editor, disponibilizo no meu blog o trecho a seguir.

Vénus no Espelho, TicianoAbundantes, fecundas, fartas, férteis, as mamas não são apenas glândulas cujas características mais evidentes são as de identificar a mulher e propiciar o desenvolvimento sadio de seus descendentes. A simbologia dos seios femininos é tão forte que a palavra mama deu origem ao verbo amamentar – o princípio básico da alimentação – e ao adjetivo mamífero, designativo da classe de animais que inclui a espécie humana. Apelidadas por especialistas de “árvores da vida” (o interior da glândula assemelha-se a uma árvore), as mamas permeiam a história da humanidade. A força iconográfica das mamas humanas se manifesta em todos os âmbitos da sociedade: nas ciências, nas religiões, nas artes, na cultura de mercado e na exploração do corpo feminino em busca de respostas sobre a origem da vida.

De acordo com cientistas e historiadores, a ausência de fósseis de seios dificulta a identificação de quando e como surgiram e se transformaram, ao longo das eras, no que são hoje. Teorias foram criadas com base na evolução da espécie e no poder sexual que as mamas possuem. Algumas indicam que após o homem se tornar bípede o seu corpo passou por uma série de modificações; o feminino afinou, desenvolveu curvas e a necessidade de um espaço frontal para a manutenção do aleitamento e da atração do sexo oposto resultou no aparecimento dos seios.

O desejo e a curiosidade do homem pelas mamas remonta à pré-história. A representação mais antiga de um ser venus_von_willendorfhumano está retratada no corpo de uma mulher com tetas fartas. A Vênus de Willendorf, uma estatueta do paleolítico datada de 24.000 a.C., foi encontrada durante escavações na Áustria pelo arqueólogo Josef Szombathy nos primeiros anos do século XX. Ele a descreveu da seguinte forma:

“A escultura representa uma mulher gorda, inchada, com grandes glândulas mamárias, uma barriga saliente, cadeiras e coxas grossas (…) Os lábia minora estão claramente indicados (…) Toda figura mostra que o artista possuía um excelente domínio da forma humana e que ele, deliberadamente, enfatizou as partes referentes à função reprodutora”.

Esculpida em calcário, a escultura mais antiga feita por mãos humanas possui 11 centímetros de altura, é um retrato idealizado da figura feminina e suas formas voluptuosas guardam profunda relação com o conceito de fertilidade. Embora tenha sido a primeira evidência da era pré-histórica descoberta em escavações arqueológicas, não é a única. Cerca de 40 mil pequenas estatuetas semelhantes foram encontradas em escavações realizadas na Europa, no Oriente Médio, na África e na América Central.

deuses_egipciosNo Antigo Egito, a imagem da Deusa Nut (a personificação da abóbada celeste despida e arqueada sobre o Deus Geb, a personificação da Terra) era representada pelo corpo alongado de uma mulher coberto por estrelas. Dizia-se que o leite que escorria de seus seios, o qual formou a Via Láctea, fertilizava o solo. O desenho de Nut – “deusa do céu que acolhe os mortos no seu império” – foi encontrado em sarcófagos de faraós de dinastias como a de Tutankhamon. As crenças funerárias egípcias associavam a deusa ao conceito de ressurreição: o morto transformava-se em estrela no interior do corpo de Nut. Segundo a mitologia, o Deus Rá, principal divindade egípcia, viajava pelo corpo da deusa durante a noite engolindo estrelas que posteriormente acenderiam o céu, renascendo em Nut.

Em cerca de 2.000 a.C., onde hoje se localiza a Palestina, Hebat era adorada como a Grande Deusa, a Mãe Sol, o símbolo supremo da fertilidade, da beleza e da realeza. Artefatos e documentos da época descrevem Hebat como uma mulher de corpo belíssimo, cujos seios eram arredondados e rijos. A imagem de Hebat carrega um bebê, o qual alimenta e acolhe em seus braços. Para os povos da região, o recém-nascido representava a esperada “criança das luzes”.

Na Grécia mecênica, por volta do século IV a.C., Kourotrophos – que significa “aquela que cuida das crianças” – foi kourotrophos_6 a.ceternizada pelas mãos de artistas da época. Peças como esculturas, vasos e estelas funerárias representam a divindade conhecida como a Deusa Mãe da mitologia grega, a mulher responsável por alimentar, proteger e educar infantes até que eles estivessem preparados para os rituais de iniciação. O arqueólogo Ross Holloway batizou de Night um dos maiores exemplares de Kourotrophos, que se encontra no Paolo Orsi Museum, em Siracusa, na Itália. De acordo com Holloway, a escultura retrata a divindade amamentando e cobrindo com o seu manto os irmãos gêmeos Sleep and Death (Hypnos and Thanatos), que quando jovens carregarão o cadáver de Sarpedon, em Ilíada 16.

Para os gregos, a Via Láctea surgiu do leite que escorreu dos seios de Hera, esposa de Zeus, enquanto ela alimentava Hércules, um dos ícones de sua mitologia. Para que Hércules se tornasse imortal, ele deveria ser amamentado por Hera. Dizia-se que Hermes, filho de Zeus com Maia, conduzira Hércules aos seios de Hera enquanto ela dormia para que o bebê pudesse adquirir a imortalidade. Outra figura grega emblemática é a Vênus de Milo, escultura cuja autoria é atribuída a Alexandros de Antioquia. A estátua de uma mulher com o dorso nu e os seios perfeitos, uma das mais conhecidas do mundo, pertence ao período helenístico (século IV a século I a.C.), possui dois metros de altura e simboliza a feminilidade. A Vênus, representação de Afrodite, a deusa do amor e da beleza, está exposta no Museu do Louvre, em Paris.

A verdade revelada pelo tempoAs mamas humanas projetam no imaginário coletivo sensações as mais diversas. São capazes de provocar em ambos os sexos sentimentos como desejo, beleza, confiança, paz, inveja, amor, responsabilidade, paixão, esperança e cuidado. O ser feminino é complexo e dinâmico. Ser mulher significa ser capaz de cuidar, de gerar, de esperar, de educar, de dar e de sentir prazer. Da concepção ao nascimento, da amamentação à atração sexual, os seios trazem consigo a força, o orgulho, o poder, a conquista, a vitória feminina.

Dentro dessa perspectiva, Giambattista Tiepolo, um dos mestres do barroco italiano, pintou no século XVIII A Verdade Revelada pelo Tempo. No quadro, a verdade é revelada por uma mulher cujos seios estão desnudos. O italiano Torquato Tasso (século XVI), um dos mais célebres poetas da literatura universal – comparado a Homero, Virgílio e Dante –, autor do clássico Jerusalém Libertada (1851), relatou que mães, esposas e amantes gaulesas costumavam comparecer aos campos de batalha para exibirem os seios a fim de transmitirem aos seus homens força e confiança para a luta que travariam contra os invasores.

Ferdinand Victor E. Delacroix, representante do romantismo francês no século XIX, exprime, em sua obra A A Liberdade Guiando o PovoLiberdade Guiando o Povo, firmeza, contundência e obstinação. Na tela, estes sentimentos estão retratados na imagem de uma mulher (a Liberdade) com os peitos de fora carregando a bandeira da França e incutindo nos soldados a coragem para enfrentar o inimigo e vencer a batalha. Considerada a primeira obra política da pintura moderna, o quadro celebra a revolução que levou à queda de Carlos X.

Entre as pinturas sacras e as renascentistas, inúmeras trazem mulheres de seios nus amamentando os filhos. A condição primaz da mulher revela-se por inteiro em obras-primas das artes plásticas como A Madona Litta, de Leonardo da Vinci; A Virgem Amamentando o Menino e São João Batista Criança em Adoração, de Giampietrino (século XVI); O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticceli (século XV); The Melun Diptych, de Jean Fouquet (século XV) e em tantas outras de autores desconhecidos datadas dos séculos X e XI.

sonho pablo picasso_1932Objetos do desejo masculino, os seios instigam também o erótico, a fantasia, o êxtase associado ao corpo feminino. A sexualidade é fator inerente às mamas, uma realidade inseparável de sua existência e evolução. Na tela O Sonho (1932), da fase cubista de Pablo Picasso, o artista extravasa seu fascínio pelo corpo da mulher e gosto pelo sexo. A obra foi produzida com o objetivo de proporcionar no espectador o gozo visual. A dama retratada, Marie-Thérèse Walter, uma das amantes do pintor, toca seu púbis e, de olhos fechados, masturba-se. Picasso revela de forma sensual a mama da mulher endurecida, imagem própria de um ato de sexo e erotismo explícito.

A quebra de paradigmas proposta por Picasso é reflexo de uma nova era. Questionamentos referentes à figura da mulher ocorriam na Europa, nas Américas do Norte e do Sul e na Ásia. O momento histórico sugeria a abertura sexual, a quebra de tabus e a redefinição do papel feminino na sociedade. Obras como a de Picasso impulsionaram a revolução sexual e alguns dos movimentos vanguardistas da década de 1960.

Simone de Beauvoir, escritora, ensaísta e uma das principais precursoras do feminismo, desconstruiu a ideia Anita Ekbergpreconcebida da mulher presa a uma trajetória única, a de ser mãe e esposa. Em sua obra O Segundo Sexo (1949), um dos marcos da época, Simone se posiciona contra o puritanismo e o maternalismo do pós-guerra, opondo-se ao determinismo biológico e esclarecendo que a mulher não deveria estar amarrada a nada, a não ser a si mesma, como sujeito social autônomo, capaz e independente. “A mulher tem o direito de decidir sobre a sua vida. O seu corpo é um território livre.”

Em meio ao turbilhão de impressões e incitações, o dia 7 de setembro de 1968 foi marcado pelo Bra-Burning, a Queima dos Sutiãs. Centenas de ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement) se reuniram em Atlanta (USA), em frente ao Atlantic City Convention Hall, para protestar contra a eleição da Miss América, Jordi Ford, que ocorria dentro do prédio. As ativistas gritavam do lado de fora, reunindo em uma lata de lixo todos os objetos considerados ideais para que uma mulher obtivesse status de beleza: cílios postiços, maquiagens, revistas femininas, espartilhos, cintas, sapatos de salto alto e sutiãs. A despeito do nome pelo qual o ato ficou conhecido, a queima, na verdade, não chegou a ocorrer, devido à proibição da prefeitura por razões de segurança. O episódio, contudo, entrou para a história como o grande marco do movimento feminista. Para aquelas mulheres, a “queima dos sutiãs” representou a conquista da liberdade perante o modelo vigente. O homem era o ser público e a mulher, o cerne do lar. A expressão seio da família tem esta conotação.

gisele_bundchen_seiosNa história da humanidade, há uma profusão de mitos, lendas e causos populares envolvendo os úberes femininos. Alguns documentos revelam inclusive a influência feminina na prática política e social de vilarejos orientais. Escrituras do século XII descrevem o estado de Karnataka, situado no sul da Índia, como um espaço onde as vilas eram administradas por mulheres. Elas lideravam também instituições religiosas.

De acordo com a historiadora Jyotsna Kamat (Universidade de Karnataka), as mulheres gozavam de direitos que até há bem pouco tempo eram reservados aos homens nas sociedades ocidentais e orientais. Na Índia, diz-se que Krishna foi alimentado por Putana, uma Rakshasi (demônio feminino). Kamsa, o tio demônio do Deus Krishna, solicitou a Putana, que tinha o poder de assumir a forma de qualquer ser, que envenenasse Krishna. Ela assumiu o disfarce de Gopikaa, que significa ama-de-leite, entrou na casa de Krishna e o amamentou com o seu leite envenenado. O Deus, mesmo ainda bebê, soube reconhecer a Rakshasi e sugou tão forte o seu seio que junto com o leite extraiu a vida de Putana.

Por todo o planeta há registros das mamas como um símbolo da cultura e da identidade dos povos. Jean Baptiste retrato de índia_Jean-Baptista Debret (1768-1848)Debret, pintor francês que integrou a Missão Artística Francesa ao Brasil (1816), realizada a pedido de Dom João VI, destaca em sua obra Retrato de Índia a suntuosidade dos seios nus de uma nativa jovem e bela. O Brasil Colônia está repleto de telas, desenhos e descrições do esplendor das mamas sempre à mostra das índias e do impacto que sua imagem causava nos europeus que desembarcavam no Novo Mundo.

Exemplos significativos da presença das mamas na história das artes podem ser destacados em qualquer cultura. Tsukioka Yoshitoshi, um dos grandes mestres do Ukiyo-e, um gênero de arte que une xilogravura e pintura japonesa do século XIX, apresenta em sua obra várias cenas de mulheres com os seios nus sempre sensuais e delicados. Na peça Kayuso Kaei Nenkan Kakoimono no Fuzoku (A Aparência de Uma Concubina da Era Kaei), o artista revela os seios da dama com primor de detalhes. Destacam-se em meio a cores fortes o quase branco da pele da mulher e o rosa que define com minúcia as auréolas de suas mamas.

yoruba_womanNa arte Yorùbá, uma cultura milenar africana – a etnia Yorùbá habita a Nigéria, na África Ocidental –, a representação de mulheres com as mamas expostas nos rituais e no cotidiano local pode ser vista em inúmeras peças de artesanato. A fertilidade está diretamente associada à mulher, um dos símbolos da vida para este povo. Nanã é a irunmole (orixá no Brasil) que entregou a Oxalá a lama, material com o qual o ancestral, que se tornou divino após a morte, criou o homem. Nanã é o irunmole feminino das águas das chuvas, dos pântanos e da morte. Iemanjá, um dos irunmoles mais conhecidos do mundo, é feminino e representa os lagos, os mares e a fertilidade. Iemanjá é a mãe de todos os irunmoles da mitologia Yorùbá.

A cultura Yorùbá tem forte influência sobre a cultura de países como República de Benin, Togo, Costa do Marfim, Haiti, Bahamas, Porto Rico, Estados Unidos, El Salvador, Reino Unido e Brasil. A ligação histórica tem início com a chegada dos escravos neste País. Das culturas africanas existentes no Brasil, a Yorùbá é a que mais influenciou o povo.

A América Latina também é cenário de mitos e lendas relacionados às mamas. O folclore Difunta Correa_Marcelo Sola Argentinaargentino traz desde o século XIX a história da Difunta Correa, adorada como santa pela população da região de Vallecito, um vilarejo localizado a 1.160 quilômetros de Buenos Aires. Na cidadezinha construída ao pé da Cordilheira dos Andes, María Antonia Deolinda Correa vivia como uma mulher simples, considerada um exemplo de esposa e de mãe. “Se hizo carne en ella como una profecía la que después fuera la admirable definición de Sarmiento: ‘La madre es para el hombre la personificación de la providencia’.”

Entre os anos de 1840 e 1850, contudo, seu marido foi obrigado a entrar para o exército. Sem opção, Deolinda decidiu partir de Vallecito em direção a San Juan, situada a 63 quilômetros da vila, na esperança de encontrá-lo. Levou consigo guarnições, que supôs serem o suficiente para a longa jornada, e seu filho. “Para que entre las gentes quedara como ejemplo de amor de esposa y madre, Deolinda Correa iniciaba por fidelidad al amor, su viaje al infinito Amor y a la leyenda”. Enganou-se. Após percorrer a pé boa parte do caminho, o alimento e a água acabaram e Deolinda, exaurida e famélica, morreu sob o sol escaldante do deserto San Juanino. Reza a lenda que quando seu corpo foi finalmente encontrado, muitos dias depois, ele estava em uma posição capaz de proteger o bebê de tal maneira que ele teria condições de mamar e se nutrir enquanto houvesse leite para sugar da mãe já sem vida. Existe na região de San Juan um santuário erguido em homenagem à Difunta Correa, visitado por milhares de peregrinos todos os anos.

Fantasia das Amazonas_Roland Steverson capa da lista telef do Amazonas 1989Na Amazônia, a lenda das Icamiabas (que significa “mulheres sem homens” ou “escondidas dos homens”) ronda o imaginário coletivo não somente dos povos do Norte do Brasil. A história gera fascínio e entusiasmo mesmo em pessoas de países longínquos. Embora não haja registro de sua existência, ainda há quem percorra a região entre os rios Tapajós, Trombetas e Jamundá em busca de respostas. O mito ganhou proporções imensas e se manifesta em versões diversas. A lenda é uma das mais completas formas de expressão da fertilidade, feminilidade e sexualidade feminina.

As Icamiabas são descritas como mulheres lindíssimas, donas de corpos fortes, morenos e sensuais, com curvas bem delineadas e seios deslumbrantes e imponentes, capazes de provocar arrebatamento em quem as vislumbrasse. Por viverem em contato direto com a natureza, livres, as Icamiabas ignoravam qualquer regra moral, passando a maior parte do tempo nuas. Tal detalhe estimula nos homens o desejo e a fantasia de encontrá-las, sentir os seus seios, possuí-las.

Diz-se que estas mulheres guerreiras e destemidas habitaram, há cerca de 600 anos, uma região próxima à cabeceira do Rio Jamundá. Viviam completamente isoladas dos homens e em certas épocas do ano celebravam a sua vitória sobre o sexo oposto nas margens do lago sagrado Yaci Uarua (Espelho da Lua). Após o cair da noite, quando a lua se debruçava sobre o espelho d’água, as Icamiabas mergulhavam nas águas em ritual de purificação e chamavam pela mãe do Muiraquitã, a Grande Mãe. Era ela quem entregava a cada uma das mulheres a pedra de cor verde (jade), o Muiraquitã, o talismã de proteção material e espiritual das guerreiras.

(…)

Pedaço de mim

Posted Outubro 2, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Diga-me com quem anda...

* Para Yamara e Cláudio (MEUS pais).

cambará9Um dos filmes mais importantes da minha vida se chama Cinema Paradiso. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que o assisti pela primeira vez. Minha mãe me pegou pela mão – a mim e aos meus irmãos –, éramos pequenos, e nos levou para o cinema. Ela sempre teve o hábito de nos apresentar ao mundo e foi sempre uma aventura inenarrável conhecê-lo pelas suas mãos. Considero tal experiência um privilégio! Obrigada minha estrela, por ter colocado tanto brilho em minha vida com o seu sorriso e a sua força. Eu te amo!

O longa-metragem italiano, lançado em 1988, dirigido por Giuseppe Tornatore e com trilha sonora composta por Ennio Morricone, deixou em mim uma marca eterna. O tempo é implacável, a hora é agora. Nossos laços, todavia, são para sempre. Mamãe repete: “Filha amada, a única coisa eterna, na vida, são os vínculos que construímos no decorrer de nossa história.”

Cinema Paradiso fala exatamente sobre a ligação forte que pode existir entre as pessoas, a qual se solidifica conforme cada um rega o seu jardim. Não há o que dure se não for bem cuidado, tratado com amor, alimentado com respeito e instigado pela atenção genuína. O meu pai também me ensinou um bocado sobre a simplicidade, a integridade e a entrega. Eu também te amo!

Como vou viver no mundo? Sou absolutamente movida pela força do amor. Respondo a tal pergunta com orgulho: viverei para ser, para amar e para me abrir a cada passo um pouco mais.  Amar não significa negar a realidade.  Muito pelo contrário, pois o sentimento tem o poder indiscutível de abraçá-la com firmeza. Agradeço aos meus pais pela luz que carrego por dentro. Homenageio os dois com ela – e não poderia ser diferente –, a música tema de Cinema Paradiso.

Deram-me raízes e asas quando nasci. E vivo assim, a renascer…Raízes que sustentam o meu pouso, a minha morada, o carol16meu canto, a minha casa. Sei que sempre estarão lá. Asas que me levam para longe a abrir o coração curioso, largo, solto, faminto de mundo, caminhos, ideias abstratas do desconhecido. Suponho que o concreto se faz de mim aos poucos, absorto, acordado, predisposto. O que encontro é fatia desta liberdade cativante que desembarca em meu olhar e repousa em minha vontade de estar junto de mim acompanhada.

Reflexões

Posted Setembro 27, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Palavreando

Macaca editadaHá muito tempo não via luar como aquele. Movimentava-se entusiasmada com a sensação gostosa de soltura que o banho lhe proporcionava. O rio se ampliava à luz da lua, cheia de uma primavera que insidia ardente. Nada a faria parar. Eram mãos e pernas a tomar as águas com a frescura de seu corpo macio e arredondado…

– Eu adoro este lugar. Como é lindo!, exclamou a macaca. A ilha possuía belezas singulares: montanhas, verdes de tonalidades mil, rochas encravadas entre céu, costões e a imensidão azul do mar, praias de areias claras a brotar aqui e ali. – Viver próxima a tanto é um privilégio para poucos! A maioria dos seres reside em locais turbulentos, degradados e estressantes. Eu não. Pelo menos por enquanto. A bichana continuava angustiada pela dúvida que residia em seu peito há alguns pares de meses. – Tenho pensado em me mudar para uma grande floresta, destas esculpidas pela mão do homem, onde árvores de plantio secundário se amontoam junto a uma terra cuja composição nutritiva já não se faz presente há décadas. Não tem sido fácil decidir. Sinto-me dividida entre as oportunidades que lá existem e a qualidade de vida que conquistei neste pedaço de paraíso. Splach splach, chacoalhava-se à beira-d’água ainda em estado de graça com os sabores que o momento havia lhe concedido da epiderme à corrente sangüínea.

– E agora? O mais difícil na vida não é a constatação de determinadas coisas. Comprovar é tomar para si o resultado do macaco artísticodesenrolar das histórias. Perceber é se manter atento aos passos dados, um de cada vez. A macaca estava prestes a tomar novo rumo na vida. Enxergava o caminho a seguir de forma tão clara que até a ela causava espanto tamanha transparência. Uuuuuummffff…suspirava enquanto a pele era tomada por uma efervescente rajada de arrepios. – Cheguei ao ponto que muitos chamam de encruzilhada ou momento exato em que a trilha se divide. Posso definir sem pestanejar que me encontro na fase X da questão. De agora em diante, ou vai ou racha. Tenho uma escolha a fazer. A boa notícia é que conheço meu potencial, minha qualidade simiesca e minha necessidade de estruturar um plano estratégico sólido. A dúvida se instala nas perguntas que me consomem no decorrer do trajeto: chegarei aonde quero ficando? Há meios de vencer habitando um ecossistema cujo mercado de bananas é incipiente? Preciso avaliar, ponderou a símea enquanto se esfregava no tronco de árvores vizinhas. Passeou pelo entorno em direção a sua casa. Respingos marcavam o seu rastro sobre a relva.

– O que valerá mais a pena? Devo buscar conselhos de macacos velhos. Pensei que já tivesse encerrado o assunto, mas vejo que não. Minhas ideias seguem trementes, noto-me aflita…arg. Como sei das experiências que quero ter mundo afora, vasculhando países, culturas e animais de espécies variadas, talvez o importante seja optar pela floresta central. O que me prende à ilha são as pessoas que eu amo, as belezas que me enchem o espírito e a qualidade de vida que este lugar me oferece. Por que escolheria viver longe do que para mim é bom? Sim, para abrir portas que me possibilitarão sair por aí a conhecer e reportar tudo o que por minhas vistas passar.

macaco1A macaca estava cansada. Fazia-se tarde, a noite rasgava as horas com a sua típica e insaciável rapidez. Findo o ritual de delícias nas águas do rio, a bicha tratou de escalar o tronco da Grande Árvore relaxadamente, pulando de galho em galho com cuidado para não acordar a macacada. No caminho, pegava-se sorrindo sem mais nem por que. Agradava-lhe a sensação de estar perto de sua família, de ter macacos tão especiais como mãe e pai, irmão e irmãs, cunhado e cunhada. Por ora eram apenas dois. Ela e sua caçula trilhavam solteiras a estrada da vida. Acontece! Amar não é para qualquer hora. Eis uma verdade primordial.

– Já amei, mas ou não fui correspondida, ou a distância derrotou perspectivas, ou fui enganada; enfim. Além do mais, o mundo está cada vez mais RO RO RO e os seres cada vez mais esquisitos, pensou balançando a cabeça com um ar de descontentamento. Encontrar alguém em contexto insólito é tarefa árdua. Deparar-se com animais de bom caráter e disponíveis é raridade. O importante é o amor que trazemos por dentro. O resto é pura sorte ou coincidência. Quem sabe um dia? Não vou me preocupar com isso agora. Tenho assuntos a resolver, mais urgentes e que dependem só de mim.

Foi quando avistou o seu galho, o predileto, aproximou-se dele, bateu as patas traseiras no ar antes de pisar a madeira, subindoacomodou-se, olhou para o céu, enxergou a lua e sossegou o pensamento. – Amanhã é outro dia. Independente da escolha que farei, o maior valor está na força de vontade. O talento não serve para muita coisa se não estiver acompanhado de muita força de vontade. Portanto macaca, dê o seu passo, tenha ele a direção que tiver, com a certeza de que está munida de ambos os quesitos. A modéstia que permaneça à parte sim senhora. Todas as suas conquistas são frutos do trabalho, da garra e da determinação. Há apenas um porém. Não vacile quando encontrar a sua resposta. Siga em frente porque nada precisa ser definitivo, mas oportunidades não vão e vêm. Como diz o ditado, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

Pra rua me levar

Posted Setembro 13, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Diga-me com quem anda...

divã

Choveu o dia inteiro em Florianópolis. Tempo de transformação na Ilha. A primavera começa a ensaiar alguns de seus toques. Eis a sua hora! Ela vem chegando aos poucos, devagar. Mostra-se em pequenos momentos do dia e da noite. Eu gosto! Todas as estações do ano me fazem bem, mas a primavera tem um tanto de especial: momento gracioso, delicado, exuberante, colorido!

Independente de preocupações frente a tudo o que houve de trágico no ano passado em Santa Catarina, ocorreu um fato inesperado. Minha mãe me convidou para assistir Divã, MARAVILHOSO!  O longa metragem dirigido por José Alvarenga Jr e baseado em obra literária de Martha Medeiros é sensacional! EXCELENTE! Acho incrível o que vejo no povo brasileiro: força, carisma, criatividade e bom humor em tudo o que faz. O poder de transformação que temos é singular e apaixonante. O enredo do filme é simples, porém carregado de verdades que apenas com o passo certo nós conseguimos enxergar: na vida absolutamente TUDO é transitório.

Lilia Cabral – uma das grandes atrizes que temos – está perfeita no papel de Mercedes, a protagonista.  Um dos poréns deste todo de qualidade,  (que me pegou desprevenida), foi a canção Pra rua me levar, música de Ana Carolina e Totonho Villeroy. Lembro-me do dia em que uma pessoa querida para mim, mas que passou sem deixar rastro pela minha vida, entregou-me o CD gravado por Ana Carolina e Seu Jorge, o qual trazia no repertório esta canção, Pra rua me levar. Deu-me de presente de aniversário de 30 anos. Um dos propósitos dela foi o de me apresentar a música, já que eu estava em uma fase de transição, de reencontro comigo mesma.

Hoje, ao assistir ao filme – foi inevitável –, eu trouxe a minha memória a Erika. Tenho a certeza de que ela jamais lerá as palavras que deixo aqui. De todo modo, já que me vejo mais uma vez em uma fase de transição – ainda não entrarei em detalhes  –, faço questão de registrar no blog o meu muito obrigada a Erika, por ter me entregado de forma carinhosa uma mensagem representativa, e a minha alegria por ter tomado a decisão mais clara e bonita da minha trajetória. Vou ao encontro do que eu mais quero.

O que vai acontecer? No que isso vai dar? Não sei. Acho que quando escolhemos um caminho abdicamos de outro. A maturidade está no abrir mão das garantias. Não existem certezas, apenas oportunidades. Sinto medo sim. Não sei se conquistarei o meu espaço e o que pretendo por meio da escolha que fiz. Tudo o que tenho e levarei comigo é a minha coragem e persistência. Andale Macaca! Vai com tudo…

para que haja mudança, precisamos dar o primeiro passo.

É isso!

Pra Rua Me Levar

Ana Carolina / Totonho Villeroy

Não vou viver como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
Às vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você

É… mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você…

O Todo Poderoso blábláblá

Posted Setembro 10, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Palavreando

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(A macaca e o quadrilátero da esquisitice)

monkey.laptop2Aonde, afinal de contas, leva o blábláblá? Quem já reparou no quanto as pessoas adoram blábláblázear feito lunáticas sem dizer coisa com coisa? Acreditam que estão a se comunicar, defendem argumentos, dissertam sobre cada mínimo detalhe de situações diversas, dando assim, sequência ao infinito e poderoso falatório. Chegam, com tamanha verborragia, a fim de linha com conclusão satisfatória? Não. Conduzem-se por caminho fértil após desembarque interminável (barbaridade) de sabe-se quantas palavras? Não. Aproximam-se de um entendimento? Não. Constroem plano estratégico que objetive o seu cotidiano de forma a alcançar o que pretendem, ou pensam que, encerrado o exercício desenfreado? Não. Isso é salutar? Pelamordedeus!

Manter o cérebro em atividade sedentária causa sérios danos aos miolos. Blábláblás geram flacidez mental, dizem os especialistas. A língua, no entanto, chega à beira do divino, tamanha a perfeição do fio. Afirmam inclusive, que com anos de prática do famigerado blá, o músculo passa a riscar feito lâmina japonesa. A macaca se esforça para entender o porquê da satisfação humana em ter uma língua enxuta e, em contrapartida, um cérebro molenga. Ela definitivamente não encontra respaldo em bibliografia de qualidade sã. Fato é que o homo sapiens sapiens  insiste na repetição do tal método por descomunal número de vezes, dias, meses, décadas.

– Considero incompreensível o desgaste de energia inútil. Como podem soltar tanto as suas línguas sem intervalo nemamazon_monkey2 mesmo para uma banana? Se as discussões surtissem efeito positivo na vida ampla, bela e direta, mas não. Ocorre exatamente o oposto. Quem saberia me dizer: o mundo foi sempre assim ou deu surto generalizado na humanidade?

Dizem por aí que quem tagarela sem parar é a mulher. – Mentira. Hoje ouvi som articulado saindo de boca masculina por horas. Humpf. A criatura aqueceu motor, entrou em ritmo de conversação e tocou ficha: blábláblá, blábláblá, blábláblá. Não menos desconjuntada, e crente que estava coberta pela luz da razão – eles sempre tomam postura empertigada para dar ao drama veracidade –, a mulher entrou em cena para terminar de descarrilhar o trem. Matraqueavam de tal forma que a impressão é de que nutriam prazer orgásmico pelo ato. No fundo, ouviam um ao outro sem escutar uma palavra sequer.

blá1Blábláblá sobre despesas – sejam domésticas ou acumuladas pelo vício de consumo desgovernado –; sobre a falta de sal no feijão; a lâmpada que alguém teima em deixar acesa na sala; a pouca demonstração de afeto, pois um se dedica mais ao outro e isso não é justo; a cara amarrada que um faz quando o outro comenta sobre o modo como o carro está estacionado; a dúvida sobre a real intenção de beltrano caso não retribua a um sorriso; os pingos que não foram colocados nos is no dia tal do ano y; a desconsideração de um por não entender a atitude do outro: ­“Eu sempre faço o melhor, sempre estou aqui para tudo o que você precisa e isso nunca parece ser o bastante, jamais será, não é mesmo?”, resmunga uma das partes. O embate cansativo surge do nada e termina em coisa alguma. Impressionante!

– De onde vem a capacidade de disparar frases a torto e a direito? A macaca coça a penugem macia das fuças e decidemacacada2 entregar os pontos. Arre, cansei! A vida é simples, por mais que doa. Que nexo existe na perda de tempo quando é óbvio que se está a andar em círculo? Não se chega a canto qualquer com cobranças, pitacos, lamúrias, comparações, apontamentos do que é ser ideal e blábláblá. A miséria das pessoas está na insatisfação perene. O melhor para o ser humano tem referência em ponto de vista mirrado por ele tomar como certo a concepção individual. “Já que EU sou assim, todos devem ser, ora, que maneira de conduzir as coisas poderia ser mais adequada e inteligente?” Ô prepotência! De que parte da cuca brotam tais sandices? Não faço a mínima!

Há blábláblás entre homens e mulheres, crianças e adultos, pais e filhos, amigos consomem vitalidade agarrados ao blábláblá, equipes trabalham no vira e mexe do dito cujo e o troço não cessa. A profusão de cacarejos chega às raias da loucura, absorvendo de tal modo a mente que palavras inflamadas começaram a pipocar da “comunicativa” rotina desta gente maluca: filho da puta, vaca, cretino, tomar no cú, veado, o caralho que te carregue, é a puta que pariu, entre outras não menos criativas.

bla– Ahahahahahahahahaha!!! Eu me divirto! Que seres tragicômicos. Ninguém merece! Está muito bem que falta de vergonha na cara e de caráter de alguns merece o despejo de tais filhotes, há uma penca de vadias e calhordas espalhados pelos sete continentes. O excesso de bombardeio, entretanto, expõe as relações a fungos e bactérias altamente prejudiciais. Estraga!

Não há cristo que explique o modus vivendi de humanos. Depois não entendem o porquê de viverem pendurando o bico. Ninguém arrasta o beiço hora sim hora não se traz consigo maior leveza, ou seja, se não leva tudo à ponta de faca. Do que adianta se levar tão a sério? Quem é exemplo de vida para os outros? – O ser que eu sou é modelo para mim, não para o mundo. Eu não tenho que tomar a minha postura frente à realidade como base para o comportamento alheio. Com que direito? A macaca repete balançando a cabeça. – Ts ts ts, quanta desordem! Isso é que eu chamo de cegueira. Cada um dá o que tem. Alimentar a ilusão de que os outros agirão de acordo com determinada expectativa é fechar os olhos para a diversidade, é não se permitir conviver, é perder a oportunidade de trocar, de amadurecer, de ir além.

Os temperos que faltam ao ser humano são o respeito, a confiança e o limite. As pessoas não têm limite algum. Invadem o bla3espaço umas das outras com assustadora facilidade. Expandem-se demais em lugar que não lhes pertence. Ao se deixarem levar pelo ímpeto do poder e da garantia (estes os quais precisariam abrir mão ao se relacionar), acreditam que se apossam do outro, que possuem o controle sobre a sua vida, os seus pensamentos, as suas ações. Em meio a esta crença irracional, elas se perdem e se frustram.

Enquanto não conquistarem os pré-requisitos citados no início do parágrafo anterior – e olha que já estão sobre a face da Terra há milhares de anos –, não alcançarão a liberdade. Até lá, haja saúde para agüentar o degenerativo blábláblá.

De repente, um estribilho. Zuuuuuuuuuuuuum, crec, crec. Alguém se aproximava da Grande Árvore. A macaca virou bruscamente o corpanzil de encontro ao tronco e subiu em disparada para o galho mais alto. – Que barulho foi este? indagou a símea. O sol caía quente sobre o horizonte, incendiando a savana com brilhantes tons alaranjados. Por um instante, ela se viu confusa. Não sabia se apreciava o entardecer ou se reservava atenção ao movimento que vinha de baixo. O romper dos passos sobre o capim seco quebrava a mata fina, crec, crec, crec. A platéia macacal ocupou pontos estratégicos da Grande Árvore com o objetivo de vasculhar o solo com os olhos. As vozes que acompanhavam os estalos foram tomando, a cada minuto, mais vigor, até que se mostraram claras, estridentes, irritantes: “Blábláblá, blábláblá, blábláblá.”

macaco.lindo– Ai, meus sais! sentenciou a macaca. Lá vem uma dupla de humanos de regresso para o alojamento. Ser1: “Foi você quem começou. Eu estava quieto no meu canto.” Ser2: “Eu? Tá maluco? Alucinou? Porra, eu repito tantas vezes a mesma coisa e pareço estar sempre falando sozinha. Você não tem jeito mesmo.” …

A macacada logo dispersou. Em questão de segundos, a bicharada estava aglutinada próxima à macaca. Pareciam absortos em rastro de luz, calor e espetacular show da natureza. Sentada na ponta de um belo galho, ela exclamou. – Ai ai, que maravilha! Eu é que sou feliz, e esperta, claro! (continua…)

A propósito…

Posted Setembro 4, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Macaca D auditório

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Adoro The Cranberries! A banda irlandesa, cuja vocalista Dolores Mary Eileen O’Riordan Burton é um elemento chave da composição perfeita que conquistou no decorrer da década de 1990, possui diversas canções de sucesso e se alcançou notoriedade foi, sem dúvida, em decorrência da sua excelente qualidade musical. O álbum To the Faithful Departed – lançado em 1996 – não é nem de perto o melhor trabalho do grupo, mas conta, a meu ver, com uma das músicas mais bonitas do The Cranberries. Chama-se When you’re gone. Escolhi, para ilustrar minha ligeira arguição, uma versão dela ao vivo, gravada durante um show realizado em Paris. Delicious!

Ps. Quero deixar registro a respeito de Fergal Patrick Lawler, o baterista da banda. O som que ele tira do instrumento também vale destaque.

When You’re Gone

The Cranberries

Hold on to love
That is what I do
Now that I’ve found you

And from above
Everything’s stinking
They’re not around you

And in the night
I could be helpless
I could be lonely
Sleeping without you

And in the day
Everything’s complex
There’s nothing simple
When I’m not around you

But I miss you when you’re gone
That is what I do
Ba, ba, baby

But its going to carry on
That is what I knew
Ba, ba, baby

Hold on to my hands
I feel like sinking
Sinking without you

And to my mind
Everything’s stinking
Stinking without you

And in the night
I could be helpless
I could be lonely
Sleeping without you

And in the day
Everything’s complex
There’s nothing simple
When I’m not around you

But I miss you when you’re gone
That is what I do
Ba, ba, baby

But its going to carry on
That is what I knew
Ba, ba, baby

When You’re Gone

The Cranberries

Hold on to love

That is what I do

Now that I’ve found you

And from above

Everything’s stinking

They’re not around you

And in the night

I could be helpless

I could be lonely

Sleeping without you

And in the day

Everything’s complex

There’s nothing simple

When I’m not around you

But, I miss you when you’re gone

That is what I do

Ba… baby

And its going to carry on

That is what I knew

Hey baby

Hold on to my hands

I feel like sinking

Sinking without you

And to my mind,

Everything’s stinking

Stinking without you

And in the night

I could be helpless

I could be lonely

Sleeping without you

And in the day

Everything’s complex

There’s nothing simple

When I’m not around you

And I miss you when you’re gone

That is what I do

Hey baby

And its going to carry on

That is what I knew

Hey, baby.

Karen Blixen

Posted Setembro 4, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Macaca D auditório

Não poderia deixar de falar de Karen Blixen sem publicar na página algumas fotos da escritora. As imagens abaixo mostram Karen na Africa entre os anos de 1914 e 1931.

karen

karen2

Out of Africa

Posted Setembro 2, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Macaca D auditório

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1Marcante, Out of Africa foi um dos grandes filmes da minha vida. Sucesso de bilheteria mundial em 1985, vencedor de 7 Oscars, entre outros prêmios de excelência da indústria cinematográfica, o longa-metragem é baseado na história real de Karen Christence von Blixen-Finecke, uma escritora dinamarquesa (1885-1962) que morou 17 anos no Kenya, África.

Seu livro Den afrikanske Farm (A Fazenda Africana) – publicado em 1937 – trouxe a público o universo de Karen por meio do relato intenso e emocionante da escritora sobre o período que viveu no continente africano. Adaptado por Hollywood, a obra ganhou nova dimensão, causando mais uma vez forte impacto em platéias de inúmeros países.

Com trilha sonora de John Barry, o filme dirigido por Sidney Pollack foi estrelado por Meryl Streep (genial, como sempre), Robert Redford e 2Klaus Maria Brandauer nos papéis principais. O motivo de eu estar aqui, contudo, tem a ver com o que me ocorreu dia desses: nunca cheguei nem perto do livro. Como pode? Passaram-se mais de 20 anos e só agora me bateu tal ideia.  Coisa maravilhoooooooooooosa  é amadurecer, deliciosa é viver, dia após dia. Bom DEMAIS! Comento, pois chegou a hora…

Vejo-me prontinha para trazê-la de longe. Do que estou falando? Da certeza de que, a partir de hoje, sairei em busca da obra. Lê-la será um prazer e uma indescritível viagem para mim (conhecer intimamente a mulher extraordinária que foi Karen e saber de sua experiência na África em pleno início do século XX. Lá ela foi feliz e quero ler com as suas palavras sobre o significado desta realidade).

Faço questão de deixar na página a minha cena predileta de Out of Africa. Absolutamente fantástica, ela dispensa comentários. AMO!

Para Fernanda e Rodrigo

Posted Julho 27, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Diga-me com quem anda...

Cheguei tarde de Brasília em domingo de céu frio, típico do inverno no sul. Em meio ao medo danado que tenho de avião, enxerguei Florianópolis do alto. Fazia tempo que não entrava num trem com asas. Adorei ver de cima a cidade iluminada…LINDA a minha ilha!

Meu espírito, entretanto, ampliava-se em compasso ainda distante. Voltei para casa faceira após dias de pura integração familiar. Estive na capital da república para o casamento de minha prima Fernanda Gonçalves Pinheiro, que agora assina: Fernanda Gonçalves Pinheiro Lara de Souza.

A Fê e o Rodrigo se casaram em cerimônia d-e-s-l-u-m-b-r-a-n-t-e! Estávamos todos lá, a espera da noiva, que entrou ao som de Eu sei que vou te amar, tocada com esmero por piano doce e saxofone robusto. Acompanhava-os uma voz delicada e cativante a pronunciar as palavras de Vinícius enquanto minha prima descia escada branca ao encontro de meu tio, que a aguardava emocianado a bons metros do altar…

muito choro, muita alegria, muito brilho. O momento foi de LUZ! Todos nós estávamos tomados pela atmosfera apaixonada de um amor que ali se apresentou para dizer que sim, seguirá a dois o caminho da construção e do fortalecimento de um elo verdadeiro. Parabéns aos noivos! Sejam MUITO felizes.

Prima amada, ao colocar os pés em chão ilhéu, pensei cá com meus botões e decidi te dar de presente um poema que escrevi em 2003 para a Clarinha quando a vi completamente apaixonada. Wow, o amooooor! Lembro-me que publiquei o rabisco no site de um amigo da faculdade. O Marcelo tinha uma página na internet Contra Ponto , a qual se mantinha aberta para textos em geral, sempre vinculados à criação e à espontaneidade.

Fê, é com muito prazer que seis anos depois eu te entrego estas linhas. Acredito que há certas palavras que não possuem espaço no tempo. Quando dissertam sobre o amor, abraçam a eternidade. Amar é estar por aí ao lado do que existe de mais vivo dentro do homem e da mulher. Te amo!

Fernanda e Rodrigo

Fernanda e Rodrigo

AMOR? AMAR!

O amor é um algo assim que eu não sei; É um tudo, um tanto, uma condição de se estar eternamente vivo; É a parte, a fatia, o conjunto deliberado de homem, mulher, gozo, reentrância, lampejos e tropeços; É a unanimidade, o trepidar de esperança, a compilação de malícia; É o começar recomeçando, a descoberta, o fazer ser, o ser para fazer; É o crescer, o maturar, o consolar de pares em trilhos de antigos passadores. Não há portas para bater, apenas a rua, comprida e larga para seguir;

O amor? Imagino eu, e anoto com a percepção que me cabe ter do pequeno grandioso, que é o tocar em êxtase a safira, o lírio e o albatroz, mesmo que não se saiba. Em súmula, nada disso dá-se como conclusão. Consta-se tão somente o ter-se em vista: o atravessar da retina espalmada pelo embalo da tal linguagem, mesma em todos os seus gestos, sentidos e filosofias; É um estar para mais do que o além, aqui ou em qualquer estância; É um apegar-se, um aconchego, um dedilhar de sândalo em carne, vísceras e fôlego; É a idéia explícita do auge, do brilho, do embevecer-se despido de nós, tranças, cancelas: é a forra!

Porque amar é o entendimento, a noção lacônica do pouco em tormento, do bocado em múltiplo e metafórico conjugar de ambos em diálogo; É um qualquer de pontos, pausas e passos num compasso circular de amparo e cadência; É a mágica, o contorno de matizes em graduação intercambial de plurais; É um deixar-se ir e vir de rasuras e sossego, de fábulas em êxodo e para isto ainda é pouco; É um abrir de olhos que só se tem quando se ama;

Tenho dito que o amor, este, de súbito derrama-se por sobre um aprender diluído em perseverança cotidiana, como quem passa a mão por dentro e vê-se maior, incólume, fértil; É um entregar-se em sintonia ao outro; É a partida, o regresso, um soltar-se inteiro num compartilhar de braços em rompante de minúsculas e maiúsculas; É a universalidade de quem e para quê; É lançar-se em desafio, colocar-se em ritmo, conduzir-se em movimento íntimo de expressão desfazendo-se das vestes vagarosamente ao sabor dos gostos, dos cheiros e da epiderme; É um estar em casa, um reparar-se bem, um contar de dias e de noites em suor lascivo de beijos, abraços, sussurros, calores e misturas onde demais nunca é o suficiente;

Para o amor, a divisão fatorial de tons em revelação deferida das palavras em cuidado; o botar-se a cabo ou rolar-se em parábola, haja cantiga ou dissonância: deixa estar; E o que vier, para lá um tanto adiante, que apareça se assim o desejar; Que seja! O amor… ah, o amor!!! Sobre ele, como eu disse, não sei. Quem souber, que se sente ao lado meu e disserte a seu respeito.

Como é grande o meu amor por você

Erasmo Carlos / Roberto Carlos

Eu tenho tanto
Prá lhe falar
Mas com palavras
Não sei dizer
Como é grande
O meu amor
Por você…

E não há nada
Prá comparar
Para poder
Lhe explicar
Como é grande
O meu amor
Por você…

Nem mesmo o céu
Nem as estrelas
Nem mesmo o mar
E o infinito
Não é maior
Que o meu amor
Nem mais bonito…

Me desespero
A procurar
Alguma forma
De lhe falar
Como é grande
O meu amor
Por você…

Nunca se esqueça
Nem um segundo
Que eu tenho o amor
Maior do mundo
Como é grande
O meu amor por você.*

Fê e Rodrigo

* A canção fez parte da cerimônia e foi impressa na capa do convite de casamento. No vídeo acima, ela é interpretada por Oswaldo Montenegro.

AMOR? AMAR!

O amor é um algo assim que eu não sei;

É um tudo, um tanto, uma condição de se estar eternamente vivo;

É a parte, a fatia, o conjunto deliberado de homem, mulher, gozo, reentrância, lampejos e tropeços;

É a unanimidade, o trepidar de esperança, a compilação de malícia;

É o começar recomeçando, a descoberta, o fazer ser, o ser para fazer;

É o crescer, o maturar, o consolar de pares em trilhos de antigos passadores. Não há portas para bater, apenas a rua, comprida e larga para seguir;

O amor? Imagino eu, e anoto com a percepção que me cabe ter do pequeno grandioso, que é o tocar em êxtase a safira, o lírio e o albatroz, mesmo que não se saiba. Em súmula, nada disso dá-se como conclusão. Consta-se tão somente o ter-se em vista: o atravessar da retina espalmada pelo embalo da tal linguagem, mesma em todos os seus gestos, sentidos e filosofias;

É um estar para mais do que o além, aqui ou em qualquer estância;

É um apegar-se, um aconchego, um dedilhar de sândalo em carne, vísceras e fôlego;

É a idéia explícita do auge, do brilho, do embevecer-se despido de nós, tranças, cancelas: é a forra!

Porque amar é o entendimento, a noção lacônica do pouco em tormento, do bocado em múltiplo e metafórico conjugar de ambos em diálogo;

É um qualquer de pontos, pausas e passos num compasso circular de amparo e cadência;

É a mágica, o contorno de matizes em graduação intercambial de plurais;

É um deixar-se ir e vir de rasuras e sossego, de fábulas em êxodo e para isto ainda é pouco;

É um abrir de olhos que só se tem quando se ama;

Tenho dito que o amor, este, de súbito derrama-se por sobre um aprender diluído em perseverança cotidiana, como quem passa a mão por dentro e vê-se maior, incólume, fértil;

É um entregar-se em sintonia ao outro;

É a partida, o regresso, um soltar-se inteiro num compartilhar de braços em rompante de minúsculas e maiúsculas;

É a universalidade de quem e para quê;

É lançar-se em desafio, colocar-se em ritmo, conduzir-se em movimento íntimo de expressão desfazendo-se das vestes vagarosamente ao sabor dos gostos, dos cheiros e da epiderme;

É um estar em casa, um reparar-se bem, um contar de dias e de noites em suor lascivo de beijos, abraços, sussurros, calores e misturas onde demais nunca é o suficiente;

Para o amor, a divisão fatorial de tons em revelação deferida das palavras em cuidado; o botar-se a cabo ou rolar-se em parábola, haja cantiga ou dissonância: deixa estar;

E o que vier, para lá um tanto adiante, que apareça se assim o desejar;

Que seja! O amor… ah, o amor!!! Sobre ele, como eu disse, não sei. Quem souber, que se sente ao lado meu e disserte a seu respeito.

Impressões

Posted Julho 20, 2009 by Carolina Pinheiro
Categories: Macaca D auditório

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monkey8Conhecer Paraty foi uma experiência inesquecível. Cheguei à cidade no dia 1º de julho à tarde e ao descer do ônibus fui tomada pela atmosfera no mínimo entusiasmada do local. O brilho do sol que ainda se mostrava simpático para as milhares de pessoas que desembarcavam de todas as partes do mundo ampliou a sensação de boas-vindas que com o passar das horas só fez crescer dentro de mim. Senti-me como um canal de comunicação ambulante pelo qual passavam informações aos borbotões em tempo integral. Não havia o S2020083que pudesse pouco inspirar os sentidos. Uaupontocompontobeérre, como diria Eliziário, meu GRANDE amigo, parceirinho de incontáveis horas de rica prosa em ritmo boêmio ou de trabalho alucinado (tec tec tec tecs os quais já devoraram centenas de páginas de word) e mentor, a quem devo muito do que hoje eu sou: macaca a plantar sementes e arar a terra. O passo número um – no meu caso o número cinco –, para se alcançar um belo, digno e grandioso sonho é cultivar o chão para colher os frutos que servirão de alimento nos dias que à frente me esperam. Há coisas que só dependem de nós nesta vida. Curiosidade, paciência e persistência nos levam do presente cru para perto de um futuro composto por fartas colheitas, repetiu diversas vezes o artesão aquele de Paraty, né guri (Eliziário)? Citei com prazer e soltura o nome do guri porque infelizmente ele não pôde me acompanhar nesta aventura FANTÁSTICA.

S2020023O lugar é simplesmente deslumbrante. Um pedaço de história construído à beira-mar. Por onde se passa se respira a cultura brasileira: o verde da Mata Atlântica, o azul da baía que encosta na cidade, o colorido do casario colonial, o cheiro das cozinhas regionais, o gosto das artes espalhado por cada pequeno canto. MUITO BOM! Viajei no tempo e vi pelas ruas imagens de nossos ancestrais a cruzar meus passos, a erguer de forma planejada Paraty. Quantas pessoas passaram por ali? Quantas deixaram um tanto de si naquele espaço? Vi-me aberta, exposta e mais observadora do que nunca. Estar só é se perceber companheira de si mesma. Não há limites para o fazer, para o seguir por caminhos quaisquer, para o decidir, para o se perder para logo se encontrar.

Durante os cinco dias da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) o ar tomou sabor de cultura. Eu esbarrava com ela o tempo todo. O que sentia era a vida a pulsar por minhas partes com força total. Conheci gente nova, bati papo com pessoas de vários tipos. Um dos momentos que me S2020033chamou a atenção foi quando estava eu sentada na boca de um dos muitos bares do Centro Histórico. Este, em particular, se localiza no largo da Praça da Matriz. De repente, um Hare Krishna se aproxima, vestido com a tradicional indumentária alaranjada, olha para mim e oferece a sua mão. – Boa noite. Disse ele com a voz aprazível dos de sua linha. – Boa noite. Respondi com olhar atento e vontade de ouvir mais. Era princípio da noite de abertura, pouco antes do show da Adriana Calcanhoto: MARAVILHOSO! Eu estava fazendo o meu lanchinho, tomando a minha cerveja e fumando um cigarro (o primogênito em terra fluminense) enquanto me dedicava à alegria de estar imersa ao burburinho das vinte e poucas horas…huuuuuuum, delícia. Pois este rapaz de nome impronunciável, por certo o de batismo Hare Krishna, veio ter comigo porque, imagino, viu em mim uma das boas opções, em campo aberto, para a transmissão da Palavra. Ele trazia nas mãos uma penca de livros, todos escritos por um dos mestres da religião. Um deles, imenso e de excelente qualidade gráfica, foi o tal que ele, com delicadeza, dispôs sobre a mesa. A partir daí o burburinho cessou e me vi absorta nas S2020043histórias de Krishna e de sua Palavra. Ocorre-me que a última vez que havia travado diálogo com um Hare Krishna foi em 1995, em Porto Alegre, no meio da rua e não me lembro dos detalhes. Gostei pacas de me ver trocando idéias e experiências com uma pessoa que se identifica como um renunciante. – O que é isso? Perguntei com alguma intuição a respeito do que estava por vir. Ele me encarou por uns segundos. Eu pensei vixi, passei a barreira do razoável. Que nada. Ele logo desabafou com gosto adocicado de orgulho. – Renunciante é aquele que abre mão da vida material em prol do desenvolvimento espiritual. Nós carregamos apenas o que nos é indispensável para a sobrevivência em nossa peregrinação. Todo o resto, bens materiais, objetos e acessórios de qualquer espécie ficam para trás.

S2020131– Sei. Será que ficam mesmo? Tenho cá as minhas dúvidas. O caminho para o desenvolvimento espiritual inclui não transar? Ensaiei a pergunta; em seguida desisti. Era capaz do Hare Krishna pensar que eu estava dando em cima dele. Do jeito que o mundo vai. Humpf. Fato é que ele estava ali para me vender alguma coisa. Embora o rapaz tenha repetido mais de uma vez que o objetivo era levar a Palavra. – Caso as pessoas aceitem doar quantias simbólicas para a manutenção do trabalho, aceitarei. Esclareceu. Vamos e venhamos que uma doação de R$ 25,00 é de grande valia, não? Com pouco mais eu poderia comprar um Dostoiévski, uma boa coleção de contos. Pela Invenção da Solidão, de Paul Auster, paguei um valor bastante próximo deste.

Contradições à parte, terminei a maratona com um livreto chamado Meditação & Supercosnciência enfiado no bolso. S2020124Terei 64 páginas que me valeram R$ 5,00 para entender melhor ou não o universo dos renunciantes. Se vou me arrepender? Pelo menos tentei.

Como disse o respeitado artesão de Paraty, curiosidade…

Né guri? Let’s exploring!

Como jornalista, percebi meu senso aguçadíssimo. Como pessoa, notei meu interior maior, mais carregado de boa bagagem.

O evento foi excepcional! Adorei! Não é à toa que a FLIP se consolidou como um dos festivais de grande expressão do mundo. Mauro Munhoz, presidente da Associação Casa Azul, uma das responsáveis pela realização da festa, descreveu com primor, em seu texto Interpretar e desenhar o mundo, a atmosfera contagiante que abraça as pessoas que participam da FLIP: “(…) pescadores, artesãos, estudantes, professores, vendedores, cozinheiros, turistas, editores, leitores e escritores se encontram e trocam experiências, trabalho, prazeres e conversas, influenciados pela linguagem, imersos em imaginação literária. (…) Por meio do olhar renovado, a literatura, razão maior da festa, é o que faz ver a realidade de maneira diferente nesses cinco dias em que o tempo parece transcorrer em outro ritmo, como nos rituais das festas populares”. Mergulhei neste universo, valeu a pena e pretendo repetir a dose.

S2020047Das 19 mesas que ocorreram na Tenda dos Autores, os expectadores puderam optar por assistir às conferências ao vivo ou na Tenda do Telão, três me levaram ao êxtase. Todas (das que estive presente), com exceção da Conferência de Abertura, alimentaram-me os miolos: biscoitos macacais da melhor qualidade. Três, como eu disse, deram brilho aos meus olhos. China no Divã (Mesa 4) trouxe dois excelentes jornalistas chineses, Ma Jian e Xinran. Ambos deram depoimentos emocionantes sobre a China de Mao Tsé-Tung, a Revolução Cultural e as transformações arrebatadoras pelas quais aquele país tem passado desde então. Fiquei tão impressionada que decidi comprar um dos livros de Xinran, As boas mulheres da China. Trate-se do relato de mulheres que viveram a violência de uma reeducação promovida por um sistema opressor.

A Mesa 14, Fama e Anonimato, foi composta por um dos maiores nomes do jornalismo, S2020134um dos precursores do New Journalism, gênero que une a precisão factual do jornalismo e os recursos estilísticos da literatura, Gay Talese. Neste dia acordei com a certeza de que assistiria ao Talese ao vivo de qualquer jeito. Não consegui comprar o ingresso para a sua mesa com a devida antecedência. Montei aparato, busquei meios, rodei mundo. Deu certo e valeu cada instante investido para o alcance da meta. Talese é um dos meus ídolos. Não poderia passar por Paraty junto com ele sem vê-lo beeeeeeem de pertinho. Ele deu uma verdadeira aula de jornalismo. Trago comigo um trecho de sua fala. “Um jornalista precisa deixar o seu laptop um pouco de lado, precisa ir às ruas, precisa falar com as pessoas comuns e tocar o mundo real. O bom profissional deve ter curiosidade, paciência e persistência”. Preciso falar mais? Putaqueopariu…

Né guri? Ô!

Graaaaaaaaaaaaaaaaande Talese. É isso aí meu filho. Jogo no teu time com orgulho e paixão.

S2020020A Mesa 15, Escrever é preciso, me apresentou um escritor português chamado António Lobo Antunes. Eu confesso que não o conhecia. MARAVILHOSO! Ele falou sobre as suas impressões e percepções sobre o ser escritor, o processo de criação, as qualidades do texto narrativo. Achei-o inteligente, perspicaz, instigante e acima de tudo sensível. Descreve sua rotina e seu trabalho com uma sensibilidade própria de quem enxerga e sabe ouvir. O angolano José Eduardo Agualusa, um dos excelentes autores contemporâneos de língua portuguesa, afirmou em entrevista que o escritor necessita de disponibilidade para desenvolver o ofício. “Ele precisa estar disponível para saber ouvir. Isso é fundamental”.

Lobo Antunes possui esta característica. Dono de uma visão de mundo abrangente e inovadora, o autor cativou a platéia com seus comentários apaixonados e bem-humorados.S2020091

Paraty é isso: uma combinação perfeita entre o natural e o urbano, entre a História e a cultura popular brasileira. Em época de FLIP, a cidade resplandece, tudo envolve, rapta, faz cócegas, cutuca, estimula, interessa, transmite algo. Regressei com a certeza de que experimentei o que posso chamar de único. Vi com nitidez um retrato do Brasil e do nosso povo, cujo talento e vitalidade extravasam expectativas.

Ressalto a qualidade da Flipinha, um espaço incrível e muito bem construído para as crianças. As escolas públicas e particulares de Paraty participam da festa de forma efetiva. A tenda reservada para a Flipinha é, sem dúvida, um ponto de encontro de alunos e professores, os quais apresentam atividades realizadas dentro de sala de aula. O resultado do trabalho é sensacional e permanece exposto na tenda durante os cinco dias de evento. As crianças interagem, aprendem brincando e se entregam à leitura. Espetacular!

S2020103Parabenizo também os artistas plásticos Julio Paraty (pintor) e Dalcir Ramiro (ceramista). Estive em uma vernissage promovida por eles no atelier do Dalcir. A exposição Paratienses em Paralelo apresentou o EXCELENTE trabalho que os dois desenvolvem na cidade. A recepção foi muito calorosa, ambos são a simpatia em pessoa e as peças e os quadros expostos no espaço são de uma beleza ímpar. Faço questão de deixar aqui o telefone de contato do atelier 55 24 3371-6035 e o endereço do local: Rua Santa Rita, nº 65 – Centro Histórico.

Até a próxima! Toco y me voy! Olé!

Deixo como registro musical Esquadros, uma das músicas que eu mais gosto da Adriana Calcanhoto, e que claro, fez parte da trilha sonora da viagem. Ouvi-a, inclusive, ao vivo, cantando-a com todos que no largo da Praça da Matriz se amontoaram para assistir ao show. LINDO!

Esquadros

Adriana Calcanhoto

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus…

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome…

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado…